A Retórica tem má fama desde os seus primórdios, pois, afinal, é inegável que ela pode ser – e é! – usada por pessoas mal-intencionadas para iludir, enganar, induzir ao erro e realizar objetivos egoístas, escusos, danosos ao interesse das pessoas a quem se destinam os seus discursos. Entretanto, a grande questão que emerge ao discutirmos o tema Ética e Retórica não é se ela pode ser usada para o mal, mas se pode ser usada para o bem.

Ética e Retórica podem conjugar-se para produzir efeitos justos, belos e bons, pelo princípio do amor ao próximo.
Ética e Retórica: um debate sobre meios e fins
Sobre esse tema, Richard M. Weaver, na página 6 do livro “The Ethics of Rhetoric”, destaca os três modos pelos quais a linguagem pode afetar o ser humano:
“Sofisticações teóricas não podem obscurecer a verdade que há apenas três modos pelos quais a linguagem pode nos afetar. Ela pode nos mover em direção ao que é bom; ela pode nos mover em direção ao que é mau; ou pode fracassar completamente em nos mover. Sem dúvida, há inúmeros graus de efeitos sob os dois primeiros movimentos, e o terceiro, como demonstraremos, é mais uma aproximação do que um efeito de zero absoluto”.
Ora, se os efeitos da Retórica podem mover pessoas tanto em direção ao bem quanto ao mal, é inevitável concluir que ela é uma ferramenta, um instrumento a serviço de um objetivo, não uma finalidade em si mesma. Bons ou maus podem ser os objetivos de seu uso, não as suas técnicas.
Rowland & Womack salientam o aspecto “amoral” – isto é, nem bom, nem ruim – da arte Retórica, embora seus produtos, isto é, os discursos propriamente ditos, possam ser tanto morais quanto imorais:
“Adicionalmente, argumentaremos que o sistema ético de Aristóteles é valioso porque dirige a atenção tanto às faculdades emocionais quanto racionais, e é bem-adaptado às necessidades de uma sociedade democrática. Desenvolveremos essa posição argumentando que a Retórica é tanto uma arte da descoberta de todos os meios de persuasão disponíveis, quanto um objeto produzido pelo retor. Como arte, a Retórica é amoral; como produto, pode ser moral ou imoral”.
Novamente, temos uma caracterização da Retórica como meio de atingir um objetivo. A discussão ética na retórica deve concentrar-se nos objetivos do discurso e nas formas e técnicas que empregamo-la para realizá-los, pois não podemos admitir como justificativa a ideia maquiaveliana dos fins que justificam os meios.
O ethos da influência
Craig R. Smith, no artigo “Ethos dwells pervasively – A hermeneutic reading of Aristotle on credibility”, constante no livro “The Ethos of Rhetoric”, de Michael J. Hyde (p. 5), sustenta que, na Retórica, o ethos assumia um sentido diferente da valoração em termos de bem e mal:
“O idealismo que de fato há na ‘Retórica’ de Aristóteles foi mais provavelmente uma influência de Isócrates do que de Platão. Para Aristóteles, ethos relacionava-se à construção da credibilidade do orador perante uma audiência, não ao valor inerente do orador”.
Essa definição do ethos como estabelecimento da credibilidade do orador, em vez da afirmação de suas qualidades morais, também contribui para a ideia da neutralidade ética (ou “amoralidade”) da Retórica, deixando a cargo da consciência do orador a qualidade moral de seu produto.
James Phelsan, em capítulo que aborda as relações entre ética e retórica na narração literária, explica que “a comunicação narrativa é um evento multifacetado, em que os narradores se esforçam para engajar e influenciar a cognição, as emoções e os valores de sua audiência. […] Consequentemente, a abordagem retórica envolve tanto uma ética do dito quanto uma ética do dizer”.
Ou seja, a Retórica é uma caixa de ferramentas a serviço da influência sobre o pensamento, o sentimento e as ações da audiência. Sua finalidade é ampliar a eficácia da mensagem de modo a exercer o mais alto grau de influência sobre o maior número possível de pessoas.
