O ensino da Literatura Clássica: resultados práticos
Há pouco mais de três anos, iniciei um projeto de Estudos Clássicos – ensino da Literatura Clássica – num colégio católico no interior de São Paulo. Meus alunos aprenderam a ler, discutir e analisar grandes obras da Literatura Clássica Ocidental. A cada ano, estudamos autores relacionados a um período histórico específico.
Dedicamos um ano a autores clássicos da antiguidade, um ano a autores da Idade Média e um ano a autores modernos. A partir do próximo ano, iniciaremos uma nova etapa com autores contemporâneos. Os alunos que hoje estão no 2º ano do Ensino Médio, já estudaram a “Eneida”, de Virgílio; as “Metamorfoses”, de Ovídio; o “Inferno” (Divina Comédia), de Dante, “Os Lusíadas”, de Camões. O segundo semestre deste ano será dedicado ao estudo de uma peça selecionada de Shakespeare.
Esses alunos não apenas aprenderam a estudar uma obra de literatura clássica, como a fazer a divisão correta de cada canto ou capítulo, bem como a escrever resenhas e análises literárias. Deste modo, capacitaram-se a citar de memória quais assuntos são tratados em cada capítulo ou canto específico.
É preciso salientar que estes alunos tiveram um preparo inicial adquirindo o domínio da linguagem através do Programa de Composição Clássica. Neste programa, os alunos estudam trechos selecionados de grandes autores da Língua Portuguesa, assimilam um rico vocabulário e referências culturais, além de adquirirem a compreensão de figuras de linguagem – ou seja, aprendem as nuances da riqueza de nossa idioma pátrio. A partir da Fase Retórica (9º ano ao 3º ano do Ensino Médio), estão preparados para alçarem voos mais altos, absorvendo as riquezas dos grandes autores da Literatura Clássica Ocidental.
Veja, a seguir a análise literária do Canto V de “Os Lusíadas”, redigida por Nicole Aparecida Hergesel Medeiros, aluna do 2º ano do Ensino Médio, a qual gentilmente permitiu a publicação de seu trabalho neste espaço.
COMENTÁRIOS AO CANTO V DOS LUSÍADAS
Por Nicole Hergesel
Este trabalho tem por objetivo apresentar citações e comentários acerca do Canto V da magna e, ouso dizer, mais importante epopeia lusitana, o consagrado “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões. Contudo, antes de adentrarmos aos comentários e apreciarmos algumas de suas belíssimas e ricas estâncias faz- se necessário, assim como em qualquer bom estudo de uma obra literária, compreender do que trata tal Obra, para esclarecermos porque é digna de ser comentada. Como sabemos, para bem entender uma obra é preciso estudar a biografia do autor, pois, somente desta forma é possível compreender o que levou o autor a escrevê-la, porque foi escrita de tal maneira, e qual era o contexto que o inspirou a compor o grandioso poema.
“Os Lusíadas”, conhecido como a obra fundadora da língua portuguesa, a “certidão de nascimento da língua portuguesa”, é uma epopeia lusitana, escrita por Luís Vaz de Camões, que narra a descoberta da rota marítima para a Índia pelo herói desta obra, Vasco da Gama e as subsequentes conquistas lusitanas. O poeta também demonstra sua veneração pelo rei português, D. Sebastião, e pela Fé Católica, evocando no decorrer do texto, de maneira épica, marcantes episódios da história dos Lusos.
A respeito do insigne poeta por trás de majestosa obra, lembramos que Camões nasceu no ano de 1524 e faleceu em junho de 1580. Estudou na Universidade de Coimbra e atuou como soldado, por obrigação, lutando na África, onde perdeu um olho. Voltou para Lisboa e, em 1552, foi preso por envolvimento numa desordem, mas, no ano seguinte, foi liberto. A bordo da nau “São Bento”, partiu de Lisboa para a Índia a serviço de El-Rei, passando por Goa, Malabar, Mar Vermelho, dentre outros lugares. Após essa desafiadora viagem, voltou para Portugal no ano de 1569. Em 1572, inspirado por grandes poetas e por seus conhecimentos marítimos, escreveu a magna obra, “Os Lusíadas”.
