No primeiro artigo desta série sobre os métodos de criação de um programa de curso, você aprendeu a formular um objetivo direto e conciso, orientado para como fazer. Não devemos subestimar a importância dessa primeira etapa: tudo que você fizer, daqui para frente, será consequência desse passo inicial. Como veremos neste artigo, a decisão do conteúdo ministrado aula a aula no seu programa torna-se muito mais simples quando você sabe exatamente aonde quer chegar, e de quanto tempo dispõe para chegar lá.

A decisão do conteúdo do seu programa de curso é limitada pelo tempo disponível. Não preveja mais conteúdo do que cabe no seu limite de tempo!
Decisão do conteúdo em função do tempo disponível
A primeira questão é o volume de informação que você será capaz de apresentar aos estudantes no tempo determinado para a duração do curso. Essa é uma função direta do (1) tempo total disponível para ministrá-lo e (2) da distribuição do tempo no seu cronograma.
Mesmo que você não tenha muita experiência de ensino, logo aprenderá que, para esse fim, não basta simplesmente multiplicar o número de minutos previsto para cada aula pelo número total de aulas. A dinâmica e o aproveitamento de 5 aulas de 40 minutos são muito diferentes dos de 4 aulas com 50 minutos de duração, embora o total de minutos seja o mesmo!
Em toda aula, seja presencial ou online, o professor sempre perde alguns dos minutos iniciais com a chegada dos estudantes, cumprimentos, listas de chamada e instruções iniciais. Também há um inevitável e variável período de aquecimento em que o professor começa a sintonizar sua mente numa linha de exposição e os alunos efetivamente concentram sua atenção no assunto da aula.
Ainda que esse período pré-exposição se estenda por apenas 5 minutos, o fato é que você terá sempre menos tempo real para apresentação de conceitos, detalhes e explicações do que o previsto no cronograma formal.
Flexibilidade de horários
Num curso livre que você ministrará online em sua própria casa, talvez você disponha de alguma flexibilidade para estender um pouco o horário da aula e cumprir integralmente o seu plano de exposição. Porém, há muitas situações em que isso é impossível:
- Presencialmente, numa instituição de ensino, você terá acesso a uma sala de aulas para seu curso em um horário fixo. Atingido o limite de horário, você terá que desocupá-la para a entrada do próximo professor.
- Se você for um bem-sucedido professor particular responsável por diversos cursos online para diferentes alunos ou grupos, você mesmo terá o maior interesse em não deixar seus próximos alunos esperando por você, inclusive para não estender demais o próprio horário de trabalho.
- Seus próprios alunos podem ter outros compromissos, profissionais ou de estudo, que os impeçam de permanecer em sala de aulas por mais do que um ou dois minutos além do tempo previsto.
- Caso seu curso se baseie em aulas gravadas, você também terá que limitar-se ao tempo de duração de cada vídeo, ainda que disponha de maior flexibilidade para cortes, regravações e edições.
Portanto, é indispensável planejar a divisão do conteúdo em aulas cuja profundidade e detalhamento será uma função de quantos minutos você realmente poderá dispor em cada uma delas.
Fatores culturais
Finalmente, observemos ainda que certos fatores culturais podem limitar ainda mais o tempo disponível para aulas, afetando diretamente a decisão do conteúdo. Por exemplo:
- Ocorrência de feriados em dias previstos para aulas;
- Número elevado de ausências de alunos em “feriadões”;
- Greves e paralisações de funcionários recorrentes e imprevisíveis;
- Eventos promovidos pela própria instituição que dão causa a paralisação de aulas, tais como competições esportivas interclasses, “olimpíadas” de conhecimentos, festas juninas, cerimônias religiosas, celebrações cívicas, aniversário da instituição ou do seu fundador, entre muitos outros.
Em meus quase quarenta anos de atividade docente, posso testemunhar que todos os cursos que ministrei durante esse período tiveram o cumprimento do programa diretamente afetado por um ou mais desses fatores.
