Frutos do ensino da Literatura Clássica | Lorena de Carvalho

Relatei, no último artigo, a experiência do ensino de Literatura Clássica para alunos da Fase Retórica – a partir do 9º ano e Ensino Médio. Afirmei também que, a cada ano, nos dedicamos ao estudo de uma obra literária relacionada a um determinado período histórico.

Ao estudarmos a “Eneida”, por exemplo, tomamos como referência fatos mencionados pelo historiador Tito Lívio, que, logo nos primeiros capítulos da obra “Ab urbe condita“, relata a origem mítica do povo romano, mencionando a chegada de Antenor e Eneias, dois grandes guerreiros aliados a Troia que se estabeleceram na Itália, após o fim da guerra. Os alunos fazem também referências cruzadas a obras de Homero – Ilíada e Odisseia e às de Ovídio – principalmente, Metamorfoses e Heroides. Alguns textos são lidos em paralelo, para que os alunos possam ter uma compreensão mais profunda da Eneida.

O mesmo ocorre ao estudarmos a obra “Inferno” de Dante, no primeiro ano do Ensino Médio. Fazemos inúmeras referências cruzadas a Virgílio – o guia de Dante no Inferno e no Purgatório – bem como a diversas de suas referências literárias a personagens mencionados por Virgílio na “Eneida” e por Ovídio em “Metamorfoses”. Fazemos constantemente o estudo das referências históricas citadas pelo poeta, assim como, sempre que necessário, a outras referências culturais, teológicas e filosóficas.

No segundo ano do ensino médio, meus alunos já sorveram todas essas referências à literatura clássica, sentindo-se preparados para acompanhar o relato literário da grandiosa epopeia de Camões. Ao estudar o Canto I, por exemplo, identificam com certa facilidade as referências do poeta a Ovídio, Homero e Virgílio. O maior desafio para eles é, certamente, identificar as inúmeras referências a personagens da História de Portugal, desde a sua origem mítica até a época de Vasco da Gama.

Veja, a seguir o escólio do Canto V de “Os Lusíadas”, redigido por Lorena Maria Sarubo de Carvalho, aluna do 2º ano do Ensino Médio:

Literatura Clássica: comentários ao Canto V de Os Lusíadas

por Lorena Maria Sarubo de Carvalho

A renomada obra “Os Lusíadas”, de Luís Vaz de Camões, moldou indissoluvelmente a nossa amada língua. Seu escrito trouxe o primor dos clássicos. Provou, sem sombra de dúvida, ter estudado os épicos, desde Homero. Consolidou na Lusitânia um canto sublime que foi “espalhado e entoado pelo universo”. Observar a viagem de Vasco da Gama não é apenas ouvir a história de um homem qualquer, é acompanhar a jornada de um herói que, valente, desbravou não apenas terras, mas o indomável mar. Contemplamos varões que entraram em seus navios sem ter certeza de seu próprio fado, mas com almas grandiosas provaram que o “espelho do céu” era destinado a ser de Portugal.

Camões nasceu, provavelmente, em Lisboa, em meados do terceiro século. Sobre sua família existem poucos relatos. Foi em Coimbra que recebeu a influência dos famosos poetas e começou ele mesmo a cantar seus versos. Mesmo que se encontrasse entre a nobreza, a Fortuna lhe destinou a vida militar. Foi em serviço na África que perdeu um dos seus olhos. Mesmo a “ferida” sendo uma prova de sua coragem e lealdade, quando retornou à pátria, essa deformidade foi motivo de zombaria, mas seu coração transformaria em estrofes todos os seus sofrimentos. Após agredir um oficial da corte (Gonçalo Borges), foi preso; não por muito tempo, porém, após liberto, não pôde permanecer em terras portuguesas. Foi longe de seu país que escreveu sua “obra-prima”, exaltando os feitos bravios de seus gloriosos compatriotas. Por fim, deixou a vida no dia 10 de junho de 1580.

As naus portuguesas avistam o Cruzeiro do Sul, momento crucial da magnífica obra de literatura clássica "Os Lusíadas", de Camões.

As naus portuguesas avistam o Cruzeiro do Sul.

O quinto canto de “Os Lusíadas” marca a metade do épico, pois este possui dez livros. No canto IV, D. Manuel teve um sonho profético, que o impulsionou a convocar Vasco da Gama para essa empreitada. Após a despedida em Belém e o discurso do Velho do Restelo, o próximo “capítulo” se inicia e a viagem de Gama começa a ser relatada. Destaca-se o momento no qual as naus passam pela linha do equador:

Já descoberto tínhamos diante,
Lá no novo Hemisfério, nova estrela,
Não vista de outra gente, que, ignorante,
Alguns tempos esteve incerta dela.
Vimos a parte menos rutilante
E, por falta de estrelas, menos bela,
Do Pólo fixo, onde inda se não sabe
Que outra terra comece ou ar acabe.
(OS LUSÍADAS, V, estrofe 14).

Nessa estância, notamos que os navegantes perceberam a diferença das constelações celestes: eles contemplaram o “Cruzeiro do Sul”. Ou seja, não era apenas a bravura que lhes movia; o intelecto também se fazia necessário para o bom andamento dessa missão. Eles não sabiam ao certo onde estavam, não enxergavam ilhas nem sabiam se logo ou não veriam terra firme, mas confiavam no firmamento e Naquele que o criou.