O canto V da obra narra a largada de Lisboa, ou seja, a partida de tão amada Pátria. Neste canto, o poeta descreve, em suas admiráveis estâncias, o caminho percorrido pelos marinheiros e os desafios por eles enfrentados durante toda a viagem: a tromba marítima e a doença que os afligiu; além da exaltação de Vasco da Gama e das aventuras portuguesas, comparando-as às de outros antigos heróis. É importante ressaltar que este canto trata da narração feita por Vasco da Gama ao Rei de Melinde. Embora todas as estrofes sejam dignas de louvor, destacamos:
Entrava neste tempo o eterno lume
No animal Nemeio truculento;
E o Mundo, que co tempo se consume,
Na seista idade andava, enfermo e lento.
Nela vê, como tinha por custume,
Cursos do Sol catorze vezes cento,
Com mais noventa e sete, em que corria,
Quando no mar a armada se estendia.
(Camões, 1572, Canto V, est 2).
Esta estrofe sintetiza as três primeiras estrofes do Canto V, mais especialmente, a primeira, onde o poeta incluiu um desfecho do canto anterior e o início de uma breve narração sobre a partida de Lisboa. Nesta estrofe propriamente, Camões apenas descreve de maneira poética o momento em que os valorosos marinheiros deixaram sua amada Pátria. Os termos “eterno lume” e “animal Nemeio” seriam o sol e o mitológico “leão de Nemeia”, significando que o Sol entrava na constelação de Leão. Junto com o termo “seista”, referem-se ao mês de junho. Os termos “catorze vezes cento” e “mais noventa e sete” fazem referência a 1497, ano da partida rumo às Índias.
Assi fomos abrindo aqueles mares,
Que gèração algũa não abriu,
As novas Ilhas vendo e os novos ares
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda, que à dereita
Não há certeza doutra, mas suspeita.
(Camões, 1572, Canto V, est 4).
Escolhi esta estrofe pois ela bem resume os acontecimentos narrados a partir dela até a estrofe quinze. Nesta estância, Camões faz referência a Henrique, o Navegador, o incentivador das navegações portuguesas, e a Anteu, gigante filho de Poseidon e Gaia, que, segundo a mitologia grega, habitava e dominava a Mauritânia. Anteu também é citado por Dante no Canto XXXI do “Inferno” (parte do épico “A Divina Comédia”). Os termos “à mão esquerda”, “à dereita” e “Não há certeza doutra, mas suspeita”, significam que os marinheiros sabiam que, à esquerda, ficava a costa africana; no entanto, não sabiam se, no oceano, à direita, havia outra terra, apenas faziam suposições.
Quanto ao fato desta estrofe resumir as outras seguintes: nas estâncias subsequentes, Camões narra os locais por onde eles passaram, sendo eles, a Ilha da Madeira, “amada de Vênus”; Massília, “a estéril costa”; Cabo Verde, o “Cabo Arsinário”; Ilha de Santiago, o santo que “aos espanhóis muito ajudou”; província de Jalofo, que “reparte as negras gentes”; Mandinga, “por cuja arte os portugueses lograram o metal rico e luzente”; Dórcadas, onde “habitavam as três Górgonas”; Cabo das Palmas, “assim batizado pelos portugueses”; e o Reino de Congo, “convertidos por eles a Cristo”.
Já descoberto tínhamos diante,
Lá no novo Hemisperio, nova estrela,
Não vista de outra gente, que, ignorante,
Alguns tempos esteve incerta dela.
Vimos a parte menos rutilante
E, por falta de estrelas, menos bela,
Do Polo fixo, onde inda se não sabe
Que outra terra comece ou mar acabe
(Camões, 1572, Canto V, est 14)
Embora esta citação possa ser considerada modesta, não poderia deixar de citar esta estância, a qual cita “nova estrela”, que se refere ao Cruzeiro do Sul! Segundo Jaime Cortesão, este nome só poderia ter surgido de um “povo de navegantes e de poetas profundamente religioso”. O termo “onde” presente no verso que se inicia com “Polo fixo” refere-se ao Céu do Polo Sul.
Vi, claramente visto, o lume vivo
Que a marítima gente tem por Santo,
Em tempo de tormenta e vento esquivo,
De tempestade escura e triste pranto.
Não menos foi a todos excessivo
Milagre, e cousa, certo, de alto espanto,
Ver as nuvens, do mar com largo cano,
Sorver as altas águas do Oceano.
