{"id":447,"date":"2025-06-26T09:53:02","date_gmt":"2025-06-26T12:53:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/?p=447"},"modified":"2025-06-26T11:26:50","modified_gmt":"2025-06-26T14:26:50","slug":"influencias-literarias-que-inspiraram-dante-ao-descrever-o-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/influencias-literarias-que-inspiraram-dante-ao-descrever-o-inferno\/","title":{"rendered":"Influ\u00eancias liter\u00e1rias que inspiraram Dante ao descrever o Inferno"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_461\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-461\" class=\"wp-image-461 size-full\" src=\"http:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2025\/06\/c13162-21.jpg\" alt=\"\" width=\"650\" height=\"348\" srcset=\"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2025\/06\/c13162-21.jpg 650w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2025\/06\/c13162-21-300x161.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px\" \/><p id=\"caption-attachment-461\" class=\"wp-caption-text\">Dante entre os poetas no Limbo.<\/p><\/div>\n<h3>Dante e o momento hist\u00f3rico em que vivia<\/h3>\n<p>Dante foi um poeta e fil\u00f3sofo italiano nascido em Floren\u00e7a entre maio e junho de 1265 e foi batizado no Batist\u00e9rio de San Giovanni. Durante a inf\u00e2ncia, o poeta se dedicou ao estudo das Artes Liberais, no qual se desenvolveu excepcionalmente. Durante sua forma\u00e7\u00e3o, Dante se alimentou excepcionalmente das obras de Virg\u00edlio, Hor\u00e1cio, Lucano, Est\u00e1cio, e todos os outros grandes poetas populares. Ele se empenhou em imit\u00e1-los, pois cria que as obras po\u00e9ticas n\u00e3o eram meras f\u00e1bulas ou maravilhas, mas continham verdades filos\u00f3ficas e hist\u00f3ricas inestim\u00e1veis, de modo que n\u00e3o seria poss\u00edvel verdadeiramente compreender a poesia sem a Filosofia, a Moral e a Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte da m\u00e3e, Dante conheceu Beatriz, filha de Folco Portinari, por quem se apaixonou, e que o inspiraria, mais tarde, a escrever poemas de amor cort\u00eas, os primeiros publicados na Vita Nuova. O amor de Dante por Beatriz, assim como, posteriormente, a sua morte prematura, fez de Beatriz, segundo Daniel Rops, \u201co s\u00edmbolo de tudo aquilo que a alma de um homem traz em si de mais puro e mais elevado, confundindo-se at\u00e9 com a Sabedoria incriada que , por vezes, se d\u00e1 a conhecer aos sentidos das criaturas mortais na revela\u00e7\u00e3o m\u00edstica, na ilumina\u00e7\u00e3o do g\u00eanio ou na lacerante do\u00e7ura de uma manh\u00e3 de primavera\u201d<span style=\"color: #333399\"><strong>(1)<\/strong><\/span>. O poeta foi aluno de Bruneto Latini, grande ret\u00f3rico da \u00e9poca, que mais tarde o incentivou a entrar na vida pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Pouco antes de seu nascimento, os partidos dos guelfos e gibelinos disputavam o poder em Floren\u00e7a. Paralelamente a este conflito pol\u00edtico, ocorria h\u00e1 mais de s\u00e9culo uma disputa sobre o limite do poder Papal perante o imp\u00e9rio. Os guelfos eram, de certa forma, partid\u00e1rios do Papado e os gibelinos, do Sacro Imp\u00e9rio Romano-Germ\u00e2nico. O poder dos guelfos se manteve em Floren\u00e7a durante um quarto do s\u00e9culo, mas sempre amea\u00e7ados por repres\u00e1lias dos gibelinos exilados. No final do s\u00e9culo XIII os guelfos dividiram-se em duas fac\u00e7\u00f5es: os brancos e os negros. Estes \u00faltimos, ca\u00edram nas gra\u00e7as do Papa Bonif\u00e1cio VIII.<\/p>\n<p>Dante amava Floren\u00e7a e queria pacificar os conflitos entre as duas fac\u00e7\u00f5es. Empenhou a sua arte ret\u00f3rica para esse intento. O poeta, que era partid\u00e1rio dos guelfos brancos, foi posteriormente condenado injustamente ao ex\u00edlio mais tarde.<\/p>\n<p>No ano de 1300 ocorreu o Jubileu e muitos peregrinos florentinos, entre eles Dante, foram prestigiar o evento em Roma. Dante ficou impressionado com o que viu: Roma era o centro espiritual e hist\u00f3rico deste mundo. Em 1301, os guelfos brancos enviaram-no com outros tr\u00eas emiss\u00e1rios a Roma em uma miss\u00e3o diplom\u00e1tica. Enquanto isso, em Floren\u00e7a, os guelfos negros assumiam o poder atrav\u00e9s de um golpe de Estado, banindo os partid\u00e1rios dos brancos, entre os quais encontrava-se Dante. O poeta, que nunca p\u00f4de regressar a sua amada Floren\u00e7a, foi destitu\u00eddo de seus bens, de sua terra, e exilado de sua pr\u00f3pria p\u00e1tria. Foi justamente, no ex\u00edlio, que o poeta iniciou a \u201cDivina Com\u00e9dia\u201d.<\/p>\n<p>A \u201cDivina Com\u00e9dia\u201d \u00e9 dividida em 100 cantos: o \u201cInferno\u201d, em 34; o \u201cPurgat\u00f3rio\u201d, em 33; e o \u201cPara\u00edso\u201d, em 33. O n\u00famero \u201c33\u201d, simboliza a idade de Jesus Cristo; \u00e9, portanto, um n\u00famero perfeito. Como o inferno \u00e9 absolutamente imperfeito, n\u00e3o seria apropriado conceder esse n\u00famero aos cantos a ele correspondentes na obra.