Durante um curso de redação, os estudantes, muitas vezes, não conseguem compreender porque o professor “corrigiu” uma frase que, por todos os critérios da gramática normativa, deveria ser considerada boa, correta, senão mesmo elogiável. O grande problema que escapa a todos os que igualam a boa escrita à correção gramatical é que as qualidades que configuram uma boa redação transcendem imensamente a obediência automática a regras que podem, a esta altura do desenvolvimento tecnológico, implementar-se com uma simples consulta a uma ferramenta de inteligência artificial.
Por outro lado, as pessoas que conhecem e apreciam a Literatura não ajudam o estudante a entender uma correção ou sugestão de melhoria em uma frase gramaticalmente correta quando desandam a falar usando analogias obscuras, metáforas nebulosas e noções teóricas ininteligíveis pelo aprendiz.

Os princípios de qualidade de uma redação devem estar sempre a seu lado no momento de escrever. Siga-os!
Por considerar desnecessária toda essa complicação, decidi consolidar um conjunto de critérios objetivos que o estudante seja capaz compreender e aplicar por conta própria à avaliação da qualidade dos próprios textos… E, também, aos de outras pessoas! Usando estes princípios, você não apenas aprenderá a escrever melhor, como também a ler melhor, pois aprenderá a apreciar em sua totalidade o talento dos grandes escritores, concedendo-lhes a justa distinção no confronto com o oceano de mediocridade que os circunda.
Os princípios apresentados neste artigo estão organizados hierarquicamente; isto é, o princípio 1 se sobrepõe ao princípio 2, e assim por diante. Note que esta não é uma hierarquia de importância social, teológica ou filosófica; não é uma hierarquia de valores subjetivos; mas uma hierarquia de prioridades na correção de um texto: se o princípio 1 não for satisfeito, ninguém perderá tempo louvando as virtudes ou corrigindo os erros na aplicação do princípio 2!
1 – Princípio do Conhecimento: só escreva o que sabe.
O Princípio do Conhecimento estabelece que só é possível escrever um texto decente sobre assunto que o escritor, por meio de estudo ou experiência, tenha adquirido o direito de dizer alguma coisa interessante, diferente do que já tenha sido dito até aquele momento.
Este princípio se opõe diretamente ao princípio da opinião ignorante, que parece prevalecer nas “provas de redação” de concursos e vestibulares. Nessas provas, basicamente, alguém tira da cartola um “tema” sobre o qual os candidatos nada sabem e, portanto, nada de interessante têm a dizer, e pede-se que escrevam um certo número de “linhas” para “desenvolvê-lo”. O resultado, previsível, é um desfile grotesco de opiniões ignorantes, segundo o que os candidatos “ouviram falar” na TV ou nas redes sociais.
O Princípio do Conhecimento, ao contrário, exige que o escritor, antes de escrever a primeira sílaba de seu texto, invista algum tempo em atividades de leitura e pesquisa. Sem pesquisa prévia, o escritor, ainda que movido pelas melhores intenções, cometerá graves erros conceituais, imaginará situações absurdas, extrairá conclusões errôneas a partir de premissas falsas. Enfim, despenderá um esforço imenso para produzir um texto sem nenhum valor, do qual se envergonhará.
Não por acaso, nenhum escritor inclui sua “redação” de vestibular na coletânea de suas “obras completas”!
O Princípio do Conhecimento, a propósito, é o primeiro critério de validação de todo professor, seja qual for a disciplina sob sua responsabilidade, ao corrigir uma prova discursiva. Não importa se o seu texto está gramaticalmente impecável, estilisticamente brilhante: se a informação contida no texto de sua resposta estiver errada, você receberá nota zero!
2 – Princípio da Intenção de Dizer: sua redação queria dizer outra coisa?
O Princípio da Intenção de Dizer se manifesta no reconhecimento de que todo bom texto é resultado da intenção de dizer alguma coisa sobre algum assunto.
