{"id":381,"date":"2024-05-29T09:40:49","date_gmt":"2024-05-29T12:40:49","guid":{"rendered":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/?p=381"},"modified":"2024-10-18T13:17:57","modified_gmt":"2024-10-18T16:17:57","slug":"a-ausencia-e-a-presenca-das-fabulas-e-do-sobrenatural-na-historiografia-da-antiguidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/a-ausencia-e-a-presenca-das-fabulas-e-do-sobrenatural-na-historiografia-da-antiguidade\/","title":{"rendered":"A aus\u00eancia e a presen\u00e7a das f\u00e1bulas e do sobrenatural na historiografia da antiguidade"},"content":{"rendered":"<p>Arist\u00f3teles distingue a poesia e a hist\u00f3ria, sendo, a primeira, um meio de enunciar verdades gerais sobre a humanidade, de prever como um homem de natureza tal venha a agir ou dizer, e, a \u00faltima, como um relato de fatos particulares. O labor do poeta n\u00e3o consiste em narrar os fatos, mas coisas que poderiam acontecer, ou seja, poss\u00edveis no ponto de vista da verossimilhan\u00e7a. Justamente por isso, Arist\u00f3teles afirmava que a \u201ca poesia encerra mais filosofia e eleva\u00e7\u00e3o que a hist\u00f3ria\u201d(1).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-387 size-large\" src=\"http:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/2-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"847\" height=\"847\" srcset=\"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/2-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/2-300x300.jpg 300w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/2-150x150.jpg 150w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/2-768x768.jpg 768w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/2-847x847.jpg 847w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/2.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 847px) 100vw, 847px\" \/><\/p>\n<p>Neste ensaio, perquiriremos a historiografia cl\u00e1ssica, o modo como os historiadores da antiguidade compreendiam a finalidade da Hist\u00f3ria e os diferentes m\u00e9todos adotados. Devemos aqui entender, quando abordamos o relato hist\u00f3rico na antiguidade, que este, no princ\u00edpio era feito de forma oral pelos poetas. Somente com o surgimento da escrita \u00e9 que come\u00e7ou a distin\u00e7\u00e3o entre a narrativa hist\u00f3rica e a po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Para fim desta an\u00e1lise, selecionamos a obra de tr\u00eas historiadores: (1) Tuc\u00eddides, (470-400 a.C), (2) Pol\u00edbio (203 \u2013 120 a.C) e (3) Tito L\u00edvio (59 a.C. \u2013 17 d.C). Para nossa investiga\u00e7\u00e3o, analisaremos o primeiro livro de Tuc\u00eddides, os livros de primeiro a quinto de Pol\u00edbio e o primeiro livro de Tito L\u00edvio.<\/p>\n<h3>Tuc\u00eddides<\/h3>\n<p>Tuc\u00eddides, ilustre historiador e general ateniense, foi testemunha direta da Guerra do Peloponeso, um confronto entre Esparta e Atenas durante o s\u00e9culo V a.C. Para Tuc\u00eddides, esse embate foi o mais significativo at\u00e9 ent\u00e3o, superando at\u00e9 mesmo a c\u00e9lebre Guerra de Troia. Em seus oito volumes dedicados a detalhar esse conflito b\u00e9lico, \u00e9 not\u00e1vel o seu compromisso com a precis\u00e3o e a meticulosidade ao descrever os acontecimentos de forma fiel e assertiva, diferenciando-se pela abordagem desprovida de Mitos e F\u00e1bulas ao relatar os eventos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201c\u00c0 luz da evid\u00eancia apresentada at\u00e9 agora, todavia, ningu\u00e9m erraria se mantivesse o ponto de vista de que os fatos na antiguidade foram muito pr\u00f3ximos de como os descrevi, n\u00e3o dando muito cr\u00e9dito, de um lado, \u00e0s vers\u00f5es que os poetas cantaram, adornando e amplificando os seus temas e, de outro, considerando que os log\u00f3grafos compuseram as suas obras mais com a inten\u00e7\u00e3o de agradar aos ouvidos que de dizer a verdade.