<\/p>\n<h3>O Limbo e os poetas<\/h3>\n<p>No Canto IV do Inferno \u00e9 descrito o Limbo e as almas que ali se encontram. Virg\u00edlio esclarece a Dante que neste local permanecem as almas dos virtuosos que n\u00e3o sofrem pena mas n\u00e3o podem ser beatificados por falta do Batismo. No Limbo eles encontram v\u00e1rios poetas e s\u00e1bios da antiguidade, dentre eles, cita os poetas por ordem de import\u00e2ncia: Homero, o seu pr\u00f3prio guia, Virg\u00edlio, Hor\u00e1cio, Ov\u00eddio e Lucano. O poeta florentino, sugere que ele mesmo seria, entre eles, merecedor do sexto lugar.<\/p>\n<p>Analisaremos agora, como Homero, Virg\u00edlio e Ov\u00eddio inspiraram o florentino na descri\u00e7\u00e3o de sua cat\u00e1base.<br \/>\nO Inferno descrito na Divina Com\u00e9dia se assemelha e difere do relato do inferno de Virg\u00edlio e Homero em v\u00e1rios aspectos. A geografia do inferno de Homero consistia em uma grande sala onde permaneciam todas almas falecidas, fossem her\u00f3is ou almas condenadas. Na Odisseia e na Eneida h\u00e1 a presen\u00e7a do barqueiro Caronte que atravessam o rio Aqueronte, segundo Homero e Virg\u00edlio, as almas dos que foram sepultados. O poeta mantuano, relata no Canto VI da Eneida, que os insepultos, permaneceriam cerca de cem anos a espera da travessia. Dante, tamb\u00e9m inclu\u00ed em seu relato, Caronte, mas neste caso, ele atravessaria todas as almas condenadas ao inferno, inclusive as insepultas. Outros ju\u00edzes infernais s\u00e3o tamb\u00e9m citados tanto por Homero, Virg\u00edlio, quanto por Dante: como Min\u00f3s e Rodamente, por exemplo. O inferno dantesco apresenta uma descri\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica mais detalhada, onde cada pecador \u00e9 condenado a um c\u00edrculo correspondente a sua pena. Neste sentido, o inferno \u00e9 composto por nove c\u00edrculos e o vest\u00edbulo.<\/p>\n<p>O Hades descrito por Virg\u00edlio \u00e9 composto de quatro lugares principais: Campos El\u00edsios, T\u00e1rtaro, Campos Lugentes e Campos Asf\u00f3delos. O primeiro, destinados aos que viveram uma vida justa, o segundo aos injustos, o terceiro, onde permaneciam as almas que morreram tristemente, assim como os suicidas, por exemplo, e o quarto, onde ficariam as almas que n\u00e3o foram consideradas nem boas, nem m\u00e1s, apenas \u201cirrelevantes\u201d. Neste sentido, os Campos Asf\u00f3delos se assemelham as almas que permanecem no Vest\u00edbulo do Inferno de Dante, ou seja, aqueles que permaneceram moralmente \u201cmornos\u201d, n\u00e3o merecendo nem o Para\u00edso nem o Inferno.<\/p>\n<p>O inferno dantesco pode ser dividido em quatro grandes regi\u00f5es: (1) Limbo ou primeiro c\u00edrculo; (2) os c\u00edrculos da incontin\u00eancia, (3) os c\u00edrculos da viol\u00eancia e da bestialidade, (4) e os c\u00edrculos da fraude.<br \/>\nA pena para certos condenados tamb\u00e9m difere do inferno de Dante para o de Virg\u00edlio: Dido, na Eneida, \u00e9 condenada por suic\u00eddio, enquanto Dante a coloca no c\u00edrculo dos luxuriosos (um dos c\u00edrculos da incontin\u00eancia), pois foi a lux\u00faria que moveu Dido a se suicidar.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o da cat\u00e1base do her\u00f3i viandante \u00e9 comum entre as obras liter\u00e1rias supracitadas: Ocorre uma transforma\u00e7\u00e3o moral em Ulisses, Eneias e Dante em sua peregrina\u00e7\u00e3o ao inferno, ou seja, uma forma de renascer um novo her\u00f3i com as virtudes necess\u00e1rias para bem cumprir a sua voca\u00e7\u00e3o, o chamado divino. No caso de Dante, sua miss\u00e3o \u00e9 dupla: n\u00e3o apenas ele mesmo necessitava crescer em virtudes, se afastar da \u201cselva oscura\u201d para bem cumprir sua voca\u00e7\u00e3o, quanto, sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o era conduzir o seu leitor a esse mesmo caminho de autoconhecimento, do desapego aos v\u00edcios, rumo \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. Ou seja, conduzir o seu leitor a fazer a cat\u00e1base (descida ao inferno) e sua an\u00e1base (ascens\u00e3o ao Purgat\u00f3rio e Para\u00edso).<\/p>\n<h3>Influ\u00eancias de Homero<\/h3>\n<p>Homero, nascido no s\u00e9culo VIII a.C., foi um poeta grego que \u00e9 creditado como o autor do Il\u00edada e o Odisseia, dois poemas \u00e9picos que s\u00e3o obras fundamentais da literatura Grega Antiga. Homero \u00e9 considerado um dos autores mais reverenciados e influentes do ocidente.<\/p>\n<p>O inferno \u00e9 descrito na Odisseia como um lugar onde as almas dos mortos acham-se cobertas por nuvens e brumas espessas; entre os mortos, h\u00e1 mo\u00e7os, mo\u00e7as, velhos em males h\u00e1 muito experientes e virgens tenras que apenas pouco antes descobriram a exist\u00eancia do mal. Veem-se tamb\u00e9m muitos guerreiros mortos em campos de batalha, que ostentam manchas de sangue em suas armas.<\/p>\n<p>S\u00e3o mencionadas, no livro IV da Odisseia, versos 561-569, as \u201ccampinas do El\u00edsio\u201d, onde a exist\u00eancia decorre feliz para todos os homens. L\u00e1, o inverno n\u00e3o \u00e9 longo, n\u00e3o cai neve, e n\u00e3o chove o ano todo, mas o sopro cont\u00ednuo de Z\u00e9firo refresca os homens a mando do Oceano.