Você sabe ler?

Parece incoerente enunciar esta pergunta por escrito. Afinal, como uma pessoa que não soubesse ler poderia respondê-la?

A questão, portanto, é, certamente, outra: precisamos discutir o que queremos dizer quando dizemos que “sabemos ler”.

Não é uma resposta fácil, simples, óbvia. Comecemos pelo reconhecimento de um fato: todos nós somos, objetivamente, analfabetos quando lemos um texto especializado sobre um tema que não diz respeito à nossa profissão. Se você é médico veterinário, sente-se analfabeto lendo um texto avançado sobre Direito Tributário; se você é advogado tributarista, sente-se analfabeto lendo um texto avançado sobre Medicina Veterinária.

A dificuldade não decorre, apenas, do uso mais ou menos intenso de termos técnicos e jargão profissional, mas de tudo o que não sabemos sobre aquela Ciência, profissão ou disciplina. Não conhecemos as discussões teóricas e os problemas práticos, as definições e os conceitos, as aplicações e contraindicações, nem as lições da experiência com erros e acertos, tanto aqueles praticados por nós mesmos, quanto os das gerações antecedentes.

É forçoso, portanto, reconhecer que saber ler significa muitas coisas diferentes. É uma habilidade adquirida e desenvolvida em camadas superpostas ao longo de toda a vida, em que cada nova camada cresce e se diferencia sobre a anterior sem jamais eliminá-la, tal como procuramos demonstrar na metáfora visual que ilustra este artigo.

As cinco camadas de leitura

Na primeira camada, a base de tudo, estão as letras e as sílabas. Dizemos que uma criança aprendeu a ler quando ela, muito orgulhosamente, consegue unir as letrinhas para formar sílabas e, como coroamento dessa importantíssima conquista, é capaz de reconhecer a palavra por elas formada; por exemplo: “Bo-lo = Bolo!”.

Embora haja mil e um métodos e teorias da alfabetização, o fato é que as sílabas, na condição de “unidades mínimas de emissão de voz”, são os “tijolos sonoros” com os quais construímos a leitura e o entendimento das palavras de um idioma.

Como dissemos, a correta pronúncia das sílabas constitui apenas primeira – e indispensável – camada do saber ler. Sobre essa apreensão sonora da palavra individual, precisamos desenvolver a segunda camada: a capacidade de entender o significado das palavras individuais formadas por essas sílabas. Isso implica a ampliação contínua, persistente e disciplinada do vocabulário do leitor, tanto por meio do diálogo com pais e professores, quanto pelo treinamento na consulta a dicionários gerais e especializados, bem como pela leitura diária de bons textos de variados autores e épocas.

É necessário destacar algumas palavras e expressões do parágrafo anterior para esclarecer as dimensões do problema e os meios de atacá-lo:

