Lógica: por que estudá-la?

Em diversos artigos desta publicação, abordamos a chamada “fase lógica”, uma proposta da educadora inglesa Dorothy Sayers em seu ensaio “Ferramentas perdidas da aprendizagem”, que se destinava à reintrodução de alguns princípios da Educação Clássica ao sistema educacional britânico de sua época (1947-48). O nome dessa “fase de desenvolvimento” inclui a palavra “lógica”, o que conduz a algumas perguntas tão naturais quanto inevitáveis: o que é lógica? Para que serve? Deve ser incluída como “matéria” no “currículo” de crianças e adolescentes? Em caso positivo, qual é a vantagem de estudá-la? Se o jovem se inclina pelas “ciências humanas”, será que ele precisa mesmo estudar lógica – ou somente os estudantes voltados para as “ciências exatas”, tais como a ciência da computação, terão essa necessidade?

O estudo da lógica liberta a inteligência da gaiola cognitiva dos argumentos falaciosos. (metáfora visual)

O estudo da lógica liberta a inteligência da gaiola cognitiva dos argumentos falaciosos.

Neste artigo, abordaremos uma definição simples de Lógica, discutindo um fator relevante que tende a limitá-la, bem como um primeiro benefício de seu estudo. Em próximos artigos, veremos as respostas às outras dúvidas e perguntas mencionadas anteriormente.

O que é a Lógica e o obstáculo da racionalidade limitada

Nos seus termos mais elementares, podemos entender a Lógica como a ciência que investiga o raciocínio com o objetivo de avaliar sua correção. Todos os que já participaram de uma discussão sobre qualquer tema, ainda que o mais singelo, podem testemunhar como certas coisas que as pessoas dizem em defesa de uma ideia – os assim chamados argumentos são mais convincentes do que outras. Algumas dessas coisas nos “obrigam” a aceitar certas ideias, ainda que a contragosto, enquanto outras soam completamente “erradas”, ainda que não saibamos exatamente o que está errado e por quê.

Também podemos observar que, diante de um argumento que nos pareça correto, sentimo-nos irracionais se nos recusamos a aceitá-lo e irritamo-nos com qualquer pessoa que insista em dele discordar. Chamamos “teimosas” a essas pessoas: a definição própria de “teimosia” é, justamente, a recusa irracional em aceitar um argumento racional, que deveria conquistar a inteligência pela sua simples correção.

Porém, como sabemos se um raciocínio está realmente correto, ou se contém algum defeito que nos deveria obrigar a, senão rejeitá-lo integralmente, pelo menos a recebê-lo com uma prudente dose de desconfiança ou dúvida? Afinal, somos criaturas cuja percepção subjetiva muitas vezes interfere diretamente sobre nossa avaliação racional de fatos objetivos.

Na excelente síntese de Bryan D. Jones, “A (noção de) racionalidade limitada assevera que os tomadores de decisão são intencionalmente racionais, isto é, orientados a metas e adaptativos; porém, devido à arquitetura cognitiva e emocional do ser humano, eles, às vezes, falham; ocasionalmente, em decisões importantes”.

Fatores limitantes da racionalidade

Entre os fatores que limitam a racionalidade de nossa avaliação de argumentos, destacamos os seguintes, porque facilmente entendidos e imediatamente reconhecíveis pela maioria das pessoas:

  • Apreciação pessoal do argumentador. Quando admiramos ou gostamos pessoalmente do argumentador, tendemos a ser mais benevolentes com suas falhas de raciocínio; no limite, podemos até mesmo ignorá-las por completo e concordar com todas as suas conclusões sem submetê-las a qualquer escrutínio. Por outro lado, quando o sentimento predominante em relação à pessoa que apresenta o argumento é de antipatia ou de antagonismo, tendemos a nos manter hostis a toda a sua argumentação, rejeitando até mesmo aqueles mais sensatos e corretos.
  • Interesse pessoal na conclusão. Se, por qualquer motivo, seja pessoal, profissional, político ou empresarial, tivermos interesse numa conclusão, tenderemos a rejeitar todo argumento que dela nos afaste e a acatar todo argumento que dela nos aproxime.
  • Gatilhos emocionais. Quando certas palavras e expressões disparam fortes reações emocionais, tendemos a rejeitar toda argumentação subsequente, ainda que perfeitamente racional.
  • Pressão do grupo. Se o nosso grupo de referência aceita ou rejeita em bloco uma certa linha argumentativa, podemos nos sentir pressionados a também aceitá-la ou rejeitá-la, para não sermos discriminados como os “do contra”.

Estes quatro exemplos bastam para perceber que a racionalidade de nossa avaliação de um argumento pode limitar-se severamente por fatores subjetivos, que nenhuma relação têm com a verdade da conclusão ou com os méritos da argumentação.

Restaurando a racionalidade

Embora todos estejamos sujeitos às limitações da racionalidade, podemos, sim, ser treinados para restaurá-la e ampliar seu alcance. Como diz Ariel Rubinstein na página 22 do livro “Modelling Bounded Rationality”:

“Alguns afirmaram que os fenômenos demonstrados nos experimentos acima são desinteressantes, na medida em que expressam ‘erros’ que desaparecem assim que os participantes tomam conhecimento de sua existência. Eles argumentam que os economistas não se interessam por investidores que acreditam que 1 + 1 = 3 (…) Sinto discordar. Rotular um comportamento como ‘errado’ não o torna desinteressante. Se houver muitos investidores em um mercado que calculam 1 + 1 = 3, então seu ‘erro’ pode ser economicamente relevante. O fato de que o comportamento pode ser alterado depois que os participantes forem informados de seus ‘erros’ é interessante, mas o comportamento na ausência da revelação dos erros também o é, porque, na vida real, raramente existem ‘identificadores de erros’ explícitos”.

 

O primeiro passo para ‘criar anticorpos’ contra os erros de avaliação e a irracionalidade em geral é o estudo metódico e sistemático da lógica. Com esse treinamento, você e seu filho (ou aluno) aprenderão a formular argumentos sólidos, que conduzem a conclusões verdadeiras – ou, pelo menos, mais próximas da verdade. Você e seu filho também aprenderão a identificar os defeitos e qualidades, as falhas e méritos nos argumentos que forem apresentados a vocês por outras pessoas. Aprenderão, ainda, a não se enganar com a conversa de gente mal-intencionada em debates e discussões públicas. Finalmente, habilitar-se-ão a tomar decisões com muito maior probabilidade de sucesso em todos os seus campos de atuação.

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