{"id":324,"date":"2023-12-01T11:49:59","date_gmt":"2023-12-01T14:49:59","guid":{"rendered":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/?p=324"},"modified":"2023-12-01T12:24:23","modified_gmt":"2023-12-01T15:24:23","slug":"comentario-ao-proemio-de-eneida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/comentario-ao-proemio-de-eneida\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio ao pro\u00eamio da &#8220;Eneida&#8221;, de Virg\u00edlio"},"content":{"rendered":"<p>Uma obra de literatura cl\u00e1ssica tem tr\u00eas caracter\u00edsticas prec\u00edpuas: (1) Perenidade, (2) Universalidade e (3) Onipresen\u00e7a na Literatura posterior e absor\u00e7\u00e3o da Literatura pregressa. Perene e universal porque inobstante dos tempos em que a estudamos, \u00e9 poss\u00edvel assimilar dessa obra valores universais e virtudes humanas que podemos contrastar com a sociedade atual. Um cl\u00e1ssico deve apreender o que de ex\u00edmio foi produzido antes dela, e tornar-se uma \u201cmusa\u201d para obras subsequentes.<\/p>\n<p>Um exemplo de literatura cl\u00e1ssica \u00e9 a epopeia \u201cEneida\u201d escrita pelo poeta Virg\u00edlio. Ele nasceu em M\u00e2ntua, em 70 a.C, e faleceu em 19 a.C., um per\u00edodo conturbado pela transi\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica para o Imp\u00e9rio Romano. Durante sua educa\u00e7\u00e3o, ele estudou Medicina e Matem\u00e1tica, al\u00e9m de ter absorvido as grandes obras de literatura de sua \u00e9poca. Virg\u00edlio escreveu em sua juventude as obras &#8220;Buc\u00f3licas&#8221; e &#8220;Ge\u00f3rgicas&#8221;. Mais tarde, escreveu sua obra-prima, a Eneida. Aos 52 anos, faleceu em decorr\u00eancia de uma febre alta, sem ter a chance de revisar de sua obra.<\/p>\n<div id=\"attachment_327\" style=\"width: 500px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-327\" class=\"wp-image-327\" src=\"http:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/12\/Virgil_.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"540\" srcset=\"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/12\/Virgil_.jpg 683w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2023\/12\/Virgil_-278x300.jpg 278w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><p id=\"caption-attachment-327\" class=\"wp-caption-text\">P\u00fablio Virg\u00edlio Maro<\/p><\/div>\n<p>&#8220;Eneida&#8221; \u00e9 um \u00e9pico que exalta as virtudes do povo romano, simbolizadas no personagem Eneias. \u00c9 composta em doze cantos em versos hex\u00e2metros. A m\u00e9trica \u00e9 heroica, apresenta personagens divinos e humanos, e combina fatos e fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste artigo, examinaremos o pro\u00eamio da &#8220;Eneida&#8221;. Um &#8220;pro\u00eamio&#8221;, tamb\u00e9m chamado de &#8220;ex\u00f3rdio&#8221;, \u00e9 um texto introdut\u00f3rio que apresenta a invoca\u00e7\u00e3o e a proposi\u00e7\u00e3o do poema. A invoca\u00e7\u00e3o \u00e9 um recurso usado pelos poetas para pedir inspira\u00e7\u00e3o divina \u00e0s Musas, filhas de J\u00fapiter e da Mem\u00f3ria, para que melhor cantem os grandes feitos narrados no poema. J\u00e1 a &#8220;proposi\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 o meio pelo qual o poeta apresenta o tema central do poema.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"padding-left: 40px;\">\u201cAs armas, canto e o var\u00e3o que, fugindo das plagas de Troia<br \/>\npor injun\u00e7\u00f5es do Destino, instalou-se na It\u00e1lia primeiro<br \/>\ne de Lav\u00ednio nas praias. A impulso dos deuses por muito<br \/>\ntempo nos mares e em terras vagou sob as iras de Juno,<br \/>\nguerras sem fim sustentou para as bases lan\u00e7ar da Cidade<br \/>\ne ao L\u00e1cio os deuses trazer &#8211; o come\u00e7o da gente latina,<br \/>\ndos pais albanos primevos e os muros de Roma altanados.<br \/>\nMusa! recorda-me as causas da guerra, a deidade agravada;<br \/>\npor qual ofensa a rainha dos deuses levou um guerreiro<br \/>\nt\u00e3o religioso a enfrentar sem descanso esses duros trabalhos?<br \/>\nCabe t\u00e3o fero rancor no imo peito dos deuses eternos?\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No primeiro verso, o autor anuncia a proposi\u00e7\u00e3o do poema. Virg\u00edlio diz que cantar\u00e1 \u201c<strong>as armas<\/strong>\u201d e \u201c<strong>o var\u00e3o<\/strong>\u201d. A primeira \u00e9 uma meton\u00edmia para \u201cguerra\u201d e, o segundo, \u00e9 o nobre her\u00f3i Eneias, fundador da It\u00e1lia. O poeta, nesses versos, faz as seguintes refer\u00eancias \u00e0 obra de Homero: com a express\u00e3o \u201carmas\u201d, \u00e0 \u201cIl\u00edada\u201d; e, com \u201co var\u00e3o\u201d, \u00e0 Odisseia, sugerindo, ent\u00e3o, que Eneias era t\u00e3o nobre quanto o her\u00f3i Odisseu. Deste modo, ele ressalta aos leitores o reconhecimento das grandes obras de Homero como inspira\u00e7\u00e3o para escrever a \u201cEneida\u201d.