\u201d(2)<\/em><\/p>\n<p>Tuc\u00eddides, ao narrar a Guerra de Troia, segue sua premissa de excluir todo o relato fabuloso. Na obra de Homero, o relato fabuloso tem o objetivo de incluir tanto um aspecto teol\u00f3gico, religioso, quanto um ensinamento moral.<\/p>\n<p>Quando Tuc\u00eddides cita os \u201clog\u00f3grafos\u201d, refere-se principalmente a Her\u00f3doto, pai da hist\u00f3ria. Her\u00f3doto em seu relato hist\u00f3rico, inclu\u00eda o fabuloso, como ent\u00e3o era narrado pela tradi\u00e7\u00e3o oral. Quanto aos poetas, no Livro I, cita o exemplo de Homero, e sua descri\u00e7\u00e3o da guerra de Troia. A quantidade de naus, homens e recursos descritos por Homero \u00e9 muito maior que a capacidade que as tropas H\u00e9lades tinham nessa \u00e9poca, afirmando que se esses n\u00fameros fossem factuais, boa parte da cidade dos lacedem\u00f4nios estaria despovoada.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201cO razo\u00e1vel, portanto, n\u00e3o \u00e9 ser incr\u00e9dulo ou levar em conta a apar\u00eancia das cidades ao inv\u00e9s de seu poder, mas crer que a expedi\u00e7\u00e3o a Troia haja sido maior que qualquer das anteriores, apesar de menor que as do presente, se aqui novamente se pode dar cr\u00e9dito \u00e0 poesia de Homero.\u201d(3)<\/em><\/p>\n<p>At\u00e9 os historiadores mais antigos costumavam utilizar fontes secund\u00e1rias ao narrar um evento:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201cSegundo as minhas pesquisas, foram assim os tempos passados, embora seja dif\u00edcil dar cr\u00e9dito a todos os testemunhos nesta mat\u00e9ria. Os homens, na verdade, aceitam uns dos outros relatos de segunda m\u00e3o dos eventos passados, negligenciando p\u00f4-los \u00e0 prova, ainda que tais eventos se relacionem com sua pr\u00f3pria terra.\u201d(4)<\/em><\/p>\n<p>Para Jaeger (1965) \u201c<em>Tuc\u00eddides \u00e9 o criador da hist\u00f3ria pol\u00edtica\u201d(5)<\/em>. Segundo o autor, Tuc\u00eddides contemplou pela primeira vez a for\u00e7a da vida pol\u00edtica em Atenas ap\u00f3s as guerras p\u00e9rsicas. Foi justamente no relato da Guerra do Peloponeso que Tuc\u00eddides p\u00f4de expressar a intensidade pol\u00edtica no meio ateniense. N\u00e3o \u00e9 que a hist\u00f3ria se torne pol\u00edtica, \u00e9 o pensamento pol\u00edtico que se torna hist\u00f3rico. Eis a ess\u00eancia do fen\u00f4meno espiritual que encontra a sua realiza\u00e7\u00e3o na obra de Tuc\u00eddides.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m na obra de Tuc\u00eddides o primeiro relato hist\u00f3rico a abordar a quest\u00e3o do direito internacional, referente ao tratado acordado entre Atenas e seus aliados com Esparta e seus aliados, pois o motivo alegado para o in\u00edcio da guerra foi justamente o rompimento deste tratado.<\/p>\n<p>Tuc\u00eddides diz que a hist\u00f3ria se repete, e deve ser tratada como a mestra da vida, como um meio de aprender com os erros dos homens para n\u00e3o comet\u00ea-los novamente:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201cPode acontecer que a aus\u00eancia do fabuloso em minha narrativa pare\u00e7a menos agrad\u00e1vel ao ouvido, mas quem quer que deseje ter uma ideia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltar\u00e3o a ocorrer em circunst\u00e2ncias id\u00eanticas ou semelhantes em consequ\u00eancia de seu conte\u00fado humano, julgar\u00e1 a minha hist\u00f3ria \u00fatil e isto me bastar\u00e1. Na verdade, ela foi feita para ser um patrim\u00f4nio sempre \u00fatil, e n\u00e3o uma composi\u00e7\u00e3o a ser ouvida apenas no momento da competi\u00e7\u00e3o por algum pr\u00eamio.