Quando se é o detentor de uma opinião fundamentada, de uma ideia original, que seja fruto de prolongado estudo e de intensa reflexão, emerge uma urgência de contar para alguém o que se passa em nossa mente. É essa urgência que nos impulsiona ao editor de textos para escrever. É quase uma necessidade orgânica, que se reveste de angústia enquanto não é satisfeita pela redação do texto.
Porém, quando se é forçado a escrever alguma coisa em determinado número de linhas ou palavras, na ausência de uma motivação interior que crie em nós a necessidade de dizer o que há em nossas mentes, só é possível chover no molhado, produzindo uma morna sequência de lugares-comuns, incapazes de comover e convencer.
No contexto de uma redação, o Princípio da Intenção de Dizer, porém, costuma assumir outro significado, bastante grave: diga apenas o que quer dizer. Se você disse uma coisa, mas pretendia dizer outra, você tem um grave problema. Tão grave que, em alguns casos extremos, pode ter como consequência uma condenação judicial!
Certifique-se, sempre, de que a sua escolha de palavras seja tão precisa que ninguém possa acusá-lo de ter dito uma coisa, quando queria dizer outra. Aliás, este argumento defensivo equivale a uma confissão pública de incompetência na técnica de escrita. Não se desmoralize: aprenda a escrever apenas o que deseja dizer.
3 – Princípio do leitor: o juiz de sua redação.
O terceiro princípio é consequência direta do segundo. Como dizem os professores de análise sintática ao ensinar a diferença entre o objeto direto e o objeto indireto, quem diz alguma coisa, diz essa coisa a alguém. O leitor é esse “alguém”, o objeto indireto da análise sintática.
Quem determina a linguagem empregada pelo escritor ao manifestar sua intenção de dizer é, sem dúvida, o leitor. Ainda que a mensagem que você deseja transmitir seja idêntica, pelo menos a forma de seu texto será diferente conforme o leitor visado seja uma criança, um adolescente, um adulto não especialista, um professor universitário, um cientista, uma autoridade política, e assim por diante.
Na maior parte dos casos, porém, haverá diferenças dramáticas no próprio conteúdo da mensagem, pois, em cada caso, você se verá forçado a acrescentar ou cortar informações segundo o leitor que tiver em mente.
O ponto-chave do princípio do leitor é que um texto pode estar gramaticalmente “correto”, estilisticamente brilhante, impecável sob o aspecto do conhecimento e de sua intenção de dizer, mas absolutamente errado no que se refere ao leitor a que se destina. Por isso, você deve ter sempre em mente um “leitor ideal” quando sua tarefa não for a redação de uma mensagem pessoal, mas um artigo para publicação em qualquer meio de comunicação de maior alcance.
4 – Princípio da Finalidade: qual será o destino do seu texto?
O quarto princípio relaciona-se ao fato de que todo texto, toda atividade de redação, tem um objetivo, um destino, uma finalidade, que interfere diretamente sobre a adequação de sua forma e conteúdo. Vejamos alguns exemplos:
- Algumas vezes, escrevemos para ninguém além de nós mesmos. Fazemos anotações rápidas na agenda, para não esquecer um compromisso. Garatujamos um daqueles papelinhos adesivos amarelos e colamos em algum lugar visível de nossa mesa de trabalho. Ou mantemos um diário pessoal, para manter vivas na memória as nossas experiências. Se a finalidade do texto é um simples lembrete, você dispõe da mais absoluta liberdade de criação, tanto em termos de forma, como de conteúdo. Mas garanta que seu texto não “vazará” nas redes sociais caso opte por uma forma ou conteúdo que possa lhe causar problemas caso lido por outras pessoas.
- Se a finalidade do texto é uma comunicação pessoal direta, uma interação individual numa carta, e-mail ou mensagem de chat num software de mensagens instantâneas, tendemos a adotar uma linguagem mais informal; porém, o estilo e o conteúdo serão subordinados diretamente ao princípio do leitor.
- A finalidade do texto pode ser a apresentação de um trabalho de conclusão de uma disciplina universitária ou, até mesmo, para obtenção de um diploma/certificado. Nesse caso, o texto estará sujeito ao regulamento da instituição, que pode impor limites mínimos e máximos para o número de páginas, exigir a inclusão de seções, capítulos e subcapítulos, demandar a obediência a normas técnicas para citações, paráfrases e referências bibliográficas, etc.
