No primeiro artigo desta série, salientei a importância de desenvolver o domínio da linguagem em nosso idioma pátrio para bem apreciar as grandes obras de Literatura Clássica. O Programa de Composição Clássica tem por objetivo a compreensão profunda de textos literários tendo em vista o desenvolvimento da habilidade de escrever com graça e estilo. O programa aborda em minúcias os componentes da beleza textual e treina a criança no seu uso para que se incorporem desde cedo à sua forma de escrever.
É necessário, também, compreender a definição de Literatura Clássica: “É uma obra que ao mesmo tempo em que reflete os valores do seu tempo, ultrapassa a época em que foi escrita; e, por isso, é sempre atual em sua universalidade. Tendo como características principais a perenidade, a universalidade e a onipresença na literatura posterior e a assimilação da literatura precedente”.
Literatura Clássica: como estudar uma obra em profundidade
Como relatado no segundo artigo desta série, cada obra é estudada em profundidade, incluindo referências cruzadas a outras obras históricas e literárias. Por exemplo, para estudar “A Divina Comédia” e “Os Lusíadas”, meus alunos precisam ter estudado anteriormente autores como Homero, Ovídio e Virgílio.

É muito difícil, senão impossível, compreender perfeitamente “Os Lusíadas”, de Camões, sem estudar outras obras da Literatura Clássica, como Homero, Ovídio e Virgílio.
Um exercício essencial durante os meus cursos é ensinar aos alunos como proceder à divisão geral da obra e à divisão esquemática de cada canto ou capítulo, de forma que possam guardar na memória os principais assuntos de cada uma dessas partes. Outro exercício importantíssimo para a vida intelectual é a redação de resenhas, ensaios e análises literárias. O aluno deve saber explicar, em detalhes, as partes mais sublimes da obra de literatura clássica que estudou.
A seguir, apresento mais uma análise de literatura clássica, desta vez redigida por minha aluna Ana Beatriz Banach Janez, do Canto V de “Os Lusíadas”:
O Gigante Adamastor
Por Ana Beatriz Banach Janez
Na obra literária “Os Lusíadas” de Luís Vaz de Camões, designadamente no canto V, retrata-se a narrativa da visita de Vasco da Gama ao rei de Melinde, onde o navegador busca relatar a sua viagem, a pedido do rei, desde o momento em que saiu de Portugal, em julho de 1497, até a chegada a Melinde, em janeiro de 1498; é uma bela exposição das aventuras que vivera desde o embarque até o momento do encontro. Presencia-se, também, no final do canto o desembarque dos lusos em Calicute.
“Não acabava, quando huã figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.”
(Os Lusíadas V, est. 39)
No decorrer de estâncias anteriores, apresentam-se, na navegação dos lusos, em mares que não haviam sido navegados por outrem antes destes, os vigias do navio, após o embarque na ilha de Santa Helena, em que foram cobertos por uma tempestade que envolvia a imagem de um gigante; após este fato, os portugueses ouviram o soar da água penetrando em um rochedo, revelando-se, a partir desse evento, a medonha figura que estavam por encontrar.
Na estância 39, supracitada, menciona-se o momento em que a embarcação de Vasco da Gama, ao descer as costas africanas e contornar o Cabo da Boa Esperança, encontra-se com o gigante nomeado “Adamastor”. O poeta canta, nesta estrofe, a fisionomia do gigante, correspondendo a um grandioso ser, de aproximadamente 70 metros de altura, com odiosa expressão e barba suja, de clara cor, bem nutrido e de cabelos crespos. Devido à sua estatura, Adamastor é referido, na estância 40, como semelhante ao Colosso de Rodes, enorme estátua em honra ao deus do Sol, Hélios, erguida na ilha de Rodes, considerada uma das sete maravilhas do mundo antigo.
“E disse: ‘Ó gente ousada, mais que quantas
No mundo cometeram grandes cousas,
Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
E por trabalhos vãos nunca repousas,
Pois os vedados términos quebrantas
E navegar meus longos mares ousas,
Que eu tanto tempo há já que guardo e tenho,
Nunca arados de estranho ou próprio lenho:
Pois vens ver os segredos escondidos
Da natureza e do úmido elemento,
A nenhum grande humano concedidos
De nobre ou de imortal merecimento,
Ouve os danos de mi que apercebidos
Estão a teu sobejo atrevimento,
Por todo o largo mar e pola terra
Que inda hás de sojugar com dura guerra’”.
(Os Lusíadas V, est. 41 e 42)
Principia-se, na estância 41, a dialética do monstro com os portugueses, na qual os provoca impetuosamente, ao comentar os trabalhos que realizaram, criticando-os por cumprirem-no apenas por vanglória. Ocasionou-se esta fala devido ao monstro não aceitar a náutica dos lusos em busca das Índias; por sua mera consternação com o fato de que os portugueses não se comportavam buscando a devida importância para o que constituíam; todavia, Adamastor também deixa transparecer uma certa admiração e espanto por ousarem navegar seus mares, sendo que nenhum outro ainda demonstrara tal coragem.
A estância 42 exibe, sobretudo, as profecias que a criatura relata a Vasco da Gama, intensificando o momento de terror que estariam por sofrer, como a árdua guerra e o escorbuto (doença repugnante que não se tinha visto anteriormente, ocasionada pela falta de vitamina C na alimentação); no entanto, Vasco da Gama corta sua fala em razão de não desejar que tais fatos ocorram, posteriormente, suplicando ao céu para que não sejam reais.
“Eu sou aquele oculto e grande Cabo
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram, fui notório.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que pera o Polo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende!”
(Os Lusíadas V, est. 50)
A estância 50 relata a resposta de Adamastor ao questionador capitão, dizendo que ele é a personificação do Cabo da Boa Esperança – Bartolomeu Dias nomeia a região como Cabo das Tormentas, porém, D. João II altera a designação para “Cabo da Boa Esperança”, representando o sucesso de Portugal nas navegações. Em consequência de sua paixão por Tétis (mãe de Aquiles, na mitologia), fora metamorfoseado em rochedo, padecendo a punição de apenas abraçar as ondas. Nunca conhecido pelos geógrafos da Antiguidade, o Cabo é última porção de terra do continente africano, que se alonga em direção ao Polo Sul. Diante de tais fatos, dizia sentir-se ofendido pela ousadia dos portugueses.
Determina-se, a partir disso, que o colossal ser simboliza o medo dos navegadores diante do desconhecido, os obstáculos e as dificuldades a vencer; deste modo, o desaparecimento do gigante significa a superação da angústia dos portugueses em meio aos perigos e, consequentemente, o completo domínio dos mares.