A calmaria e a paz não poderiam governar para sempre. Tormentas e procelas subitamente expulsavam o áureo carro de Apolo, e os raios de Júpiter enchiam o horizonte. Entretanto, os olhos do navegador se impressionaram com um fenômeno espantoso denominado “Fogo de Santelmo”. Os nautas relacionavam esse acontecimento à melhora no clima, pois ocorria no fim de fortes trovoadas. Por esse motivo, homenagearam o Santo dos Navegadores (Santo Elmo).

Eu o vi certamente e (não presumo
Que a vista me enganava): levantar-se
No ar um vaporzinho e sutil fumo,
E, do vento trazido, rodear-se;
De aqui levado um cano ao Pólo sumo
Se via, tão delgado, que enxergar-se
Dos olhos facilmente não podia;
Da matéria das nuvens não parecia.
(OS LUSÍADAS, V, estrofe 19).

O Fogo de Santelmo é um conjunto de pequenas descargas elétricas, um tanto barulhentas, que se movimentando nas pontas dos mastros dos navios. O ponto mais relevante é que, embora fosse um fato experienciado por outros marinheiros, era, todavia, uma novidade para os lusitanos. Diversos escritos registravam mitos e contos sobre o Fogo de Santelmo, mas eles puderam contemplá-lo pessoalmente pela primeira vez. Foi um desafio colocar em prática o que apenas fora lido; porém, eles conseguiram atravessar esse obstáculo, que não seria o último da expedição.

O segundo auge, talvez o mais relevante desse canto, é, indiscutivelmente, o episódio do Cabo das Tormentas. Camões não descreve essa história como algo científico ou natural, mas compõe uma mitologia digna de seu canto. Após o fogo visto nas naus, os lusos encontraram terra firme, provavelmente na Baía de Santa Helena; lá, Fernão Veloso teve sua própria aventura. Cinco dias haviam se passado quando uma criatura escura começou a aparecer diante deles. Gama mal terminara sua prece quando percebeu um gigante à sua frente. O poeta descreve a aparência daquele ser aterrorizante.

Não acabava, quando hua figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má, e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.
(OS LUSÍADAS, V, estrofe 39).

Tratava-se de “Adamastor”, um dos gigantes, filho da Terra, que se revoltou contra Jove. Por essa razão, foi lançado nos mares, onde pranteava, formando as águas salgadas dos oceanos. Ele se encolerizava com todos que tentavam cruzá-lo e não se satisfazia até que tivesse afundado suas embarcações. O monstro fala aos portugueses e afirma que já havia ceifado de muitos a vida e profetiza funesto fado para os lusitanos. Vasco da Gama, desconhecendo o ser que lhe falava, pergunta-lhe quem era. Este lhe responde ser o cabo ignorado pelos estudiosos e que fora o comandante escolhido para batalhar contra Netuno. Conta que fora apaixonado por Thetis, e que esta lhe rejeitava por ser uma besta. Todavia, para afastá-lo da guerra e trazer a divina vitória, ela fingiu ceder aos seus cortejos e acordou um encontro às escondidas. Entretanto, quando ele correu para abraçá-la, percebeu que abraçava uma rocha. Após terminar seu relato, ele se põe em
prantos e desaparece.

Adamastor profetizou que os portugueses pagariam por sua audácia. De fato, eles pagaram; muitos marinheiros feneceram, inclusive Bartolomeu Dias, a quem o monstro chama de “seu descobridor”, teve seu fim nas águas salgadas. O ilustre Manuel de Souza encontrou, também, trágico fim junto à sua família, em um naufrágio em 1552. Percebemos que o poeta utiliza dessa descrição mitológica para tanto dar relevo ao acontecimento quanto para ensinar que um preço sempre é pago. Não em um tom de lamento, mas no mesmo tom que posteriormente levou Fernando Pessoa a dizer que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

As dificuldades enfrentadas pelos lusos assemelham-se aos obstáculos de Odisseu e Eneias. Essa é uma prova concreta de que Luís bebeu dessa fonte de grandiosos poetas. Todavia, há uma diferença nítida. Quando vemos Vasco indagando: “Quem és tu?” (OS LUSÍADAS, V, estrofe 49). Percebemos que, mesmo amedrontado, ele não cede à covardia, mas o que marca a diferença é que esse “mito” representa o medo do desconhecido. Esse temor é superado com essa pergunta, pois, ao proferi-la o nauta derrota o gigante. Não precisou fugir, entregar companheiros, implorar aos deuses (ainda que tenha orado ao único Deus) ou clamar piedade. Com valentia, enfrentou o desconhecido e provou mais uma vez que uma vontade maior estava a seu favor.

Por fim, concluímos que, mesmo que o poeta misture o fictício e o real e “copie” seus “mestres”, seu foco é totalmente diferente. Os heróis que ele canta são reais. Vasco da Gama distingue-se de figuras moldadas por lendas. Os portugueses sangraram e choraram para conquistar o oceano e cumprir o mandato dado pelo próprio Cristo. Quando refletimos sobre isso, esse livro deixa de ser uma mera imitação dos clássicos e passa a ser um retrato da bravura dos “barões assinalados”.

Vias Clássicas Valorizando o ConhecimentoOptimized with PageSpeed Ninja