<\/p>\n<p>No livro XI, nos versos 576-600, s\u00e3o descritas tamb\u00e9m as penas das almas condenadas ao T\u00e1rtaro; s\u00e3o mencionadas as figuras de T\u00edcio, condenado a ter seu f\u00edgado devorado por abutres; T\u00e2ntalo, condenado a passar sede e fome; e S\u00edsifo, condenado a arrastar uma pedra gigante.<\/p>\n<p>Homero, n\u00e3o descreve com muitos detalhes a geografia do Hades, mas sugere uma divis\u00e3o, principalmente destacando que almas nobres e merecedoras iriam para um campo iluminado e de apar\u00eancia agrad\u00e1vel, enquanto as demais permaneceriam em lugar l\u00fagubre.<\/p>\n<p>\u00c9 importante notar que na \u00e9poca de Dante n\u00e3o haviam tradu\u00e7\u00f5es para o italiano das obras de Homero. Assim, o Ulisses como retratado no inferno dantesco, \u00e9 baseado nas descri\u00e7\u00f5es de Virg\u00edlio, e n\u00e3o Homero.<br \/>\nComparemos agora o Ulisses do Canto XXVI do inferno com o her\u00f3i descrito na Odisseia. Dante e Virg\u00edlio est\u00e3o na oitava vala do oitavo c\u00edrculo, onde residem os maus conselheiros, que ardem em chamas que os envolvem completamente e est\u00e3o em cont\u00ednuo movimento. Dante avista, de cima da ponte, uma chama dupla que, Virg\u00edlio explica, cont\u00e9m as almas de Ulisses e Diomedes.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>E ele: \u201cL\u00e1 sofrem essa pena dira<\/em><br \/>\n<em>Diomedes e Ulisses: juntamente<\/em><br \/>\n<em>\u00e0 pena v\u00e3o como \u00e0 arrostada ira:<\/em><br \/>\n<em>dentro daquela chama se ressente<\/em><br \/>\n<em>o logro do cavalo, que foi porta<\/em><br \/>\n<em>pra a dos romanos garbosa semente;<\/em><br \/>\n<em>e lamenta-se o ardil pelo qual, morta,<\/em><br \/>\n<em>Deid\u00e2mia ainda por Aquiles chora;<\/em><br \/>\n<em>e por Pal\u00e1dio a pena se comporta\u201d.(INFERNO, XXVI, vv. 55-61)<span style=\"color: #333399\"><strong>(<\/strong><\/span><\/em><span style=\"color: #333399\"><strong>2)<\/strong><\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_462\" style=\"width: 448px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-462\" class=\"wp-image-462 size-full\" src=\"http:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2025\/06\/Dante-and-Virgil-See-the-Evil-Counselors-in-Tongues-of-Flame-asdf-asdf-1-1-1.webp\" alt=\"\" width=\"448\" height=\"559\" srcset=\"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2025\/06\/Dante-and-Virgil-See-the-Evil-Counselors-in-Tongues-of-Flame-asdf-asdf-1-1-1.webp 448w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2025\/06\/Dante-and-Virgil-See-the-Evil-Counselors-in-Tongues-of-Flame-asdf-asdf-1-1-1-240x300.webp 240w\" sizes=\"auto, (max-width: 448px) 100vw, 448px\" \/><p id=\"caption-attachment-462\" class=\"wp-caption-text\">Dante e Virg\u00edlio conversando com Ulisses e Diomedes. Iluminura de manuscrito Medieval.<\/p><\/div>\n<p>Di\u00f4medes e Ulisses foram os que idealizaram a constru\u00e7\u00e3o do cavalo de Troia. \u201co logro do cavalo, que foi porta \/ pra a dos romanos garbosa semente\u201d \u00e9 uma refer\u00eancia a Eneias, sobrevivente da Guerra de Troia, fundador da cidade espiritual da futura Roma, tal como descrito por Virg\u00edlio na Eneida. Dante roga para se comunicar com eles, e Virg\u00edlio pede a Ulisses que revele aonde foi para morrer.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>\u201cE ele: \u201cCreio que ao rogo teu convenha<\/em><br \/>\n<em>justa acolhida, e eu o acato tamb\u00e9m;<\/em><br \/>\n<em>faz por\u00e9m que tua l\u00edngua se retenha;<\/em><br \/>\n<em>deixa a fala pra mim, que entendi bem<\/em><br \/>\n<em>o que queres; porque do teu falar,<\/em><br \/>\n<em>sendo gregos, talvez tenham desd\u00e9m\u201d.\u201d (INFERNO, XXVI, vv. 70-75)<\/em><\/p>\n<p>Virg\u00edlio diz que ele mesmo comunicaria a Ulisses o pedido de Dante, pois sendo sua l\u00edngua toscana, portanto considerada \u201cvulgar\u201d, provavelmente causaria algum desd\u00e9m aos guerreiros gregos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>\u201c\u2026 \u201cQuando<\/em><br \/>\n<em>decidi que de Circe me afastasse,<\/em><br \/>\n<em>que um ano me enleou l\u00e1 por Gaeta,<\/em><br \/>\n<em>antes que Eneias assim a nomeasse,<\/em><br \/>\n<em>nem de filho ternura, nem afeta<\/em><br \/>\n<em>pena do velho pai, nem justo amor<\/em><br \/>\n<em>que alegraria Pen\u00e9lope dileta,<\/em><br \/>\n<em>em mim puderam vencer o fervor<\/em><br \/>\n<em>que me impelia a conhecer o mundo,<\/em><br \/>\n<em>e dos homens os v\u00edcios e o valor;<\/em><br \/>\n<em>e me atirei no mar aberto e fundo,<\/em><br \/>\n<em>com um s\u00f3 lenho e a pequena campanha<\/em><br \/>\n<em>que inda era o meu haver fido e jucundo.