\u201d(6)<\/em><\/p>\n<h3>Pol\u00edbio<\/h3>\n<p>Pol\u00edbio veio ao mundo em uma fam\u00edlia nobre por volta de 203 a.C., filho de Licortas, um influente l\u00edder da Liga Aqueia. Desde tenra idade, ele foi mergulhado em uma instru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e filos\u00f3fica adequada \u00e0 sua linhagem. Contudo, sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia possivelmente foram tumultuosas, uma vez que foi nesse per\u00edodo que a Liga Aqueia se envolveu em conflitos, como a disputa com a Liga Et\u00f3lia e os embates com Ant\u00edoco III. Esses eventos n\u00e3o apenas moldaram o contexto hist\u00f3rico em que Pol\u00edbio cresceu, mas tamb\u00e9m o instigaram a come\u00e7ar sua not\u00e1vel jornada como historiador e ge\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Em contraste com Tuc\u00eddides, cujo trabalho se focalizou em um evento hist\u00f3rico monumental, o Conflito do Peloponeso, o ge\u00f3grafo e historiador greco-romano Pol\u00edbio adotou uma abordagem mais ampla com sua obra \u201cHist\u00f3rias\u201d, que pode ser vista como uma narrativa abrangente da hist\u00f3ria universal. Nesse trabalho, Pol\u00edbio n\u00e3o se limitou a um \u00fanico evento, mas tra\u00e7ou a hist\u00f3ria do Mar Mediterr\u00e2neo e do mundo at\u00e9 ent\u00e3o conhecido. Pol\u00edbio viveu a \u00e9poca em que a Gr\u00e9cia se tornou uma regi\u00e3o do imp\u00e9rio romano. Assim, Pol\u00edbio redigiu sua obra com o objetivo de mostrar que a domina\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia Antiga e o ascendimento de Roma eram inelut\u00e1veis.<\/p>\n<p>O autor afirma que muitos antes dele j\u00e1 asseguravam \u201cque a aprendizagem da hist\u00f3ria resulta na forma\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o para a atividade pol\u00edtica\u201d.7 Segundo ele, o assunto que se prop\u00f5e a relatar em sua obra \u00e9, por si, suficiente para atrair e estimular qualquer pessoa a l\u00ea-la, pois s\u00f3 os tolos e negligentes n\u00e3o se interessariam em saber os motivos pol\u00edticos que levaram \u00e0 derrota da Gr\u00e9cia e sua submiss\u00e3o a Roma.<\/p>\n<p>Um dos objetivos de Pol\u00edbio \u00e9 esclarecer aos estudiosos quais caracter\u00edsticas da hist\u00f3ria pol\u00edtica levaram Roma ser t\u00e3o grandiosa, sugerindo uma certa inevitabilidade da submiss\u00e3o da Gr\u00e9cia a Roma:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201cA peculiaridade do nosso trabalho e a maravilha da nossa \u00e9poca consiste nisto: segundo a Fortuna ela inclinou praticamente todos os acontecimentos do mundo para um lado e os for\u00e7ou a tender para um fim \u00fanico e \u00fanico, da mesma forma tamb\u00e9m \u00e9 preciso, valendo-se da hist\u00f3ria, para concentrar sob um \u00fanico ponto de vista sin\u00f3ptico, para benef\u00edcio dos leitores, o plano que a Fortuna utilizou para cumprir todos os acontecimentos. O que acabo de constatar \u00e9 o que mais nos impulsionou e estimulou a dedicar-nos \u00e0 hist\u00f3ria, e tamb\u00e9m, al\u00e9m disso, o fato de ningu\u00e9m, entre os nossos contempor\u00e2neos, ter empreendido a prepara\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria geral&#8221;. (8)<\/em><\/p>\n<p>Em sua defesa da op\u00e7\u00e3o por escrever uma Hist\u00f3ria Universal do mundo conhecido (povos pr\u00f3ximos ao Mar Mediterr\u00e2neo), Pol\u00edbio diz que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel um real entendimento de tudo que tornou prop\u00edcia e inevit\u00e1vel a grandiosidade de Roma \u2013 segundo a Fortuna \u2013, com o estudo do entrela\u00e7amento de diferentes fatos hist\u00f3ricos ocorridos antes e durante o per\u00edodo em que ele escreve. Ao estudarmos apenas fatos isolados, n\u00e3o poder\u00edamos ter uma real compreens\u00e3o do todo.<\/p>\n<p>Pol\u00edbio parece seguir o princ\u00edpio de Tuc\u00eddides ao evitar mencionar as f\u00e1bulas no relato hist\u00f3rico. Mesmo assim, n\u00e3o desassocia do relato da hist\u00f3ria humana a interven\u00e7\u00e3o do sobrenatural ao mencionar diversas vezes a a\u00e7\u00e3o da Fortuna.