- A mesma ideia é aplicável a todo texto produzido com finalidade profissional, seja você um profissional autônomo ou atuante uma organização ou empresa. Você pode se deparar exigências legais (seções e parágrafos obrigatórios; uso frequente de vocabulário técnico); culturais (pode haver um consenso profissional sobre a forma padronizada adequada ao tipo de texto voltado para essa finalidade específica) ou específica da organização em que atua (por exemplo, uso intensivo de gráficos em substituição ao texto, apresentação em forma de slides, etc).
- Se você pretende publicar o seu texto como um artigo colaborativo num jornal ou revista, também será submetido a todo tipo de exigência e formalidade. Por exemplo, a extensão e o estilo da linguagem de um artigo destinado a publicação num jornal popular serão muito diferentes daqueles orientados para uma revista profissional especializada e, também, de uma revista acadêmica especializada em artigos científicos.
Por esses exemplos, torna-se claro que um critério fundamental para o julgamento da qualidade de um texto é a adequação à sua finalidade. Se a finalidade exige um certo estilo, raramente adiantará escrever uma obra-prima da literatura mundial caso não siga suas exigências formais e estilísticas.
5 – Princípio da Inteligibilidade: que todos entendam sua redação!
O princípio da inteligibilidade está diretamente ao princípio do leitor: o seu texto deve ser inteligível pelo leitor visado. Caso o seu leitor seja jovem, inexperiente ou imaturo, você deve priorizar uma sintaxe mais simples, vocabulário comum sem uso excessivo de termos técnicos, parágrafos não muito longos, reduzido número de páginas e a inclusão de grande número de definições e explicações de conceitos elementares, com vasta aplicação de metáforas e analogias inteligíveis pelo leitor não especializado. Por outro lado, se o seu leitor é cientista ou professor universitário, pode usar à vontade o estilo diametralmente oposto, desde que decifrável por um leitor desse gabarito! Afinal, nenhum ego acadêmico que se preze admitirá que não entendeu o que você quis dizer num texto gramaticalmente inteligível, ainda que seja esse o caso!
6 – Princípio da Gramaticalidade: obedeça se tiver juízo!
Caso o seu texto satisfaça todos os princípios anteriores, a correção gramatical finalmente entrará em jogo. O princípio da gramaticalidade reza que “todo texto deve ser composto segundo as regras de correção gramatical vigentes na época em que foi escrito”.
As regras da gramática normativa não são opcionais. Apenas aprenda-as e obedeça-as sem reclamar. Ou melhor: reclame, mas obedeça-as assim mesmo!
7 – Princípio da Sonoridade: texto é Música!
O princípio da sonoridade parte do reconhecimento de que lemos com os olhos, mas entendemos com os ouvidos. De fato, só podemos dizer que sabemos ler, que realmente entendemos um texto, quando conseguimos ouvi-lo corretamente. Basta perceber que toda letra é a representação de um som; que toda sílaba é uma emissão de voz, e que toda palavra tem uma pronúncia, para conscientizar-se de que todo texto é uma espécie de composição musical que tem uma sonoridade própria; que ritmo e melodia são componentes essenciais, definidores da qualidade de um texto.
Assim, este princípio de redação pode ser formulado nos seguintes termos: “Entre duas formas de escrever que satisfaçam igualmente os princípios 1 a 6, o escritor escolherá a que soar melhor aos seus ouvidos”.
A sonoridade é um dos, senão o principal, segredo daquilo que se chama genericamente de estilo pessoal. Para desenvolvê-lo, você deve, principalmente, ouvir música erudita e ler – perdão, ouvir! – obras literárias de grandes mestres da literatura de todas as épocas. Com o passar dos anos de dedicação a essas práticas, seu texto progressivamente refletirá sua educação auditiva, proporcionando deleite musical aos seus leitores.
8 – Princípio da Economia: não seja pão-duro!