(Camões, 1572, Canto V, est 18).
Nesta estrofe, Camões descreve o Fogo de Santelmo e a tromba marítima. A frase “vi, claramente visto” quer dizer que Camões não sonhou ou soube por informação de outros. O Fogo de Santelmo era uma forte luz azul que aparecia na ponta dos mastros das embarcações, mas nada queimava; recebeu este nome em homenagem ao santo padroeiro dos marinheiros, Santo Elmo. Atualmente este fenômeno é definido como um plasma, isto é, uma descarga elétrica que emite luz. Quanto à tromba marítima, ela é citada a partir desta estrofe até a estrofe vinte e três, e se refere a uma massa de vapor d’água erguida em coluna e animada por um movimento rápido, que pode atingir elevadas alturas, e que é acompanhada de chuva, relâmpago e de granizo. A respeito do Fogo de Santelmo, Camões preferiu não desenvolver um enredo mitológico.
Outro também virá, de honrada fama,
Liberal, cavaleiro, enamorado,
E consigo trará a fermosa dama
Que Amor por grão mercê lhe terá dado.
Triste ventura e negro fado os chama
Neste terreno meu, que duo e irado,
Os deixará dum cru naufrágio vivos,
Pera verem trabalhos excessivos.
(Camões, 1572, Canto V, est 46).
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio e Estrabo,
Plínio, e quantos passaram, fui notório.
Aqui toda a Africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que pera o Polo Antártico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende!
(Camões, 1752, Canto V, est 50).
Amores da alta esposa de Peleu
Me fizeram tomar tamanha empresa.
Todas as Deusas desprezei do Céu,
Só por amar da Águas a Princesa.
Um dia a vi, co as filhas de Nereu,
Sair nua na praia: e logo presa
A vontade sinti, de tal maneira,
Que inda não sinto cousa que mais queira.
(Camões, 1572, Canto V, est 52).
Escolhi estas três estrofes, pois abrangem, de forma simples, a participação do Cabo das Tormentas, representado por Camões como uma figura mitológica de nome “Adamastor”. Adamastor era um gigante, um dos Titãs que lutou contra os deuses do Olimpo, antes de ser transformado no Cabo das Tormentas. Antes de narrar sua metamorfose, ele faz algumas previsões funestas, como naufrágios e a morte de Dom Manuel de Souza, de sua esposa D. Leonor e de seus filhos, citada na estrofe quarenta e seis. Na estrofe cinquenta, ele se apresenta aos portugueses; os homens, citados por nomes “Ptolomeu, Pompónio e Estrabo” eram geógrafos, e “Plínio” era um grande cientista da Roma Antiga. Quanto à metamorfose de Adamastor, na estrofe cinquenta e dois ele revela o que o levou a ser punido: ele se apaixonou pela deusa Tétis, e vendo-a no mar, ao tentar agarrá-la, viu-se abraçado a uma rocha e, então, sua transformação se iniciou: seu corpo metamorfoseou- se no Cabo Tormentório, sendo sua punição nunca poder abraçar Tétis, mesmo ela o cercando através das águas.
A gente que esta terra possuía,
Posto que todos Etiopes eram,
Mais humana no trato parecia
Que os outros que tão mal nos receberam
Com bailos e com festas de alegria
Pela praia arenosa a nós vieram,
As mulheres consigo e o manso gado
Que apacentavam, gordo e bem criado.
(Camões, 1572, Canto V, est 62).
E foi que, estando já da costa perto,
Onde as praias e vales bem se viam,
Num rio, que ali sai ao mar aberto,
Batéis à vela entravam e saíam.
Alegria mui grande foi, por certo,
Acharmos já pessoas que sabiam
Navegar, porque entre elas esperámos
De achar novas algũas, como achámos.
(Camões, 1572, Canto V, est 75).
Na estrofe sessenta e dois, Camões cita o encontro com pessoas que bem os acolheram (diferente de um anterior), mas que não sabiam dar informações a respeito das Índias devido ao fato de não compreenderem o idioma. Na estrofe setenta e cinco, ele revela a alegria de poder encontrar navegantes como eles, com os quais conseguiram dialogar e receber informações mais precisas sobre seu destino.
E foi que, de doença crua e feia,
A mais que eu nunca vi, desempararam
Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
Os ossos pera sempre sepultaram.