\u201d (INFERNO, XXVI, vv. 90-102)<span style=\"color: #333399\"><strong>(3)<\/strong><\/span><\/em><\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Ulisses por \u201cGaeta\u201d \u00e9 uma evid\u00eancia de que Dante assimilou este personagem apenas por meio de Virg\u00edlio, pois esta refer\u00eancia geogr\u00e1fica \u00e9 apenas narrada pelo mantuano, e n\u00e3o por Homero. Outra evid\u00eancia \u00e9 a caracteriza\u00e7\u00e3o de Ulisses como impiedoso por amar mais a aventura do que a sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>De costa a costa fui at\u00e9 \u00e0 Espanha,<\/em><br \/>\n<em>at\u00e9 o Marrocos e a ilha dos sardos,<\/em><br \/>\n<em>e outras que aquele mar \u00e0 volta banha.<\/em><br \/>\n<em>\u00c9ramos eles e eu, velhos e tardos<\/em><br \/>\n<em>ao chegarmos do augusto estreito \u00e0 frente,<\/em><br \/>\n<em>onde H\u00e9rcules ergueu os seus resguardos<\/em><br \/>\n<em>para que o homem mais al\u00e9m n\u00e3o tente.<\/em><br \/>\n<em>J\u00e1 os manes de Sevilha transcendidos,<\/em><br \/>\n<em>como os de Ceuta, \u00e0 esquerda m\u00e3o jazente:<\/em><br \/>\n<em>\u2018\u00d3 irm\u00e3os\u2019, disse eu, \u2018que por cem mil, vencidos,<\/em><br \/>\n<em>perigos alcan\u00e7astes o Ocidente;<\/em><br \/>\n<em>e esta vig\u00edlia dos nossos sentidos,<\/em><br \/>\n<em>t\u00e3o breve, que nos \u00e9 remanescente,<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o queirais recusar esta experi\u00eancia<\/em><br \/>\n<em>seguindo o Sol, de um mundo v\u00e3o de gente.<\/em><br \/>\n<em>Considerais a vossa proced\u00eancia:<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o fostes feitos para viver quais brutos,<\/em><br \/>\n<em>mas pra buscar virtude e sapi\u00eancia. (INFERNO, XXVI, vv. 103-120)<span style=\"color: #333399\"><strong>(<\/strong><\/span><\/em><span style=\"color: #333399\"><strong>4)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O augusto estreito a que Dante se refere \u00e9 o Estreito de Gibraltar, onde H\u00e9rcules teria carregado os c\u00e9us para Atlas. As \u00faltimas estrofes parecem ser uma reflex\u00e3o pessoal do pr\u00f3prio Dante na boca de Ulisses, comparando o esp\u00edrito europeu com as aventuras de Ulisses.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>Meus companheiros fiz t\u00e3o resolutos<\/em><br \/>\n<em>pra viagem, com t\u00e3o curta ora\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>que n\u00e3o seriam mais dela devolutos.<\/em><br \/>\n<em>Voltada a popa pra a manh\u00e3, j\u00e1 s\u00e3o<\/em><br \/>\n<em>asas os nossos remos, na ousadia<\/em><br \/>\n<em>do voo, apontando pra sinistra m\u00e3o.<\/em><br \/>\n<em>Do outro polo as estrelas todas via<\/em><br \/>\n<em>agora \u00e0 noite, enquanto, rebaixado,<\/em><br \/>\n<em>do ch\u00e3o do mar o nosso n\u00e3o surgia.<\/em><br \/>\n<em>Cinco vezes reaceso e cancelado<\/em><br \/>\n<em>fora o lume que a lua de baixo banha,<\/em><br \/>\n<em>depois do fundo passo ultrapassado,<\/em><br \/>\n<em>quando surgiu-nos diante uma montanha,<\/em><br \/>\n<em>pela dist\u00e2ncia, escura, e alta tanto<\/em><br \/>\n<em>que nunca eu conhecera outra tamanha.<\/em><br \/>\n<em>Nossa alegria logo volveu-se em pranto,<\/em><br \/>\n<em>que um remoinho dela levantou,<\/em><br \/>\n<em>e feriu o lenho fronteiro canto.<\/em><br \/>\n<em>Tr\u00eas vezes, co\u2019a \u00e1gua toda, ele rodou;<\/em><br \/>\n<em>na quarta, erguida a popa, foi arrojado,<\/em><br \/>\n<em>proa abaixo, como a algu\u00e9m agradou;<\/em><br \/>\n<em>at\u00e9 que o mar foi sobre n\u00f3s fechado.\u201d(INFERNO, XXVI, vv. 121-142)<span style=\"color: #333399\"><strong>(<\/strong><\/span><\/em><span style=\"color: #333399\"><strong>5)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Ulisses narra \u00e0 Dante a sua \u00faltima viagem; como pela vontade de conhecer o mundo e os homens ele, j\u00e1 velho, re\u00fane uns poucos antigos companheiros e, num s\u00f3 barco, atravessa as colunas de H\u00e9rcules e chega ap\u00f3s longa jornada o centro do hemisf\u00e9rio austral, onde avista uma ilha na forma de uma \u00fanica alt\u00edssima montanha. Na Divina Com\u00e9dia, Dante associa \u201cestrelas\u201d a uma ideia de \u201cesperan\u00e7a\u201d. Neste caso, Ulisses ao navegar rumo ao hemisf\u00e9rio austral, observando os c\u00e9us, sente um \u201cmisto de esperan\u00e7a\u201d. Logo em seguida, avista de longe uma \u201calta montanha\u201d (o Purgat\u00f3rio). Essa esperan\u00e7a logo lhe \u00e9 negada: como pag\u00e3o e, pecador, para ele n\u00e3o haveria mais salva\u00e7\u00e3o. Ulisses narra que, no momento de alcan\u00e7\u00e1-la, surge dela um tenebroso tuf\u00e3o que, \u201ccomo a algu\u00e9m agradou\u201d, arrebata o barco, e o mar se fecha sobre eles.<\/p>\n<p>J\u00e1, o Ulisses descrito por Homero era um homem engenhoso, excelente estrategista militar, que, ap\u00f3s a guerra de Troia, ansiava pelo retorno ao lar. Enquanto, o Ulisses descrito por Dante, \u00e9 insens\u00edvel quanto ao dever com sua fam\u00edlia, o desejo pelas gl\u00f3rias das aventuras mar\u00edtimas reina em sua alma, o levando ainda na velhice a convencer seus companheiros a novas aventuras em mares desconhecidos.<\/p>\n<p>Neste sentido, \u00e9 evidente que a inspira\u00e7\u00e3o de Dante foi muito mais o Ulisses descrito por Virg\u00edlio, do que o her\u00f3i da Odisseia. Dante, como muitos intelectuais de sua \u00e9poca, n\u00e3o lia em grego, e as raras tradu\u00e7\u00f5es das obras de Homero para o Latim, eram de alguns poucos cap\u00edtulos.