Os três artigos anteriores desta série sobre como criar um programa de curso, abordaram (1) o objetivo do programa, (2) as decisões mais importantes a respeito do conteúdo programático e (3) a necessidade de uma definição explícita quanto aos seus métodos de ensino. Neste artigo, você entenderá que uma competente definição dos seus métodos de avaliação do aproveitamento dos alunos é uma maneira valiosa de evitar problemas para os estudantes, para si mesmo e, quando for o caso, para instituição de ensino.

A avaliação é sempre necessária: por exemplo, ao final de um curso de dança de salão, você precisa provar que sabe dançar num salão!
1 – Um curso sem avaliação é um “curso”?
É fato que uma significativa porção das pessoas que procuram por “cursos” em nosso país não estão exatamente em busca do conhecimento ou da habilidade por eles oferecida. Muitas vezes, o que se deseja é apenas um “diploma” ou um “certificado de participação” para acrescentar ao currículo.
Como bem sabem os economistas, toda demanda gera a própria oferta e, deste modo, proliferam os “cursos” que não passam de, na melhor das hipóteses, simples “ciclos de palestras”. Nesses ditos “cursos”, alguém fala sozinho durante algum tempo determinado enquanto uma plateia permanece em silêncio. Após algumas sessões desse tipo, todos recebem o tão desejado papel cartão lustroso com uma declaração de participação, uma assinatura e, eventualmente, um carimbo.
No entanto, em todo público há aqueles que estão realmente em busca do conhecimento ou da habilidade, que querem aprender de verdade. Para esses, a avaliação de um professor habilitado, qualificado, experiente, é muito mais do que uma mera “nota” num “boletim” ou “histórico escolar”: é uma medida do quanto conseguiram aprender e do quanto falta estudar ou praticar até o completo domínio do objeto do curso.
Assim, mesmo nos chamados “cursos livres”, é fundamental prever alguma modalidade de avaliação para os estudantes dignos desse título honorífico; isto é, para os que estão ali presentes em seu curso com o objetivo e a disposição de estudar e aprender! Em algum momento, o estudante deve ser desafiado a provar que, no mínimo, se esforçou para entender o assunto abordado no curso, ainda que não o tenha dominado por completo.
2 – Avaliação baseada em objetivos
As modalidades de avaliação são inúmeras, tão variadas quanto são vários os tipos de objetivos possíveis.
Se o objetivo do curso for “entender” alguma coisa, você precisará de alguma modalidade de avaliação capaz de aferir o quanto o aluno efetivamente “entendeu” o assunto do curso. Para esses casos, provas escritas, arguições orais, trabalhos escritos e redações costumam ser o bastante.
Este é o caso da maior parte das disciplinas escolares e acadêmicas.
Por outro lado, se o objetivo do curso for aprender a “fazer” alguma coisa, será inevitável pedir que o aluno “faça” o que foi previsto no objetivo. Por exemplo, se a proposta do curso era ensinar “dança de salão”, a “formatura” no curso exigirá que o aluno, bem, “dance num salão”. O mesmo princípio vale para todo curso que se destina a ensinar uma habilidade, seja ela desenhar, cozinhar, programar computadores na linguagem X, escrever uma redação, consertar automóveis, fazer crochê, lutar no estilo de uma arte marcial.
Finalmente, há os cursos cujos objetivos são mistos, isto é, exigem conhecimentos conceituais e teóricos como requisitos para fazer alguma coisa. Alguns exemplos podem incluir fotografia, técnica de laboratório, declaração de Imposto de Renda, redação de roteiros para cinema e TV, tradução de textos em línguas estrangeiras, métodos de ensino segundo uma corrente teórica qualquer. Nesses casos, a avaliação será também mista, incluindo tanto provas de conhecimentos quanto de habilidades práticas.
3 – Qualidades das boas avaliações
Uma boa avaliação é a que cumpre a função de informar ao estudante quais são os seus pontos fortes e em que ele precisa melhorar. Caso você tenha de conceder uma “nota” ou “conceito” para fins de registro em histórico escolar, é importante ressaltar, desde a primeira aula, que um resultado abaixo da nota máxima não é uma “crítica”, uma “censura” ao estudante, mas uma informação útil que ele pode usar como referência para melhorar o próprio desempenho.