<\/p>\n<p>No segundo verso, para explicar as atribula\u00e7\u00f5es por que passar\u00e1 o nobre her\u00f3i, o poeta personifica o pr\u00f3prio Destino. Na sequ\u00eancia do verso, quando diz \u201c<em>instalou-se na It\u00e1lia primeiro e de Lav\u00ednio nas praias<\/em>\u201d, o autor usa o recurso chamado \u201cprolepse\u201d \u2013 antecipa\u00e7\u00e3o do tempo \u2013 para descrever eventos futuros, como se j\u00e1 tivessem ocorrido, sugerindo que Eneias se casaria com Lav\u00ednia, fundando a cidade chamada \u201cLav\u00ednio\u201d.<\/p>\n<p>No terceiro e quarto versos, lemos: \u201c<em>A impulso dos deuses por muito tempo nos mares e em terras vagou sob as iras de Juno<\/em>\u201d. Aqui o poeta refor\u00e7a a proposi\u00e7\u00e3o \u201cvar\u00e3o\u201d, comparando as dificuldades de Eneias ao navegar desde Troia at\u00e9 a It\u00e1lia enfrentando as iras de Juno com as dificuldades de Odisseu ao navegar desde Troia at\u00e9 \u00cdtaca enfrentando as iras de Netuno.<\/p>\n<p>No quinto verso, \u201c<em>guerras sem fim sustentou para as bases lan\u00e7ar da Cidade<\/em>\u201d, refor\u00e7a a proposi\u00e7\u00e3o \u201carmas\u201d ao referir-se as guerras enfrentadas pelo her\u00f3i, uma refer\u00eancia tamb\u00e9m \u00e0 Il\u00edada. A \u201cCidade\u201d, neste caso, pode apresentar mais de um sentido: (1) referindo-se a Lav\u00ednio, fundada por Eneias, (2) as bases da cidade espiritual fundadora do povo romano e a (3) funda\u00e7\u00e3o de Alba Longa pelos descendentes de Eneias, onde nasceria R\u00f4mulo e Remo. O tema central, no caso da \u201cEneida\u201d, \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o de uma cidade espiritual \u2013 ou seja, a hist\u00f3ria espiritual que originou o povo romano.<\/p>\n<p>No sexto e s\u00e9timo versos, \u201c<em>e ao L\u00e1cio os deuses trazer \u2013 o come\u00e7o da gente latina, dos pais albanos primevos e os muros de Roma altanados<\/em>\u201d \u2013 os deuses que Eneias traria em sua viagem at\u00e9 o L\u00e1cio, seriam os deuses dos lares, aqueles que auxiliariam ao her\u00f3i a fundar uma nova \u201cTroia\u201d, neste caso, a It\u00e1lia. Os \u201cpais albanos primevos\u201d, refere-se aos habitantes primitivos de Alba Longa.<\/p>\n<p>Do oitavo ao d\u00e9cimo primeiro verso, o vate usa o recurso estil\u00edstico de \u201cInvoca\u00e7\u00e3o\u201d as musas. Quem seriam as musas? Filhas de J\u00fapiter e Mem\u00f3ria, divindades a quem os poetas pediam aux\u00edlio para cantar algo maior que a pr\u00f3pria capacidade humana.<\/p>\n<p>As express\u00f5es \u201c<em>deidade agravada<\/em>\u201d e \u201c<em>rainha dos deuses<\/em>\u201d fazem refer\u00eancia a Juno que, irada por n\u00e3o ter sido escolhida por P\u00e1ris como a \u201cmais bela das deusas\u201d, grande vingan\u00e7a dirigiu aos troianos. Em \u201c<em>guerreiro t\u00e3o religioso<\/em>\u201d, em que o adjetivo \u00e9 empregado no sentido de \u201cpiedoso\u201d, o poeta revela a principal caracter\u00edstica moral de Eneias. Mesmo quando um her\u00f3i enfrenta as iras de um deus, sendo ele piedoso, s\u00f3 por esse motivo os deuses j\u00e1 deveriam aplacar sua ira. Mas, apesar da piedade de Eneias, Juno ainda obstava a vida do nobre her\u00f3i. Na literatura da Antiguidade, a virtude da piedade era muito rara em um her\u00f3i. Estudiosos crist\u00e3os dos primeiros s\u00e9culos viam na Eneida um pren\u00fancio das virtudes do Cristianismo, advento que se ocorreria apenas duas d\u00e9cadas ap\u00f3s o falecimento de Virg\u00edlio.<\/p>\n<p>Enfim, com esta an\u00e1lise reconhecemos no pro\u00eamio da \u201cEneida\u201d as caracter\u00edsticas de uma obra de literatura cl\u00e1ssica, no qual o poeta exibe sua absor\u00e7\u00e3o da literatura precedente. Quanto \u00e0 influ\u00eancia posterior, a hist\u00f3ria nos confirma que a obra de Virg\u00edlio foi de grande inspira\u00e7\u00e3o para autores como Santo Agostinho, Dante e Cam\u00f5es, tornando-a digna de ser qualificada como um aut\u00eantico \u201ccl\u00e1ssico\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma obra de literatura cl\u00e1ssica tem tr\u00eas caracter\u00edsticas prec\u00edpuas: (1) Perenidade, (2) Universalidade e (3) Onipresen\u00e7a na Literatura posterior e absor\u00e7\u00e3o da Literatura pregressa. Perene e universal porque inobstante dos tempos em que a estudamos, \u00e9 poss\u00edvel assimilar dessa obra valores universais e virtudes humanas que podemos contrastar com a sociedade atual. Um cl\u00e1ssico deve &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/comentario-ao-proemio-de-eneida\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[11,16,15],"class_list":["post-324","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-estudos-classicos","tag-artes-liberais","tag-eneida","tag-gramatica","item-wrap"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=324"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":334,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/324\/revisions\/334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=324"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=324"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=324"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}