<\/p>\n<p>Ao descrever a hist\u00f3ria dos povos pr\u00f3ximos ao Mediterr\u00e2neo, tamb\u00e9m enfatiza os aspectos geogr\u00e1ficos no relato hist\u00f3rico. Pol\u00edbio, assim como Tuc\u00eddides, se preocupa com a averigua\u00e7\u00e3o dos fatos. S\u00e3o tr\u00eas os elementos principais que comp\u00f5em a autoridade de um historiador para Pol\u00edbio: (1) a pesquisa em documentos e consulta a testemunhas, (2) a experi\u00eancia pol\u00edtica e militar, sobre a qual Pol\u00edbio pode alegar autoridade devido \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia, (3) o conhecimento do espa\u00e7o geogr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Pol\u00edbio tamb\u00e9m se preocupa em relacionar causa e efeito em seu relato hist\u00f3rico. O autor demonstra a a\u00e7\u00e3o fundamental da Fortuna no relato da Hist\u00f3ria da Humanidade. Segundo o autor, a for\u00e7a respons\u00e1vel pela jun\u00e7\u00e3o l\u00f3gica e ordenadora dos fatores que proveram a condi\u00e7\u00e3o ideal para que Roma se expandisse e dominasse o mundo. O autor sugere tamb\u00e9m que a \u201cFortuna\u201d recompensa aqueles que, por suas a\u00e7\u00f5es, o fazem por merecer. Em seu relato, ele explica que os romanos, desde o in\u00edcio de sua hist\u00f3ria, eram belicosos e tinham o prop\u00f3sito de expans\u00e3o e conquista de outros territ\u00f3rios, sendo assim, inevit\u00e1vel que se tornasse a maior pot\u00eancia do Mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<h3>Tito L\u00edvio<\/h3>\n<p>Tito L\u00edvio, historiador romano, \u00e9 autor da obra \u201cAb urbe condita\u201d (Desde a funda\u00e7\u00e3o da cidade), onde tenta relatar a hist\u00f3ria desde o desembarque de Eneias a It\u00e1lia, assim como o momento tradicional da funda\u00e7\u00e3o de Roma, 753 a.C., at\u00e9 o in\u00edcio do s\u00e9culo I antes da Era Crist\u00e3. Analisaremos o livro I que relata a hist\u00f3ria de Roma desde sua funda\u00e7\u00e3o at\u00e9 o fim do per\u00edodo mon\u00e1rquico.<\/p>\n<p>Acerca dos mitos e tradi\u00e7\u00f5es ao longo da hist\u00f3ria de Roma, Tito L\u00edvio prefere n\u00e3o confirm\u00e1-las, nem neg\u00e1-las. Na sua opini\u00e3o, seria basilar o estudo da vida e dos costumes da Roma Antiga, o labor dos homens que, tanto em tempos pac\u00edficos quanto b\u00e9licos, se empenharam para altear e expandir a civiliza\u00e7\u00e3o romana. Em seguida, seria indispens\u00e1vel observar como o lento, mas progressivo afrouxamento da disciplina acarretou na decad\u00eancia e no relaxamento dos costumes e, ulteriormente, na queda brusca de Roma em seus dias.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel como Tito L\u00edvio segue sua premissa de que o estudo das f\u00e1bulas, os costumes e a Hist\u00f3ria s\u00e3o insepar\u00e1veis, apesar de n\u00e3o confirmar nem negar a veracidade do primeiro. Ele inicia sua narrativa com a chegada ao territ\u00f3rio laurentino do her\u00f3i troiano, filho de Anquises e a deusa V\u00eanus, Eneias, sugerindo aqui a nobre origem primitiva, cujos descendentes diretos fundariam a cidade de Roma. Tito L\u00edvio acrescenta o relato fabuloso quando, por exemplo, descreve a paternidade, a cria\u00e7\u00e3o de R\u00f4mulo e Remo, e a morte de R\u00f4mulo. V\u00edtima de viola\u00e7\u00e3o, a vestal Reia Silvia deu \u00e0 luz a g\u00eameos e, fosse por boa-f\u00e9, fosse para enobrecer sua falta atribuindo-a a um deus, responsabilizou Marte como o autor daquela paternidade suspeita. Assim, o car\u00e1ter belicoso de Roma j\u00e1 \u00e9 explicitado desde suas mais remotas origens, com R\u00f4mulo e Remo.