<\/p>\n<h3>Influ\u00eancias de Ov\u00eddio<\/h3>\n<p>Ov\u00eddio foi um poeta romano, contempor\u00e2neo a Virg\u00edlio e Hor\u00e1cio, que viveu no per\u00edodo do reinado de C\u00e9sar Augusto. Comp\u00f4s diversas obras, e o seu Magnum Opus \u00e9 a obra \u201cMetamorfoses\u201d, que narram os mitos greco-romanos, desde a \u201cFunda\u00e7\u00e3o do mundo\u201d at\u00e9 a \u201cApoteose de J\u00falio C\u00e9sar\u201d. As principais caracter\u00edsticas desta obra s\u00e3o precisamente as metamorfoses, isto \u00e9, as mudan\u00e7as de forma em seus personagens que ocorrem ao longo dos poemas. As metamorfoses descritas por Ov\u00eddio representam uma transforma\u00e7\u00e3o vis\u00edvel de algo que o indiv\u00edduo j\u00e1 possu\u00eda em sua alma. Um exemplo, \u00e9 o poema \u201cCastigo de Lic\u00e1on\u201d, em que inicia J\u00fapiter convocando a assembleia dos deuses para proferir sua senten\u00e7a final sobre o destino da humanidade corrompida. Conta-lhes dos crimes que ouvira falar, e de como descera a Terra para experienciar com os pr\u00f3prios olhos a maldade e corrup\u00e7\u00e3o dos homens. Denuncia um pecado horrendo e ousad\u00edssimo, cometido contra ele pr\u00f3prio, por Lic\u00e1on, rei da Arc\u00e1dia. Decidido a testar a divindade de J\u00fapiter, serviu-lhe carne humana no jantar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201cCo\u2019a destra vingadora o raio agito,<\/em><br \/>\n<em>Sobre o cruel senhor derrubo os tetos,<\/em><br \/>\n<em>Os tetos, e os Penates, dignos dele.<\/em><br \/>\n<em>Para o sil\u00eancio agreste, agrestes sombras<\/em><br \/>\n<em>Foge rapidamente, espavorido,<\/em><br \/>\n<em>E querendo falar, uiva o perverso:<\/em><br \/>\n<em>Colhem do cora\u00e7\u00e3o braveza os dentes,<\/em><br \/>\n<em>C\u2019o matador costume os volve aos gados:<\/em><br \/>\n<em>Inda sangue lhe apraz, com sangue folga.<\/em><br \/>\n<em>A veste em p\u00ealo, as m\u00e3os em p\u00e9s se mudam.<\/em><br \/>\n<em>\u00c9 lobo, e do que foi sinais conserva:<\/em><br \/>\n<em>As mesmas c\u00e3s, a mesma catadura,<\/em><br \/>\n<em>E os mesmos olhos a luzir de raiva.\u201d (METAMORFOSES, O castigo de Lic\u00e1on, vv. 101-113)<span style=\"color: #333399\"><strong>(<\/strong><\/span><\/em><span style=\"color: #333399\"><strong>6)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Neste caso, a puni\u00e7\u00e3o de Lic\u00e1on \u00e9 se metamorfosear em lobo, pois devido a sua crueldade e impiedade, j\u00e1 vivia como se lobo o fosse. A inspira\u00e7\u00e3o de Dante em Ov\u00eddio \u00e9 patente no canto XXIV e XXV quando descreve tr\u00eas metamorfoses de almas dos ladr\u00f5es fraudulentos condenados a s\u00e9tima vala do oitavo c\u00edrculo do inferno. Os ladr\u00f5es que, em vida se dedicaram a roubar os bens dos outros, ap\u00f3s morte, como contraponto, tinham-lhes a pr\u00f3pria forma roubada.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>\u201cEis que a um que de n\u00f3s estava perto,<\/em><br \/>\n<em>de um golpe, uma serpente trespassou<\/em><br \/>\n<em>o colo, onde est\u00e1 no busto inserto.<\/em><br \/>\n<em>Nem o nem i t\u00e3o preste algu\u00e9m tra\u00e7ou<\/em><br \/>\n<em>como ele se incendiou, e cinza ardente,<\/em><br \/>\n<em>no ch\u00e3o precipitando, se tornou;<\/em><br \/>\n<em>depois de destru\u00eddo totalmente,<\/em><br \/>\n<em>sua cinza por si s\u00f3 se coligiu,<\/em><br \/>\n<em>e retornou a si pr\u00f3prio de repente.<\/em><br \/>\n<em>Assim de grandes s\u00e1bios j\u00e1 se ouviu<\/em><br \/>\n<em>dizer que a F\u00eanix morre e ap\u00f3s renasce<\/em><br \/>\n<em>quando o ano quingent\u00e9simo atingiu:<\/em><br \/>\n<em>erva ou gr\u00e3o em sua vida ela n\u00e3o pasce,<\/em><br \/>\n<em>s\u00f3 l\u00e1grimas de incenso e cardamono,<\/em><br \/>\n<em>e nardo e mirra enfaixam seu traspasse.\u201d (INFERNO, XXIV, vv. 97-111)<span style=\"color: #333399\"><strong>(<\/strong><\/span><\/em><span style=\"color: #333399\"><strong>7)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Nesta primeira metamorfose, descrita no canto XXIV, as almas dos ladr\u00f5es condenados a s\u00e9tima vala, eram metamorfoseadas em cinza, e depois de cinza retornavam a sua forma primeira. Algo semelhante ao mito de \u201cF\u00eanix\u201d. Esta condena\u00e7\u00e3o, de certa forma, tamb\u00e9m pode ser interpretada como uma corrup\u00e7\u00e3o ou invers\u00e3o do mist\u00e9rio da \u201cRessurrei\u00e7\u00e3o\u201d, segundo Teodolinda Baroline <span style=\"color: #333399\"><strong>(8)<\/strong><\/span>. A F\u00eanix, na mitologia, geralmente s\u00edmbolo de \u201crenova\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cressurrei\u00e7\u00e3o\u201d, na descri\u00e7\u00e3o de Dante \u00e9 s\u00edmbolo de puni\u00e7\u00e3o eterna.