  • Capacidade de entender o significado das palavras individuais: Esta é uma habilidade avançada que não deriva diretamente da camada anterior, porque o significado de uma mesma palavra pode variar amplamente, conforme o assunto do texto, a presença de outras palavras na frase, a época em que o texto foi escrito, o estilo adotado pelo autor, entre muitas outras variáveis.
  • Ampliação contínua, persistente e disciplinada do vocabulário do leitor: Os três adjetivos são indispensáveis.
    • A ampliação do vocabulário deve ser contínua: jamais devemos acreditar que já sabemos o bastante. Sempre devemos conferir se o significado de uma palavra constante em um texto realmente corresponde àquele que imaginamos. Por exemplo: como todo advogado terá prazer em explicar a você, algumas palavras escritas em um contrato parecem dizer uma coisa em seu sentido ordinário, cotidiano; porém representam outra, muito diferente, no contexto do direito contratual. Se assinarmos um contrato apenas achando que entendemos corretamente os seus termos, poderemos rapidamente nos achar em maus lençóis.
    • A ampliação do vocabulário também deve ser persistente, no sentido de que cada nova acepção apreendida deve permanecer (persistir) na memória, para que possamos reconhecê-la e diferenciá-la no futuro.
    • Finalmente, nossa ampliação de vocabulário deve ser disciplinada em dois sentidos. No primeiro, devemos nos esforçar para distinguir em qual dos diversos sentidos possíveis aquela palavra aparece no texto que temos diante de nós. No segundo, devemos usar as palavras nos sentidos correspondentes à nossa intenção de dizer alguma coisa específica, em vez de, simplesmente, registrar por escrito a primeira palavra que nos vier à cabeça.
  • Diálogo com pais e professores: A principal forma pela qual adquirimos um domínio crescente do sentido das palavras é pelo diálogo com pessoas mais experientes que nós. Um esclarecimento oral oferecido por pessoa instruída, muitas vezes, pode ser mais útil do que uma definição dicionarizada, porque nos oferece uma visão imediata do seu uso cultural específico. Por exemplo, num livro de contabilidade, você pode encontrar uma frase que inclua a expressão “as contas (= conjunto de registros contábeis) do passivo” e, mais adiante, um trecho em que o autor diga, numa linguagem mais coloquial, que “neste caso, é preciso fazer as contas (= efetuar os cálculos)”. Para um iniciante, esses usos díspares da mesma palavra podem resultar confusos; no entanto, a intervenção de um professor ou profissional experiente pode resolver a dúvida mais facilmente do que a consulta um dicionário.
  • Treinamento na consulta a dicionários: Um fato importantíssimo frequentemente esquecido é que a consulta a dicionários é uma habilidade que requer treinamento. Não basta dizer “consulte o dicionário” e deixar que o estudante – especialmente a criança e o adolescente – “se vire” para dar conta dessa tarefa. O uso eficiente de dicionários requer, logo de início, conhecimento completo da ordem alfabética: a criança precisa saber se a palavra que está procurando “vem antes ou depois” da palavra que está à sua frente na página do dicionário. Em seguida, ela também necessita decifrar a função daquelas palavras no topo das colunas de texto, bem como de todas aquelas siglas e abreviações constantes nos verbetes, além de adquirir critérios para identificar a definição mais adequada ao texto onde encontrou a palavra que motivou a consulta.
    • Essa não é tarefa simples, de que uma criança possa se desembaraçar apenas seguindo a intuição. Entretanto, é exatamente assim que a maioria de nós aprendemos a usar dicionários e, exatamente por isso, adquirimos uma imensa preguiça de usá-los. Todo educador e cidadão que busca a própria educação deve esforçar-se para aprender a usar dicionários e transmitir esse conhecimento à próxima geração.
  • Textos de variados autores e épocas: A literatura de distintos autores e épocas provê uma ampla visão das mudanças no uso das palavras ao longo de gerações, oferecendo ao estudante diversas oportunidades:
    • (1) Compreender como uma palavra era usada no passado e captar as mudanças no uso contemporâneo;
    • (2) Reviver e renovar o uso, em sua fala e escrita, de belas expressões antigas abandonadas pelas gerações seguintes; e
    • (3) Criar novos usos e significados a partir desse conhecimento.

Portanto, saber ler, na segunda camada de leitura, significa captar o significado exato de cada uma das palavras de cada frase de um texto. Esse é um treinamento que deve se iniciar logo após o domínio da primeira camada e se estender por toda a vida.

A terceira camada é a compreensão do sentido de frases completas, cada vez mais complexas, uma habilidade que se conquista também progressivamente, com estágios que avançam desde os períodos simples com predicados nominais até as mais intrincadas composições por subordinação e coordenação. Nesta camada, o leitor se esforça por divisar as relações entre as palavras, mais do que o seu significado individual. Essas relações podem ser:

(1) Convencionais, como no caso das regras de concordância e regência nominais e verbais;

(2) Funcionais, caso das múltiplas funções morfológicas e sintáticas que as palavras podem desempenhar numa frase;

(3) Lógicas, tais como a composição de orações coordenadas e subordinadas, que estabelecem um relacionamento intelectual entre as ideias expressas pelas palavras em cada oração;

(4) Estéticas, caso em que as palavras são escolhidas e dispostas de tal modo a melhorar sua musicalidade ou a deleitar a imaginação do leitor;

(5) Psicológicas ou Retóricas; em que essa mesma escolha das palavras e da sua disposição na frase segue o critério de maximização de sua influência psicológica ou persuasiva sobre o leitor.

O leitor incapaz de reconhecer e interpretar essas intenções do autor ao ler um texto não pode dizer que, efetivamente, soube lê-lo. Talvez tenha entendido as palavras individuais, ou os aspectos mais óbvios da literalidade da mensagem; porém, passará ao largo de todo humor, ironia, analogia e simbolismo eventualmente constantes da frase original.

Ao contrário da transição da primeira camada para a segunda, o início do desenvolvimento da terceira não pode esperar o final da segunda, pelo motivo evidente e já mencionado de que a ampliação do vocabulário, tal como a delineamos neste texto, não tem fim previsível, estendendo-se por toda a vida do estudante. O mesmo princípio vale para todas as camadas seguintes: uma camada ulterior germina e floresce sobre os esforços despendidos na camada anterior.