<\/p>\n<p>A seguir, Tito L\u00edvio narra como a tradi\u00e7\u00e3o conta que R\u00f4mulo e Remo, ap\u00f3s serem jogados dentro de um cesto no Rio Tibre por seu tio Am\u00falio, foram resgatados e alimentados por uma loba at\u00e9 serem encontrados pelo pastor F\u00e1ustulo. Uma poss\u00edvel interpreta\u00e7\u00e3o desta loba, segundo o autor, seria que a esposa de F\u00e1ustulo, Lar\u00eancia, seria uma prostituta, pois assim eram elas chamadas naquela \u00e9poca. Ao relatar a morte de R\u00f4mulo, o autor descreve tanto o que narrava a tradi\u00e7\u00e3o, ou seja, a \u201cApoteose de R\u00f4mulo\u201d, na qual R\u00f4mulo havia desaparecido misteriosamente em meio a uma tempestade com raios e trov\u00f5es, como que por meio de interven\u00e7\u00e3o divina; ao mesmo tempo, que adiciona uma interpreta\u00e7\u00e3o ao mito, sugerindo que R\u00f4mulo havia sido assassinado pelos senadores.<\/p>\n<p>Logo nos primeiros cap\u00edtulos do Livro I, o autor indica que o \u201ccostume\u201d, ou seja, a inclina\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter romano \u00e0 belicosidade e a religiosidade, foram instaurados no in\u00edcio da hist\u00f3ria de Roma: o primeiro se deveria a R\u00f4mulo, que ensinou aos romanos o modo de defender seu territ\u00f3rio e vencer seus opositores; o segundo, ao governo de Numa Pomp\u00edlio, que assumiu a dire\u00e7\u00e3o de Roma ap\u00f3s a morte de R\u00f4mulo. Foi Numa quem estabeleceu os ritos religiosos e deu um des\u00edgnio aos romanos em tempos de paz.<\/p>\n<h3>O sobrenatural no relato hist\u00f3rico<\/h3>\n<p>Os tr\u00eas historiadores da antiguidade que aqui foram objeto de estudo compreendem a Hist\u00f3ria como \u201cMagistra Vitae\u201d, ou seja, atribuem uma fun\u00e7\u00e3o educadora ao relato hist\u00f3rico. Tuc\u00eddides, ao descrever o seu objetivo com o relato da Guerra do Peloponeso, afirma que <em>\u201cquem quer que deseje ter uma ideia clara tanto dos eventos ocorridos quanto daqueles que algum dia voltar\u00e3o a ocorrer em circunst\u00e2ncias id\u00eanticas ou semelhantes em consequ\u00eancia de seu conte\u00fado humano, julgar\u00e1 a minha hist\u00f3ria \u00fatil e isto me bastar\u00e1.\u201d<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-388 size-large\" src=\"http:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/1-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"847\" height=\"847\" srcset=\"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/1-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/1-300x300.jpg 300w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/1-150x150.jpg 150w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/1-768x768.jpg 768w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/1-847x847.jpg 847w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2024\/05\/1.jpg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 847px) 100vw, 847px\" \/><\/p>\n<p>Pol\u00edbio, por sua vez, enfatiza a fun\u00e7\u00e3o educadora ao afirmar que \u201ca aprendizagem da hist\u00f3ria resulta na forma\u00e7\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o para a atividade pol\u00edtica\u201d. Tito L\u00edvio, tamb\u00e9m refor\u00e7a a fun\u00e7\u00e3o educadora da Hist\u00f3ria enfatizando principalmente \u201ca vida e os costumes da Roma Antiga\u201d e, ao analisarmos o primeiro livro, \u00e9 clara a sua inten\u00e7\u00e3o de influenciar os romanos de sua \u00e9poca quanto aos valores morais e os costumes estabelecidos desde os prim\u00f3rdios de Roma, que, infelizmente j\u00e1 havia cedido \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o dos costumes e se inclinado sob o peso da pr\u00f3pria grandeza.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 aus\u00eancia ou presen\u00e7a do fabuloso no relato hist\u00f3rico, Tuc\u00eddides omite-a propositalmente, indicando que a sua men\u00e7\u00e3o seria nociva; Pol\u00edbio, n\u00e3o enfatiza o fabuloso mas sugere a influ\u00eancia constante da \u201cFortuna\u201d na hist\u00f3ria da humanidade; Tito L\u00edvio, ao relatar o fabuloso, n\u00e3o afirma e nem o contesta, mas inclui poss\u00edveis interpreta\u00e7\u00f5es ao relato m\u00edtico e, de certa forma, ao incluir a f\u00e1bula, sugere elementos constituintes do car\u00e1ter romano; por exemplo, ao relacionar a paternidade R\u00f4mulo a Marte, fica impl\u00edcita uma certa etiologia divina da belicosidade do povo romano.