<\/p>\n<p>No canto XXV, o poeta narra ainda duas outras metamorfoses de ladr\u00f5es condenados a s\u00e9tima vala que tamb\u00e9m podemos associar a corrup\u00e7\u00e3o de outros dois mist\u00e9rios relacionados a Cristo: o da \u201cEncarna\u00e7\u00e3o\u201d e o da \u201cTransubstancia\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 40px\"><em>\u201cEnquanto eu neles tinha a vista presa,<\/em><br \/>\n<em>uma serpente de seis p\u00e9s se aventa<\/em><br \/>\n<em>num deles, e seu corpo todo apresa:<\/em><br \/>\n<em>as duas patas do meio e lhe assenta<\/em><br \/>\n<em>no ventre, co\u2019as da frente os bra\u00e7os prende<\/em><br \/>\n<em>e, em seguida, uma e outra face adenta:<\/em><br \/>\n<em>co\u2019as traseiras as coxas lhe apreende<\/em><br \/>\n<em>e delas de permeio a cauda passa<\/em><br \/>\n<em>que, por tr\u00e1s, pelos rins ent\u00e3o estende.<\/em><br \/>\n<em>Nunca t\u00e3o firmemente a hera abra\u00e7a<\/em><br \/>\n<em>uma \u00e1rvore, como essa horr\u00edvel fera<\/em><br \/>\n<em>co\u2019os membros todos do outro se entrela\u00e7a.<\/em><br \/>\n<em>E os dois se colam como fosse cera<\/em><br \/>\n<em>quente, que as formas perca e as cores borre:<\/em><br \/>\n<em>nem um nem o outro j\u00e1 exibia o que era,<\/em><br \/>\n<em>como com o papel queimando ocorre<\/em><br \/>\n<em>j\u00e1 n\u00e3o ter colorido certo algum:<\/em><br \/>\n<em>que preto ainda n\u00e3o \u00e9, e o branco morre.<\/em><br \/>\n<em>Os outros dois o olhavam, deles, um<\/em><br \/>\n<em>gritava: \u201cAgnel, como mudou tua cara!<\/em><br \/>\n<em>Olha, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nem dois nem um!\u201d.<\/em><br \/>\n<em>Das duas cabe\u00e7as j\u00e1 uma s\u00f3 restara;<\/em><br \/>\n<em>surgiam agora os dois semblantes mistos<\/em><br \/>\n<em>num rosto s\u00f3, que os outros anulara.\u201d (INFERNO, XXV, 49-72)<span style=\"color: #333399\"><strong>(<\/strong><\/span><\/em><span style=\"color: #333399\"><strong>9)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Ocorre uma metamorfose com uma certa uni\u00e3o entre duas formas horrendas: \u201csemblantes mistos num rosto s\u00f3\u201d. No inferno n\u00e3o h\u00e1 unidade, l\u00e1 reina a confus\u00e3o. Esta metamorfose, simboliza a corrup\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o. Cristo \u00e9 perfeito \u201cDeus\u201d e perfeito \u201cHomem\u201d, h\u00e1 Nele perfeita unidade. A caracter\u00edstica da metamorfose descrita por Dante \u00e9 a imperfei\u00e7\u00e3o, um caos, uma falta de unidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>\u201cQual lagartixa sob a chibatada<\/em><br \/>\n<em>canicular, que da sebe se aventa,<\/em><br \/>\n<em>como um corisco atravessando a estrada,<\/em><br \/>\n<em>assim chegava, para o ventre intenta<\/em><br \/>\n<em>de um dos dois outros, uma serpe ardida,<\/em><br \/>\n<em>l\u00edvida e preta qual gr\u00e3o de pimenta;<\/em><br \/>\n<em>co\u2019a parte onde primeiro \u00e9 recebida<\/em><br \/>\n<em>nossa alimenta\u00e7\u00e3o o trespassou,<\/em><br \/>\n<em>tombando ap\u00f3s frente a ele estendida.<\/em><br \/>\n<em>O trespassado nada ent\u00e3o falou,<\/em><br \/>\n<em>antes, em p\u00e9, parado bocejava,<\/em><br \/>\n<em>como quem sono ou febre dominou.<\/em><br \/>\n<em>Ela pra serpe, e esta pra ele olhava,<\/em><br \/>\n<em>e um pela chaga, outro pelo focinho<\/em><br \/>\n<em>lan\u00e7avam fumo que se entremeava.<\/em><br \/>\n<em>Cale Lucano agora do mesquinho<\/em><br \/>\n<em>Sabello e de Nass\u00eddio a hist\u00f3ria abstrusa,<\/em><br \/>\n<em>e atenda a ouvir o que eu agora alinho.<\/em><br \/>\n<em>Cale Ov\u00eddio de Cadmo e de Aretusa<\/em><br \/>\n<em>que, se esta em fonte e se aquele em serpente<\/em><br \/>\n<em>fez converter, eu n\u00e3o lhe invejo a musa.<\/em><br \/>\n<em>Porque duas naturezas frente a frente<\/em><br \/>\n<em>n\u00e3o transmudou, assim que uma e outra forma<\/em><br \/>\n<em>fosse a trocar mat\u00e9ria consenciente.<\/em><br \/>\n<em>Aqueles adequaram-se a essa norma:<\/em><br \/>\n<em>a serpente em forquilha a cauda fende,<\/em><br \/>\n<em>enquanto assim o outro se transforma:<\/em><br \/>\n<em>num corpo s\u00f3 ele as duas pernas prende<\/em><br \/>\n<em>t\u00e3o bem unidas que de sua juntura<\/em><br \/>\n<em>sinal algum a vista depreende.<\/em><br \/>\n<em>Fendida, a cauda toma a figura<\/em><br \/>\n<em>que no outro se perdia; tamb\u00e9m sua pele<\/em><br \/>\n<em>tornava-se macia e, do outro, dura.<\/em><br \/>\n<em>Nas axilas vi entrar os bra\u00e7os dele<\/em><br \/>\n<em>e, na fera, as duas patas correlatas<\/em><br \/>\n<em>tanto cresciam quanto encolhiam naquele.<\/em><br \/>\n<em>Logo as patas de tr\u00e1s, jungo contratas,<\/em><br \/>\n<em>formam o membro que o homem encobre,<\/em><br \/>\n<em>e o do coitado cinde-se em duas patas.<\/em><br \/>\n<em>Agora, o fumo um e outro ser encobre<\/em><br \/>\n<em>de nova cor e, num, o pelo apara,<\/em><br \/>\n<em>enquanto no outro de cabelo cobre,<\/em><br \/>\n<em>e um tomba, mal o outro levantara,<\/em><br \/>\n<em>sem desviarem suas lanternas m\u00e1s,<\/em><br \/>\n<em>sob as quais cada qual mudava a cara.