O Princípio da Economia tende a ser mal compreendido por muitos “professores de redação”, dada a confusão do sentido da palavra “economia” com o de “avareza”.
Há autores, inclusive alguns bastante famosos, caracterizados como “grandes mestres”, que, decididamente, podem ser caracterizados como “avaros” com as palavras: dizem muitas coisas importantes com reduzidíssimo número de palavras. Porém, lembremos que, na vida, a “avareza” é um pecado capital, exatamente o oposto de uma virtude!
Num texto, a avareza se torna um pecado mortal quando as relações entre as ideias imploram desenvolvimento numa forma sintática mais complexa e o autor se recusa a fazê-lo, porque “ninguém lê frases longas”; ou quando os substantivos gritam por adjuntos adnominais e complementos nominais para especificá-los, e o autor nega esse socorro ao seu leitor porque “é sempre bom dizer muito com pouco”; ou quando os verbos rastejam em busca de adjuntos adverbiais para esclarecer as circunstâncias de suas ações, e o autor cruelmente os omite, porque alguém lhe ensinou que “mais é sempre menos” em todas as situações.
Não, “economia”, num texto, não é “avareza”: é a eliminação de todas as palavras desnecessárias à expressão de sua intenção de dizer e ao entendimento pelo leitor! Ora, se texto é música, um texto avaro será pouco mais que um monótono batuque! Ora, se texto é oferta da fruição de uma experiência intelectual e estética ao seu leitor, a avareza textual é um canapé servido a uma pessoa faminta.
Sim, por favor, elimine do seu texto todos os adjetivos e advérbios desnecessários, bem como todos aqueles pronomes, preposições, conjunções e interjeições que não deveriam estar ali, porque nenhuma informação relevante acrescentam para o seu leitor. Mas, pelo amor de Deus, acrescente todos aqueles outros que, sim, precisam estar ali, sob pena de injustificável empobrecimento da informação prestada a seu leitor.
9 – Princípio da Verdade e Honestidade: a moral da história.
Algumas pessoas estranham porque incluímos este princípio no final da lista, em último lugar. “Mas não são estas as mais importantes qualidades de um texto? Não deveriam estar no topo da lista?”
Sim, realmente, este princípio é o mais importante do ponto de vista do mérito geral do texto. O problema é que não estamos tratando aqui, como dissemos no início deste artigo, de princípios filosóficos, teológicos, morais ou sociais, mas de princípios da qualidade de um texto.
Não se iluda: o mérito geral de sua redação não será sequer levado em consideração se você falhar na obediência a qualquer um dos princípios anteriores! Se você falhar no conhecimento, prestando informações erradas; na intenção de dizer, expressando ideias contrárias ao que você mesmo queria dizer; na adequação ao leitor e à finalidade; na inteligibilidade e na gramaticalidade; na sonoridade e na economia; seu texto simplesmente não será lido até o final, mas dispensado pelo seu leitor como um apanhado de bobagens!
Mesmo que seu leitor tenha paciência para acompanhá-lo até o fim, os problemas nos princípios anteriores irritam e criam má disposição na leitura, obscurecendo quaisquer virtudes e boas intenções presentes em seu texto.
Porém, sua presença no final da lista não significa que este princípio seja irrelevante. Ao contrário, ele é o critério decisivo para o julgamento da importância de seu texto: é por meio dele que saberemos se o texto entrará para a História como uma obra-prima, ou se perderá para sempre nas correntezas do Esquecimento.
Por isso, entenda o que estipula o princípio da Verdade e da Honestidade: “A mentira, o erro, a imoralidade e a falta de ética presentes num texto não permitem dizer que um texto é bom, ainda que satisfaça plenamente a todos os oito princípios anteriores”.
Enfim, este nono princípio parte do reconhecimento de que todo texto reflete, direta ou indiretamente, os valores morais do seu autor. Uma redação que agrida os valores do leitor certamente será por ele repudiada, condenada e abandonada, mesmo que possa ser apreciada pela habilidade meramente técnica com que foi escrita.
