{"id":48,"date":"2022-10-28T10:32:22","date_gmt":"2022-10-28T13:32:22","guid":{"rendered":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/?p=48"},"modified":"2022-11-01T15:28:18","modified_gmt":"2022-11-01T18:28:18","slug":"o-vestibulo-dantesco-e-o-liberalismo-catolico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/o-vestibulo-dantesco-e-o-liberalismo-catolico\/","title":{"rendered":"O vest\u00edbulo dantesco e o liberalismo cat\u00f3lico"},"content":{"rendered":"<p>A tibieza e a neutralidade moral absoluta eram consideradas n\u00f3xias na doutrina cat\u00f3lica medieval. Vejamos por exemplo, como Dante Alighieri, retrata, em sua obra &#8220;<a href=\"https:\/\/amzn.to\/3DhG8kG\"><strong>A Divina Com\u00e9dia<\/strong><\/a>&#8220;, os indiv\u00edduos que, em vida, prescindiram da escolha pela promo\u00e7\u00e3o do Bem.<\/p>\n<div id=\"attachment_117\" style=\"width: 800px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-117\" class=\"size-full wp-image-117\" src=\"http:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2022\/10\/800px-Priamo_della_Quercia._Miniature_from_Dantes_Divine_Comedy._British_Library..jpg\" alt=\"Detalhe de Dante e Virg\u00edlio no Vest\u00edbulo por Priamo della Quercia.\" width=\"800\" height=\"351\" srcset=\"https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2022\/10\/800px-Priamo_della_Quercia._Miniature_from_Dantes_Divine_Comedy._British_Library..jpg 800w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2022\/10\/800px-Priamo_della_Quercia._Miniature_from_Dantes_Divine_Comedy._British_Library.-300x132.jpg 300w, https:\/\/vias-classicas.com\/michaelhellmann\/wp-content\/uploads\/sites\/4\/2022\/10\/800px-Priamo_della_Quercia._Miniature_from_Dantes_Divine_Comedy._British_Library.-768x337.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><p id=\"caption-attachment-117\" class=\"wp-caption-text\">Detalhe de Dante e Virg\u00edlio no Vest\u00edbulo por Priamo della Quercia.<\/p><\/div>\n<p>No terceiro canto do <em>Inferno<\/em>, o poeta descreve a chegada do &#8220;viajante&#8221; (o pr\u00f3prio Dante) ao chamado &#8220;vest\u00edbulo do inferno&#8221;, ou &#8220;ante-inferno&#8221;. O vest\u00edbulo destinar-se-ia \u00e0s almas daqueles infelizes que, por covardia, medo, ou mera tibieza moral, se sotopuseram de fazer tanto o bem quanto o mal, que se omitiram de avocar quaisquer quefazeres para a vida. De fato, Dante abomina de tal forma o homem t\u00e9pido, que o coloca no vest\u00edbulo do inferno, pois o execrando \u00e9 t\u00e3o nauseabundo que n\u00e3o \u00e9 benemerente nem da laur\u00e9ola celestina no Para\u00edso, nem da objurga\u00e7\u00e3o eterna na Geena. No vest\u00edbulo, as almas emitem terr\u00edveis bramidos e chios, ferretoadas e amofinadas por vespas e moscas, que lhes derramam o sangue dos rostos, que escorre ao ch\u00e3o misturado com suas l\u00e1grimas em um mar de lam\u00farias. No vest\u00edbulo, estariam os anjos que se mantiveram equ\u00e2nimes na disputa entre Deus e L\u00facifer,\u00a0 ao lado de todas as almas que se mantiveram moralmente neutras durante a vida \u2014 entre essas, Dante insere o Papa Celestino V.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso depreender que, na \u00e9poca em que o poeta escreveu <a href=\"https:\/\/vias-classicas.com\/blog\/a-divina-comedia\/\">O Inferno<\/a>, o Papa Celestino V ainda n\u00e3o fora canonizado; e na Europa viviam-se tempos desinquietos, nos quais as not\u00edcias eram diversas vezes oriundas de informes segment\u00e1rios ou boatos do que genuinamente respaldadas em fatos inconcussos. Floren\u00e7a, sua cidade natal, estava politicamente desagregada.<\/p>\n<p>Dante nasceu durante o grande pr\u00e9lio pol\u00edtico dos Gibelinos e dos Guelfos na Europa. Os primeiros desejavam uma menor interfer\u00eancia pol\u00edtica por parte do Papa, e que os Monarcas Cat\u00f3licos tivessem maior alforria do arb\u00edtrio do Santo Padre sobre seus governos. J\u00e1 o partido dos Guelfos defendia a supremacia do poder Papal, como balan\u00e7a moral e Crist\u00e3 sobre os reinados e imp\u00e9rios cat\u00f3licos. Dante nasceu em uma fam\u00edlia Guelfa e amava sua Igreja; digladiava para que a conflu\u00eancia entre os monarcas e a Igreja fosse afixada.