Quem haverá que, sem o ver, o creia,
Que tão disformemente ali lhe incharam
As gingivas na boca, que crecia
A carne e juntamente apodrecia?”
(Camões, 1572, Canto V, est 81).
Nesta estrofe e em três outras mais, o poeta descreve, com tristeza, a doença que afligiu a tripulação. Segundo ele, além da falta de alimentos e as complicações marítimas, ainda tiveram que suportar este grande mal, isto é, o escorbuto, que consiste em uma doença causada pelo défice de vitamina C, causando o surgimento de hematomas, inchaço das gengivas, mau odor, entre outros malefícios. Além disso, não havia médicos, nem ninguém que entendesse a gravidade da doença e, por isso, muitos morreram.
Até que aqui, no teu seguro porto,
Cuja brandura e doce tratamento
Dará saúde a um vivo e vida a um morto,
Nos trouxe a piedade do alto Assento.
Aqui repouso, aqui doce conforto,
Nova quietação do pensamento,
Nos deste. E vês aqui, se atento ouviste,
Te contei tudo quanto me pediste.
(Camões, 1572, Canto V, est 85).
Ventos soltos lhe finjam e imaginem
Dos odres e Calipsos namoradas;
Harpias que o manjar lhe contaminem;
Decer às sombras nuas já passadas:
Que, por muito e por muito que se afinem
Nestas fábulas vãs, tão bem sonhadas,
A verdade que eu conto, nua e pura,
Vence toda grandiloca escritura!>>
(Camões, 1572, Canto V, est 89).
Na estrofe oitenta e cinco, Vasco da Gama finaliza a sua narração a respeito da aventura marítima que os portugueses enfrentaram antes chegar a Melinde e agradece ao rei pelo piedoso acolhimento. Na estância oitenta e nove, Vasco da Gama enfim termina seu discurso exaltando os portugueses, ao comparar a “grandiloca escritura”, isto é, as epopeias grandiosas da Antiguidade Clássica, com a verdade dele: ou seja, é de maior valor a verdade, que um belo conto.
Por isso, e não por falta de natura,
Não há também Virgílios nem Homeros;
Nem haverá, se este costume dura,
Pios Eneias nem Aquiles feros.
Mas o pior de tudo é que a ventura
Tão ásperos os fez e tão austeros,
Tão rudos e de ingenho tão remisso,
Que a muitos lhe dá pouco ou nada disso.
(Camões, 1572, Canto V, est 98).
Anteriormente a esta estrofe, Camões faz algumas considerações a respeito do fato de que os portugueses davam mais valor às guerras do que aos poemas. E tal desvalorização de tão grande arte, fez com que Camões escrevesse, nesta estância, que não haveriam tantos relatos de feitos heroicos, mesmo que em Portugal houvesse muito talento. Os termos “Virgílios e Homeros” representam grandes poetas épicos; “Pios Eneias nem Aquiles feros” – piedoso Eneias e valente Aquiles – representam os heróis dos poemas épicos de Homero e Virgílio; e “rudos e de ingenho tão remisso” significa que os portugueses de então teriam um descuido com o talento, ou seja, pouco se importavam com os poemas.
Após contemplarmos portentosas estâncias, é possível admirar a beleza e o cuidado com que Camões escreveu tão grande obra, além de apreciarmos, obviamente, os feitos portugueses, as dificuldades que enfrentaram, a coragem com que aguentaram os diversos desafios, que lhes resultou em tamanha grandiosidade – para sempre lembrados como grandes e valorosos homens.
Referências
ACONI, Alexandre. O que é o misterioso “raio” que aparece nos para-brisas de aviões? UOL Economia – Todos a Bordo, São Paulo, 24 jun. 2021. Disponível em: UOL Economia – Todos a Bordo. Acesso em: 11 jun. 2026.
A DIVINA COMÉDIA: Inferno. [S. l.]: Stelle, [s. d.]. Disponível em: http://stelle.com.br/pt/inferno/inferno.html. Acesso em: 11 jun. 2026
CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. 3ª Edição. Porto: Editora Porto, 2024.
CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Edição comentada. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército, 1980.
TROMBA marítima. Infopédia. Porto: Porto Editora, [s.d.]. Disponível em: https://www.infopedia.pt/artigos/$tromba-maritima. Acesso em: 11 jun. 2026