Porque devemos estudar a Retórica
O nome do jogo é influência, uma aspiração universal do ser humano. Na condição de seres sociais, somos sujeitos a todo tipo de influência, tanto positiva quanto negativa. Pais, cônjuges, filhos, irmãos; colegas de trabalho, chefes e subordinados; clientes, fornecedores e prestadores de serviços; amigos, vizinhos, conhecidos e parentes; governos, empresas, jornalistas e publicitários: todos se esforçam para exercer algum tipo de influência sobre você. Na atualidade, chegamos ao ponto em que o poder de influência se transformou num profissão muito bem remunerada – a dos influenciadores digitais que se especializam em formar a opinião de algum grupo humano nas redes sociais.
Portanto, o primeiro motivo pelo qual você deve estudar a Retórica é defensivo: se você não conhece as técnicas da Retórica, não as reconhecerá quando forem usadas contra você, contra os seus interesses e aspirações. Você ficará muito mais vulnerável à ação de “influenciadores” mal-intencionados, levianos ou irresponsáveis, sem se dar conta do que está acontecendo.
O segundo motivo pelo qual devemos estudar a Retórica é ofensivo: se você não aprender a usar as técnicas da Retórica, suas tentativas de influenciar seus semelhantes redundarão mais em fracassos do que em sucessos. Pouco importarão o seu uso superior da Lógica, o seu conhecimento técnico ou acadêmico, a elevação moral dos seus objetivos, a pureza de suas intenções: sua mensagem enfrentará barreiras elevadíssimas impostas pela indiferença, pelo ceticismo, pela maldade, pelos objetivos inconfessáveis. Assim, se você tem uma mensagem justa, bela e boa a transmitir a seus semelhantes, deve saber como apresentá-la em belas e atraentes vestes no palco da atenção pública.
Como conciliar Ética e Retórica
Primeiro, devemos entendê-la como o que é: uma caixa de ferramentas de influência sutil sobre pensamentos, sentimentos e ações. Devemos nos perguntar se nossos objetivos são éticos, morais, justos, belos ou bons; se pretendemos exercer boa ou má influência sobre nosso público. Em poucas palavras: nossa mensagem resultará em benefício das pessoas a quem nos dirigimos, ou tem um sentido egoísta, voltado para beneficiar apenas a nós mesmos?
Segundo, devemos repelir toda mentira, todo argumento falacioso; não devemos fugir da Lógica e da Razão, tentando substituí-las com apelo emocional ou à autoridade pessoal. Nada há de errado em revestir a argumentação lógica com técnicas persuasivas que mobilizem as emoções e, consequentemente, a atenção e o interesse da plateia. O conflito entre ética e retórica começa no momento em que tentamos compensar a falta de substância racional ou de base factual em nossos argumentos com o apelo ao emocionalismo barato, com a invenção de fatos e dados inexistentes, com a distorção de histórias reais, com o apelo a uma linguagem ambígua, com quaisquer táticas capazes de induzir nosso público ao erro.
Terceiro, devemos nos recusar terminantemente a usar técnicas psicológicas de caráter claramente manipulativo, destinadas a incutir ideias contrárias aos valores da audiência sem que passem por um exame racional das pessoas que compõem nosso público.
Finalmente, nosso uso da Retórica não deve expor as pessoas a riscos sérios sem um forte motivo. Por exemplo, não devemos propagar mensagens que possam induzir algumas pessoas a sofrer danos à sua saúde ou à perda das suas vidas; que possam levá-las a perder seus empregos, seus patrimônios, suas famílias, e, nos casos mais graves, a sua liberdade. Esse tipo de mensagem deveria ser reservado apenas para situações de altíssima gravidade, como guerras e cataclismos, ocasiões em que os danos provocados pela inação podem ser maiores do que os próprios perigos envolvidos na ação.
Em suma: se todas as suas decisões forem pautadas pelo princípio do amor ao próximo, não haverá motivo para se preocupar com a possibilidade de conflitos entre ética e retórica.
