Metamorfoses de Ovídio: A Fundação do Mundo

Ovídio foi um poeta latino que viveu entre 43 a.C. e 17 d.C. Foi contemporâneo de Virgílio, Tito Lívio e Horácio, tendo mantido amizade com este último. Dentre as suas principais obras poéticas estão “Heroides” — estilo epistolar elegíaco que apresenta como protagonistas as heroínas mitológicas; “Fastos” — que trata sobre as festividades do calendário romano e “Metamorfoses” — fábulas que retratam o aspecto passageiro da realidade. Foi condenado ao exílio em 8 d.C. pelo imperador Augusto.

Este é o primeiro de uma série de escólios de poemas selecionados de sua obra mais famosa, “Metamorfoses”, considerada sua “magnum opus”. A obra divide-se em quinze livros escritos em hexâmetros dactílicos, contendo cerca de duzentos e cinquenta narrativas e doze mil versos compostos em latim. Os temas de seus poemas tratam desde a cosmologia e a fundação do mundo, narrando a transformação dos homens e deuses mitológicos em animais, árvores, rios, pedras, desde o princípio dos tempos até a apoteose de Júlio César. Adotaremos, para análise literária, a tradução de Bocage.

Metamorfoses: A Fundação do Mundo

Bocage omitiu os primeiros versos do poema que consiste em seu proêmio (proposição e invocação). Optamos por incluí-lo na análise:

“In nova fert animus mutatas dicere formas
corpora; di, coeptis (nam vos mutastis et illas)
adspirate meis primaque ab origine mundi
ad mea perpetuum deducite tempora carmen!

O sentido dos versos acima consiste em: “Vem no meu ânimo dizer as formas mudadas em novos corpos. Ó, deuses, vós a minha obra começada inspirais desde a origem do mundo conduzi pelos tempos minha poesia perpétua!”. A obra trata, como diz seu próprio título, de “mudança de formas”, ou seja, é um compêndio de fábulas que tratam de um certo aspecto passageiro da realidade.

Este poema pode ser divido em (1) Caos, (2) Deus Factor e (3) Eras. O Caos era uma massa informe dentro da qual lutavam os quatro elementos. Um deus factor desconhecido separa os elementos e ordena o universo.

“Antes do mar, da terra, e céu que os cobre
Não tinha mais que um rosto a Natureza:
Este era o Caos, massa indigesta, rude,
E consistente só n’um peso inerte.
Das cousas não bem juntas as discordes,
Priscas sementes em montão jaziam;
O sol não dava claridade ao mundo.
Nem crescendo outra vez se reparavam
As pontas de marfim da nova lua.
Não pendias, ó terra, dentre os ares,
Na gravidade tua equilibrada,
Nem pelas grandes margens Anfitrite
Os espumosos braços dilatava.
Ar, e pélago, e terra estavam mistos:
As águas eram pois inavegáveis,
Os ares negros, movediça a terra.
Forma nenhuma em nenhum corpo havia,
E neles uma cousa a outra obstava,
Que em cada qual dos embriões enormes
Pugnavam frio e quente, úmido e seco,
Mole e duro, o que é leve e o que é pesado.”

O caos era uma massa indigesta, rude, informe, sem ordem. Nele estavam em constante luta os quatro elementos: fogo, ar, água e terra. “Indigesto” deriva do latim digero, que significa separar, distribuir, ordenar. “Inerte” vem de in + ars, e originalmente significa “desprovido de arte”. Os adjetivos que o poeta dá ao “Caos” indicam a necessidade de um artífice, que tome essa matéria bruta em suas mãos e lhe confira a ordem e arte que lhe faltam, ou seja, um deus factor.

A metáfora “Priscas sementes” no sentido de “antigas”, sugere que, no Caos, as coisas do mundo ainda não existiam individualmente, apenas em potência. Os versos “não pendias, ó terra, dentre os ares, na gravidade tua equilibrada”, afirma que ainda não havia gravidade no caos. “Anfitrite” é filha do Oceano e de Tétis, e também, a esposa de Poseidon. Neste sentido, é comparada ao mar por metonímia; “pélago” é fundo o mar. Os versos “Os ares negros, movediça a terra. Forma nenhuma em nenhum corpo havia” sugerem uma falta de “cosmos”.