Decisão do conteúdo em função dos objetivos
Um erro frequente cometido por muitos professores, inclusive alguns bastante experientes, é decidir o conteúdo em função do que ele, professor, quer dizer aos alunos, não do que os alunos precisam saber. Talvez o professor tenha estudado o assunto a vida inteira, lido centenas de livros e assistido a milhares de horas de palestras, cursos, oficinas, congressos, convenções e simpósios. Verdadeira biblioteca ambulante, esse professor sabe tudo o que há para saber sobre o tema do curso e pretende condensar em um semestre o conhecimento adquirido em décadas de esforços.
Basta ler a rápida descrição acima para perceber que é um projeto destinado ao fracasso. Entretanto, atire a primeira pedra quem nunca cometeu esse erro em sua atividade docente! Seja por insegurança, desejo de autoafirmação ou simples entusiasmo por um assunto, quase todos os que exercemos a função de educadores tendemos a superdimensionar o conteúdo programático para muito além do indispensável à consecução dos objetivos de nossos estudantes.
As escolhas sobre o conteúdo
Lembremo-nos: um curso é uma proposta de transformação do estudante. Ao final do curso, ele deverá saber algo que não sabe hoje. Para isso, você precisará escolher:
- Quais livros, capítulos e páginas ele deverá estudar durante o curso, e quais poderá deixar para mais tarde;
- Quais exercícios fará em aula, sob sua supervisão, e quais fará em casa, por conta própria;
- Quais conceitos explicará detalhadamente, por quais passará rapidamente, e quais deixará de lado;
- Quais atividades extras incorporará ao curso e quais, infelizmente, terá de deixar para outra oportunidade.
Reiteramos que todas essas decisões devem ser tomadas como respostas a uma única pergunta: “O que os meus alunos precisam saber para concretizar o objetivo estipulado no programa de curso?”
Não, você não incluirá qualquer item de conteúdo em seu programa apenas por ser muito interessante – ainda que realmente o seja! Toda decisão do conteúdo deve estar exclusivamente a serviço da realização do objetivo do programa de curso.
A hierarquia do conteúdo
Considerando que a intenção da decisão do conteúdo é promover uma transformação no estudante e que, como vimos, fatores diversos podem afetar o tempo disponível para as aulas, é importante classificar os itens de conteúdo numa hierarquia de importância:
- Indispensáveis: A omissão de apenas um destes itens bastará para que o curso não realize seu objetivo. Todos os esforços devem ser direcionados a abordar todos os itens desta lista, sem exceção.
- Importantes: Relacione aqui os itens que devem ser cobertos em sua maior parte, ainda que rapidamente de forma não totalmente completa. Você se esforçará para abordar todos eles durante o curso; porém, se for impossível, você deve cobrir de 50 a 80% destes itens.
- Relevantes: Estes são os itens que você pode acrescentar ou cortar conforme a disponibilidade de tempo e segundo a rapidez no avanço dos itens indispensáveis e importantes. Se a turma avançar bem, inclua alguns itens relevantes; se houver atrasos, corte-os ou apenas mencione-os rapidamente.
- Opcionais: Conforme o interesse ou as dificuldades da turma, você pode sentir a necessidade de incluir, durante o curso, aulas extras de exercícios, revisão ou aprofundamento em algum tema. Nesses casos, corte os itens da lista de “opcionais” antes de avançar para o corte dos “relevantes” ou “importantes”.
Conclusão
A decisão do conteúdo de seu programa de curso é uma função do tempo disponível para sua execução e do objetivo previamente estipulado. O tempo disponível resulta de inúmeros fatores, inclusive culturais, que podem reduzi-lo drasticamente. Já o conteúdo propriamente dito é um conjunto de decisões originadas diretamente dos objetivos de transformação dos estudantes, sendo conveniente classificá-lo previamente numa hierarquia de importância para que você saiba o que pode ser cortado ou incluído conforme as contingências específicas do período letivo.
No próximo artigo, você aprenderá a esclarecer os métodos de ensino do conteúdo previsto. Enquanto isso, exercite-se criando um plano de conteúdo para seu programa de curso, em que você decida:
1. O que pretende abordar e o que deixará de lado; e
2. Quais itens são indispensáveis, importantes, relevantes e opcionais.