<\/em><br \/>\n<em>O que se erguera a repuxou pra tr\u00e1s,<\/em><br \/>\n<em>e a mat\u00e9ria que disso ent\u00e3o sobrava<\/em><br \/>\n<em>fez orelhas nas faces que as n\u00e3o traz;<\/em><br \/>\n<em>a parte, que na frente ainda restava<\/em><br \/>\n<em>de mat\u00e9ria que disso ent\u00e3o sobrava<\/em><br \/>\n<em>fez orelhas nas faces que as n\u00e3o traz;<\/em><br \/>\n<em>a parte, que na frente ainda restava<\/em><br \/>\n<em>da mat\u00e9ria, o nariz formando vai<\/em><br \/>\n<em>e novos l\u00e1bios encorpa e alinhava.<\/em><br \/>\n<em>O que jazia sua cara ent\u00e3o protrai<\/em><br \/>\n<em>e recolhe as orelhas na cabe\u00e7a,<\/em><br \/>\n<em>como os corninhos que a lesma retrai;<\/em><br \/>\n<em>e a l\u00edngua, que era inteiri\u00e7a e professa<\/em><br \/>\n<em>\u00e0 fala, ora se fende, e a forquilhada<\/em><br \/>\n<em>do outro se rejunta, e o fumo cessa.\u201d (INFERNO, XXV, 79-135)<\/em><span style=\"color: #333399\"><strong>(10)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Na terceira metamorfose descrita por Dante, os seres se transformam, n\u00e3o apenas no aspecto vis\u00edvel, mas tamb\u00e9m em sua ess\u00eancia. Simbolicamente, segundo Teodolinda Baroloni <span style=\"color: #333399\">(<strong>11<\/strong>)<\/span>, esta metamorfose seria uma corrup\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio da Transubstancia\u00e7\u00e3o, onde o p\u00e3o e o vinho se convertem no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Outra interpreta\u00e7\u00e3o, poss\u00edvel, seria a corrup\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do Matrim\u00f4nio. Pois, no matrim\u00f4nio, a uni\u00e3o do casal perante Deus, tornam-se uma s\u00f3 carne.<\/p>\n<h3>Influ\u00eancias de Virg\u00edlio<\/h3>\n<p>Virg\u00edlio, contempor\u00e2neo a Ov\u00eddio, Hor\u00e1cio e Lucano, foi um poeta que viveu no primeiro s\u00e9culo antes de Cristo, autor de Buc\u00f3licas, Ge\u00f3rgicas e Eneida.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>\u201cSou aquele que outrora can\u00e7\u00f5es modulei ao compasso<\/em><br \/>\n<em>a doce avena e, saindo das selvas, os campos vizinhos<\/em><br \/>\n<em>a obedecer obriguei \u00e0 avidez do colosso remisso,<\/em><br \/>\n<em>nas gratas fainas da terra: ora os feitos horrendos de marte.\u201d (ENEIDA, I, vv. 1-4)<\/em><\/p>\n<p>Virg\u00edlio guiando Dante at\u00e9 o Purgat\u00f3rio simboliza a raz\u00e3o que nos induz at\u00e9 a f\u00e9, mas sozinha, n\u00e3o pode nos levar at\u00e9 o c\u00e9u. N\u00f3s precisamos da gra\u00e7a de Deus para chegar at\u00e9 o Para\u00edso. Dante escolhe Virg\u00edlio, porque, dentre os poetas antigos, ele \u00e9 o que mais se aproximou da moral e doutrina crist\u00e3 sem ter tido acesso a Revela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 80px\"><em>\u201c\u2018\u00c9s tu aquele Virg\u00edlio, aquela fonte<\/em><br \/>\n<em>que expande do dizer t\u00e3o vasto flume?\u2019,<\/em><br \/>\n<em>respondi eu com vergonhosa fronte,<\/em><br \/>\n<em>\u2018\u00d3 de todo o poeta honor e lume,<\/em><br \/>\n<em>valha-me o longo estudo e o grande amor<\/em><br \/>\n<em>que me fez procurar o teu volume.<\/em><br \/>\n<em>Tu \u00e9s meu mestre, tu \u00e9s meu autor,<\/em><br \/>\n<em>foi s\u00f3 de ti que eu procurei colher<\/em><br \/>\n<em>o belo estilo que me deu louvor\u2019.\u201d (INFERNO, I, 82-87)<\/em><span style=\"color: #333399\"><strong>(12)<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Segundo Teodoro Haecker, os monges beneditinos tinham como pai espiritual S\u00e3o Bento e como pai secular Virg\u00edlio. Ele foi o poeta que louvou o valor do trabalho no campo, ensinou a agricultura e o her\u00f3i piedoso. Desta forma, n\u00e3o \u00e9 por acaso que Dante elege justamente Virg\u00edlio, como seu guia. Virg\u00edlio \u00e9 s\u00edmbolo da raz\u00e3o iluminada, daquele que cantou o pio her\u00f3i, daquele que prenunciou em sua quarta \u00c9cloga, a vinda de um salvador. Foi Virg\u00edlio, dentre os poetas da antiguidade, aquele que preparou os cora\u00e7\u00f5es romanos, para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Teodoro Haecker diz que o homem virgiliano \u00e9 a \u201canima naturaliter christiana\u201d <span style=\"color: #333399\"><strong>(13)<\/strong><\/span>, a alma naturalmente crist\u00e3, porque ele, como nenhum outro na antiguidade pag\u00e3, serviu como prefigura\u00e7\u00e3o da vinda de Cristo. Somente com esperan\u00e7as messi\u00e2nicas e com esta expectativa escatol\u00f3gica, o homem virgiliano permanecia inteiro, perfeito e aberto ao futuro; uma prepara\u00e7\u00e3o clara e transparente; n\u00e3o um fim, mas um caminho.<\/p>\n<h3>Ep\u00edlogo<\/h3>\n<p>As influ\u00eancias de Virg\u00edlio e Ov\u00eddio s\u00e3o comprovadas em in\u00fameros versos na descri\u00e7\u00e3o do inferno de Dante. Principalmente, na caracteriza\u00e7\u00e3o de alguns personagens liter\u00e1rios e mitol\u00f3gicos que simbolizam o pecado descrito nos diferentes c\u00edrculos do inferno. A descri\u00e7\u00e3o da apar\u00eancia de Caronte \u201ccom olhos em brasa\u201d, ou do fato de que o seu guia teve que \u201calimentar\u201d C\u00e9rbero, o c\u00e3o infernal, para conseguir passagem \u201csegura\u201d a Dante em sua cat\u00e1base. O mesmo faz a Sibila, guia de Eneias, que alimenta C\u00e9rbero, na descida ao Hades.