O treinamento formal na compreensão de frases é concomitante ao treinamento e à ampliação do entendimento das palavras; pois, se a palavra é a “unidade mínima do significado” e, a frase, a “unidade mínima da comunicação”, é forçoso perceber que não faz o mínimo sentido a tentativa de compreendê-las isoladamente. À exceção dos jogadores compulsivos de palavras-cruzadas, não se aprende uma palavra apenas por erudição, mas para entendê-la quando presente numa frase e, mais adiante, para usá-la na composição de uma frase.

A quarta camada do saber ler envolve o uso de todas as habilidades adquiridas nas camadas anteriores para absorver as mensagens do texto; aquelas constantes nos parágrafos, seções, capítulos e na obra inteira. Quando lemos um capítulo de um livro e não sabemos explicar sobre o que ele trata, resumindo suas principais concepções em uma única frase curta, com o menor número possível de palavras, não podemos dizer que soubemos lê-lo. Quando muito, o que fizemos foi correr os olhos por suas linhas, divertindo-nos com uma grande coleção de frases isoladas que não chegaram a formar uma unidade em nossa mente.

Portanto, o treinamento da quarta camada implica a aquisição da habilidade de compor uma unidade a partir do conjunto de palavras e frases constantes num texto. O progresso pode ser paulatino, iniciando-se no resumo das ideias de cada parágrafo, seguindo-se pelo do conjunto de parágrafos de uma subseção, de uma seção, de um capítulo, de um conjunto de capítulos, até chegar à obra inteira.

A quarta camada constitui o primeiro aspecto da essência das funções do professor/educador. O professor não é aquele que repete aquilo que está no livro, palavra por palavra; mas aquele que resume, que sintetiza as ideias do livro numa forma mais simples, mais sucinta, mais fácil de compreender e memorizar. O professor não é um “arquivo de citações”, embora a memorização de citações não seja um exercício inútil: ele é, acima de tudo, um simplificador, que torna acessível ao iniciante conceitos que, de outro modo, permaneceriam fora de seu alcance.

Somente após atingir um nível de quarta camada no estudo de um texto é que podemos dizer, com toda a propriedade, que, de fato, o entendemos. Tudo o que há para “entender” em um texto, seja qual for o seu gênero ou finalidade, é a sua mensagem.

É, deste modo, a partir do entendimento adquirido na quarta camada que se abre o caminho para a emergência da quinta camada: o julgamento, ou a discussão com o texto. Nesta camada de leitura, o leitor não mais se limita a entender as ideias, porém compara-as continuamente com as próprias, com sua visão da realidade circundante, com as experiências de sua vida, com sua vida interior, com as opiniões de outros autores, com dados estatísticos e de pesquisa, e julga se o que o autor diz no texto está certo ou errado, se é belo ou feio, justo ou injusto, bom ou mau, no todo ou em parte, e em quais partes. O objetivo da quinta camada de leitura é, em suma, obter uma visão justa do texto completo.

Ora, transmitir uma visão justa da totalidade de um texto é a função precípua do professor universitário. A quinta camada desempenha a função de possibilitar o conhecimento, no sentido mais amplo e profundo da palavra. Somente aquele que é capaz de ler um texto avançado na sua área de especialização e produzir um julgamento justo sobre a mensagem nele exposta pode considerar-se digno de dizer-se um “estudante de nível superior”. Até então, devemos manter a humildade e nos dizer, apenas, “estudantes”.

Destaco, aqui, mais uma vez, o adjetivo chave: justo. Só podemos julgar com justiça aquilo que previamente entendemos. Só podemos entender ideias cujas relações foram intelectualmente absorvidas. Só podemos conhecer as relações intelectuais entre ideias expressas por palavras cujos significados realmente conhecemos.

Convido-o, agora, a retornar à pergunta de abertura deste artigo: Você sabe ler? Seus alunos sabem ler? Seus filhos sabem ler? Seus chefes, seus colegas de trabalho, seus subordinados, sabem ler? Após a leitura da descrição sucinta que oferecemos neste artigo sobre essas duas singelas palavrinhas – “saber ler” – talvez você tenha se movido da simplista e, talvez, ligeiramente indignada resposta “Sim, claro!” para um questionamento muito mais sério sobre a camada de leitura em que você e seus alunos se encontram atualmente, inclusive nos textos daquela área de conhecimento que você imagina dominar.

Somente com base num diagnóstico justo da sua atual camada de leitura, você poderá desenvolver um realista programa de autodesenvolvimento que poderá aplicar a si mesmo e a seus alunos, contribuindo de fato para o progresso da inteligência em nosso país.

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