<\/p>\n<p>Ao analisarmos a Hist\u00f3ria da Humanidade sob a luz do Cristianismo, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreend\u00ea-la sem a influ\u00eancia do sobrenatural. Segundo Dom Prosper Gu\u00e9ranger \u201c<em>o homem foi divinamente chamado ao estado sobrenatural; este estado \u00e9 o fim do homem, e os relatos da humanidade devem oferecer um rastro dessa realidade.\u201d<\/em>(9)<\/p>\n<p>Sabemos tamb\u00e9m, que ao homem foi dado o livre-arb\u00edtrio e, como bem explicou Bo\u00e9cio em sua obra \u201cConsola\u00e7\u00e3o da Filosofia\u201d, o livre-arb\u00edtrio n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a a\u00e7\u00e3o da Provid\u00eancia, algo verific\u00e1vel desde a Cria\u00e7\u00e3o Divina do primeiro homem e da primeira mulher, e em todos os seres humanos, que t\u00eam sua alma ligada ao corpo na sua concep\u00e7\u00e3o. Por isso, se torna imposs\u00edvel ignorar aspectos da influ\u00eancia da Provid\u00eancia na hist\u00f3ria da humanidade, tanto anterior ao advento do Cristianismo, como em nossa pr\u00f3pria \u00e9poca. \u00c9 ineg\u00e1vel que o elevado racioc\u00ednio filos\u00f3fico grego e sua constante busca ao conhecimento da Verdade tamb\u00e9m s\u00e3o sinais da benevol\u00eancia da Provid\u00eancia. Como sugere Pol\u00edbio, h\u00e1 um fator sobrenatural na forma\u00e7\u00e3o do grande Imp\u00e9rio Romano, na forma como Roma se tornou not\u00e1vel no desenvolvimento e na organiza\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio. Ao mesmo tempo, esse imp\u00e9rio colossal foi tamb\u00e9m uma prepara\u00e7\u00e3o para o caminho do \u201cVerbo Encarnado\u201d. Dom Gu\u00e9ranger, afirma que o Imp\u00e9rio Romano serviu de \u201cpedestal\u201d para o Imp\u00e9rio de Nosso Senhor Jesus Cristo. Sendo assim, me parece que todo esfor\u00e7o de omitir o relato sobrenatural na hist\u00f3ria da humanidade a torna, de certa forma, incompleta e imperfeita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<br \/>\n1 &#8211; ARIST\u00d3TELES, HOR\u00c1CIO, LONGINO. <strong>A Po\u00e9tica Cl\u00e1ssica<\/strong>. S\u00e3o Paulo, Cultrix, 2014, p.28-30.<br \/>\n2 &#8211; TUC\u00cdDIDES.<strong> Guerra do Peloponeso<\/strong>. Livro I, 21.<br \/>\n3 &#8211; Ibidem. Livro I, 10.<br \/>\n4 &#8211; Ibidem. Livro I, 20.<br \/>\n5 &#8211; JAEGER. Werner. <strong>Paid\u00e9ia: A forma\u00e7\u00e3o do homem grego<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 441.<br \/>\n6 &#8211; TUC\u00cdDIDES. <strong>Guerra do Peloponeso<\/strong>. Livro I, 22.<br \/>\n7 &#8211; POL\u00cdBIO. <strong>Historias Libros I-IV.<\/strong> P.27. Dispon\u00edvel em: https:\/\/dn720001.ca.archive.org\/0\/items\/polibio-u-<br \/>\no-historias-libros-i-iv\/Polibio%20-<br \/>\n%20%CE%8A%CF%83%CF%84%CE%BF%CF%81%CE%B9%CF%8E%CE%BD%20%CF%84%CE%<br \/>\nB1%20%CF%83%CF%89%CE%B6%CF%8C%CE%BC%CE%B5%CE%BD%CE%B1%20%E2%80%A<br \/>\n2%20Historias%20%28Libros%20I-IV%29.pdf.<br \/>\n8 &#8211; Ibidem. P. 30.<br \/>\n9 &#8211; GU\u00c9RANGER, Dom Prosper. <strong>O sentido cat\u00f3lico da hist\u00f3ria<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Castela, 2020, p.21.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Arist\u00f3teles distingue a poesia e a hist\u00f3ria, sendo, a primeira, um meio de enunciar verdades gerais sobre a humanidade, de prever como um homem de natureza tal venha a agir ou dizer, e, a \u00faltima, como um relato de fatos particulares. 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