Um aspecto essencial das boas avaliações é que elas sejam percebidas pelo estudante como justas. Em geral, os estudantes entendem a justiça das avaliações segundo estes critérios:
- A avaliação deve ser proporcional ao conteúdo ensinado. Basicamente, não cobre o que não ensinou, nem mesmo o que você abordou apenas muito rápida e superficialmente durante as aulas. Mas você não será injusto se exigir o conhecimento ou habilidades que você apresentou com a maior ênfase repetidas vezes!
- A avaliação deve ser proporcional à experiência do aluno. Muitos professores cometem o erro elementar de comparar o trabalho do aluno iniciante com um padrão de qualidade inatingível, com um grau de perfeição encontrado apenas em obras-primas de grandes mestres. A forma justa de avaliar é a que compara o desempenho do aluno individual com o padrão realista estabelecido no objetivo do curso. Se é um curso elementar, a avaliação deve ser também elementar; se é um curso para estudantes experientes e avançados, a avaliação deve refletir essa experiência e esse caráter avançado.
- A avaliação deve ser crítica quanto aos erros e defeitos, mas também deve considerar as virtudes e o potencial do estudante. Se o estudante demonstrar qualidades, elogie-as e incentive-o a continuar aprimorando-as apesar dos eventuais erros e defeitos que, sim, devem ser corrigidos.
- A avaliação deve ser baseada em critérios claros e objetivos. Especialmente quando necessário conceder uma “nota” ou “conceito”, você só terá a ganhar se dedicar algumas linhas do seu programa de curso para explicar o que o estudante precisa fazer caso sua meta seja conquistar a nota máxima. No dia da avaliação, conceda a “nota” ou “conceito” exclusivamente com base nos critérios que você mesmo estipulou no programa. Sempre que possível, a avaliação deve ser acompanhada de uma justificativa que explicite como você aplicou esses critérios para a concessão de “nota” ou “conceito” àquele trabalho específico.
4 – A avaliação no programa de curso
Tomando por base os objetivos do programa e as qualidades de uma boa avaliação, torna-se fácil redigir a seção “Avaliação” do seu programa de curso. Em frases curtas e objetivas, de preferência em modo de tópicos ou lista numerada, você explicará aos alunos detalhadamente, quando aplicáveis, questões como as seguintes:
- As modalidades de avaliação adotadas.
- A quantidade e o tipo de questões (discursiva, múltipla escolha) adotados em provas escritas.
- O tempo disponível para a execução da prova.
- Especificações do trabalho escrito.
- Regras para as exposições orais.
- Regras para execução de trabalhos práticos ou experimentos.
- Uso de recursos obrigatórios (por exemplo, apresentação de slides em exposições orais) e proibidos (por exemplo, calculadoras e celulares em provas escritas que envolvam cálculos).
- Método para cálculo da nota (por exemplo, valor de cada questão numa prova escrita) ou da média final (pesos de cada modalidade de avaliação, fórmula para cálculo da média, etc).
- Bônus e penalidades, isto é, casos em que o aluno poderá receber pontos extras ou perder pontos (por exemplo, por atraso na entrega de um trabalho escrito, por excesso de erros de gramática, etc).
A título de exemplo, verifique a seguir como redigimos a seção de “prova escrita” em um de nossos programas de curso:
3 – Prova escrita
3.1. A cada bimestre, haverá 1 (uma) prova escrita para comprovação de leitura e estudo, bem como aferição do aproveitamento.
3.2. O formato da prova será de múltipla escolha, com um mínimo de 10 (dez) e um máximo de 20 (vinte) questões.
3.3. Cada questão constará de 1 (um) enunciado acompanhado por 4 (quatro) opções de resposta, sendo apenas 1 (uma) dessas opções considerada correta.
3.4. A nota da prova será calculada pela divisão do número de opções corretas pelo número de questões, seguido pela multiplicação desse quociente por 10 (dez).
3.5. A prova poderá ser ministrada por meio eletrônico ou impresso, a critério do professor em conjunto com a administração da instituição de ensino.
Tendo incluído todos os detalhes relevantes sobre os seus critérios de avaliação, bastará seguir os parâmetros que você mesmo estabeleceu em seu programa de curso e os alunos entenderão como justa a nota recebida, ainda que inferior à que imaginavam merecer.