<br \/>\nN\u00e3o apenas da Literatura Cl\u00e1ssica, nutriu-se o poeta florentino para compor essa grandiosa obra. Seu profundo conhecimento das Artes Liberais, seus estudos aprofundados nas artes do Quadrivium tamb\u00e9m s\u00e3o evidentes em suas descri\u00e7\u00f5es \u201castron\u00f4micas\u201d para identificar, cronologicamente, o tempo de seu percurso na descida ao inferno e subida ao Purgat\u00f3rio e Para\u00edso.<\/p>\n<p>A Divina Com\u00e9dia, assim como outras grandes obras da Literatura Cl\u00e1ssica \u00e9 uma obra perene, que apresenta valores universais e, evidencia que seu autor assimilou as grandes obras que a precederam, assim como se tornou fonte de inspira\u00e7\u00e3o para a literatura que a sucedeu. A Literatura Cl\u00e1ssica, assim como o relato hist\u00f3rico, apresenta uma fun\u00e7\u00e3o educadora: auxiliam o homem a conhecer a si mesmo. Fornecendo exemplos claros dos problemas humanos, do contraste entre os v\u00edcios e as virtudes, das a\u00e7\u00f5es e suas consequ\u00eancias. Ou seja, um meio para melhor compreender a realidade em que vivemos e de como lidar com os desafios que a vida nos oferece. Acompanhar a cat\u00e1base de Dante, nos permite olhar atentamente o mais \u00edntimo de nosso ser, descobrir quais aspectos em nossa vida precisamos lapidar, e como encontrar for\u00e7as para viver a reta via at\u00e9 Cristo.<\/p>\n<p>Como intelectuais, devemos assim como Dante, nutrir-nos dos cl\u00e1ssicos, reconhecendo o tesouro que nos foi legado, permitindo que a labareda desta beleza alumie nossa alma e desloque o nosso olhar para o alto. Como Virg\u00edlio, devemos ser um guia para que outros possam realizar essa mesma jornada pela selva oscura; como Dante, devemos buscar o aux\u00edlio da Gra\u00e7a Divina, para tornar-nos um farol a alumiar a reta via.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fontes:<br \/>\n(1) ROPS, Daniel. <a href=\"https:\/\/amzn.to\/4imf2vB\"><strong>Hist\u00f3ria da Igreja III<\/strong><\/a>. Editora p. 669.<br \/>\n(2), (3), (4), (5) VIRG\u00cdLIO. <a href=\"https:\/\/amzn.to\/3QKtl1m\"><strong>Eneida<\/strong><\/a>. S\u00e3o Paulo: Editora 34.<br \/>\n(6) OV\u00cdDIO. <a href=\"https:\/\/amzn.to\/43oHNmZ\"><strong>Metamorfoses<\/strong><\/a>. Porto Alegre: Editora Concreta.<br \/>\n(7) VIRG\u00cdLIO. <a href=\"https:\/\/amzn.to\/3QKtl1m\"><strong>Eneida<\/strong><\/a>. S\u00e3o Paulo: Editora 34.<br \/>\n(8) BAROLINE, Teodolinda. <strong>Inferno 24: Commento Baroliniano<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/digitaldante.columbia.edu\/dante\/divine-comedy\/inferno\/inferno-24\/\">https:\/\/digitaldante.columbia.edu\/dante\/divine-comedy\/inferno\/inferno-24\/<\/a><br \/>\n(9) (10) VIRG\u00cdLIO. <a href=\"https:\/\/amzn.to\/3QKtl1m\"><strong>Eneida<\/strong><\/a>. S\u00e3o Paulo: Editora 34.<br \/>\n(11) BAROLINE, Teodolinda. <strong>Inferno 25: Commento Baroliniano<\/strong>. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/digitaldante.columbia.edu\/dante\/divine-comedy\/inferno\/inferno-25\/\">https:\/\/digitaldante.columbia.edu\/dante\/divine-comedy\/inferno\/inferno-25\/<\/a><br \/>\n(12) VIRG\u00cdLIO. <a href=\"https:\/\/amzn.to\/3QKtl1m\"><strong>Eneida<\/strong><\/a>. S\u00e3o Paulo: Editora 34.<br \/>\n(13) HAECKER, Teodoro. <strong>Virg\u00edlio padre do ocidente<\/strong>. Edi\u00e7\u00f5es y Publicaciones Espa\u00f1olas, S. A.<br \/>\n(14) ALIGHIERI, Dante. <a href=\"https:\/\/amzn.to\/3XoTiHy\"><strong>A Divina Com\u00e9dia: Inferno<\/strong><\/a>. S\u00e3o Paulo: Editora 34<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dante e o momento hist\u00f3rico em que vivia Dante foi um poeta e fil\u00f3sofo italiano nascido em Floren\u00e7a entre maio e junho de 1265 e foi batizado no Batist\u00e9rio de San Giovanni. Durante a inf\u00e2ncia, o poeta se dedicou ao estudo das Artes Liberais, no qual se desenvolveu excepcionalmente. Durante sua forma\u00e7\u00e3o, Dante se alimentou &hellip; <\/p>\n<p><a class=\"more-link btn\" href=\"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/influencias-literarias-que-inspiraram-dante-ao-descrever-o-inferno\/\">Continue lendo<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":462,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[11,4],"class_list":["post-447","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-estudos-classicos","tag-artes-liberais","tag-divina-comedia","item-wrap"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/447","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=447"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/447\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":467,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/447\/revisions\/467"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/media\/462"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=447"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=447"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=447"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}