<\/p>\n<p>Possivelmente, o poeta insere o Papa Celestino V no ante-inferno porque ele renunciou ao papado cinco meses ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o. Sua ren\u00fancia, foi provavelmente devida \u00e0 press\u00e3o pol\u00edtica por parte de ambos os partidos, bem como \u00e0 sua j\u00e1 provecta idade e fragilizada sa\u00fade. Dante considerava esse ato um grande erro moral, principalmente para um l\u00edder cat\u00f3lico: abster-se de promover o <a href=\"https:\/\/vias-classicas.com\/blog\/estudando-formacao-da-cidade-crista-de-ruben-calderon-bouchet\/\">Bem Comum<\/a>, em particular, o de harmonizar o conflito politico na Europa.<\/p>\n<p><em>\u201cDeus \u00e9 o Bem supremo de todas as criaturas. Todas foram criadas para Si, e devem retornar ao seu Criador atrav\u00e9s dos seus atos. [\u2026] Para alcan\u00e7ar a vida eterna \u00e9 necess\u00e1rio ao homem passar por esta vida na Terra, na qual ele n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3. Vive em sociedade e deve preservar, dentro dessa sociedade, o bem comum de todos os seus membros\u201d. (1)<\/em><\/p>\n<p>Um segundo motivo para incluir o Papa Celestino V no ante-inferno foi o de que, ao renunciar o cargo, seu sucessor, Bonif\u00e1cio VIII, tomou decis\u00f5es pol\u00edticas que resultaram no sofrido ex\u00edlio de Dante. O poeta inclui o Papa Celestino V como uma m\u00f4nita a todos n\u00f3s: ningu\u00e9m est\u00e1 eximido da justi\u00e7a Divina caso se mantenha em estado de exabundante neutralidade ou se abstenha de promover o bem comum. (2)<\/p>\n<p>Se Dante penejasse estes versos na atualidade, quem mais ele incluiria na antec\u00e2mara do inferno? Os cat\u00f3licos liberais, com sua neutralidade extrema, s\u00e3o opimos candidatos ao vest\u00edbulo dantesco. Toda a mornid\u00e3o e a falsa neutralidade descrita pelo autor, reflete o durame do chamado &#8220;liberalismo cat\u00f3lico&#8221;, doutrina morb\u00edgena, inicialmente formulada pelo padre F\u00e9licit\u00e9 Robert de Lamennais. Segundo o <a href=\"https:\/\/amzn.to\/3SQtVJf\">Pe. Augustin Roussel<\/a>, os cat\u00f3licos liberais n\u00e3o s\u00e3o realmente cat\u00f3licos, nem liberais; s\u00e3o pacifistas ao extremo; acomodat\u00edcios com os \u00eamulos da Igreja, mantendo-se pusilanimemente neutros em vez de defend\u00ea-la. N\u00e3o s\u00e3o her\u00e9ticos, pois n\u00e3o negam com renit\u00eancia alguma verdade da f\u00e9 integral e cat\u00f3lica, mas o seu amor infrene \u00e1 independ\u00eancia, \u00e0 inova\u00e7\u00e3o e ao \u201cprogresso\u201d da sociedade, leva-os a \u201camoldar\u201d os dogmas da religi\u00e3o, sempre descrevendo-os de forma amb\u00edgua, deixando espa\u00e7o para m\u00faltiplas interpreta\u00e7\u00f5es, com o des\u00edgnio final de adequ\u00e1-los \u00e0 era moderna.<\/p>\n<p>Todos os fatos expostos acima nos fazem refletir: ser\u00e1 que n\u00f3s, em nossa vida, tamb\u00e9m culpavelmente deixamos de propiciar o bem comum? Ser\u00e1 que, por comodismo ou covardia, n\u00e3o renunciamos aos dons que Deus nos deu, como o da intelig\u00eancia e do discernimento, para agir prudentemente e chegar a este fim?<\/p>\n<hr \/>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>(1)\u00a0<a href=\"http:\/\/permanencia.org.br\/drupal\/node\/6215\">http:\/\/permanencia.org.br\/drupal\/node\/6215<\/a><br \/>\n(2) Celestino percebeu, logo, que n\u00e3o era livre no exerc\u00edcio do seu Minist\u00e9rio, por causa daqueles que, na C\u00faria, esperavam se beneficiar pela sua pouca experi\u00eancia de governo. [&#8230;] \u00abEu, Papa Celestino V, impelido por leg\u00edtimas raz\u00f5es, pela humildade e debilidade do meu corpo e pela maldade da Plebe, e com o intuito de retornar \u00e0 minha tranquilidade perdida, renuncio livre e espontaneamente ao Pontificado, como tamb\u00e9m ao trono, \u00e0 dignidade, \u00e0s honras e \u00f4nus, que comporta\u00bb. Com estas palavras, no dia 13 de dezembro de 1294, Celestino despoja-se dos seus paramentos sagrados e se reveste com o antigo saio.&#8221; <a href=\"https:\/\/www.vaticannews.va\/pt\/santo-do-dia\/05\/19\/s--pedro-celestino-v--papa--pietro-del-murrone-.html\">https:\/\/www.vaticannews.va\/pt\/santo-do-dia\/05\/19\/s&#8211;pedro-celestino-v&#8211;papa&#8211;pietro-del-murrone-.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tibieza e a neutralidade moral absoluta eram consideradas n\u00f3xias na doutrina cat\u00f3lica medieval. Vejamos por exemplo, como Dante Alighieri, retrata, em sua obra &#8220;A Divina Com\u00e9dia&#8220;, os indiv\u00edduos que, em vida, prescindiram da escolha pela promo\u00e7\u00e3o do Bem. 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