Caos

O caos, segundo Ovídio, consistia na luta constante dos quatro elementos. Esse estado caótico será solucionado nos versos seguintes por um deus factor. Quanto às figuras, destacamos a prosopopeia “rosto a natureza” e a metáfora “pontas de marfim da nova lua”.

Virgílio, no canto VI, versos 722-732 da “Eneida” apresenta uma descrição similar:

“Desde o princípio de tudo almo espírito o céu aviventa,
a terra extensa, as campinas undosas, o globo da lua
resplandecente e as estrelas titânias. Nos membros infusa,
a mente agita a matéria e se mescla ao conjunto das coisas.
Daqui os homens e os brutos provêm, gerações dos voláteis,
e quantos monstros o mar alimenta no seio das águas.
Tudo retira do fogo celeste a semente da vida,
de perenal energia, se presa não se acha nos corpos,
nas ligaduras terrenas e membros fadados à morte.”

Mesmo não tendo indícios de amizade ou convivência entre Ovídio e Virgílio, ambos bebiam de um saber comum a sua época, ou seja, não ignoravam o que dizia a tradição dos poetas e filósofos sobre a cosmologia antiga. Alguns dos hinos órficos descrevem Júpiter como onipotente, onipresente e o arquiteto do universo, aparentemente tanto Platão, quanto Ovídio e Virgílio tiveram acesso a essas fontes. Também, não é improvável, que conhecessem alguns escritos de profetas do antigo testamento que já circulavam, principalmente, no Egito.

Comparemos agora com a descrição do Gênesis I, 1-2:

“No princípio Deus criou os céus e a terra.
Era a terra sem forma e vazia; trevas co­briam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas.”

A diferença consiste, na concepção do deus factor e do Deus criador, como descreve o Gênesis. Os antigos, consideravam a matéria como eterna, mas não consideravam Deus como o Criador do Universo, mas, sim, como o arquiteto, o organizador, o factor. Um deus, possivelmente inspirado nos hinos órficos, assim como Platão em sua descrição do “Demiurgo” ou do mito da criação descrito em “Timeu”.

Louis Markos, em sua obra de “Platão a Cristo”, defende que, “segundo os naturalistas pré-socráticos, tudo o que vemos a nossa volta, incluindo a nós mesmos, evoluiu a partir de uma guerra perpétua entre os quatro elementos; segundo o poeta Hesíodo, foram as lutas entre deuses guerreiros, mais do que entre elementos em guerra, que puseram em marcha a história cósmica da qual fazemos parte. Mas, segundo Platão, em “Timeu”, não teriam sido nem forças mecânicas, nem divindades ciumentas que moldaram o cenário de fundo contra o qual desenvolvemos nossas pequenas, mas vidas significativas. Foi Deus, não uma impessoal mente divina ou uma força panteística difundida pelo universo, mas uma divindade pessoal à qual Platão associa um Deus Artífice, ordenador.” Platão apresenta o Demiurgo, como um deus que moldou o mundo.

O deus factor, descrito por Ovídio nos versos 22 a 93, primeiro ordena os elementos, ou seja, o Clima, os seres inanimados, dando uma forma esférica ao mundo.

Um Deus, outra mais alta Natureza,
À contínua discórdia enfim põe termo:
A terra extrai dos céus, o mar da terra,
E ao ar fluido e raro abstrai o espesso.
Depois que a mão divina arranca tudo
Do enredado montão, e o desenvolve,
Em lugares diversos, que lhe assina,
Liga com mútua paz os corpos todos.
Súbito ao cume do convexo espaço
O fogo se remonta ardente, e leve;
A ele no lugar, na ligeireza
Próximo fica o ar; mais densa que ambos
A terra puxa os elementos vastos,
Da própria gravidade é comprimida.
O salitroso humor circunfluente
A possui, a rodeia, a lambe e aperta. (v.v22-37)

“Terra” refere-se a Gaia e, “Céu” a Urano. Nesse sentido, segundo a mitologia, Céu é pai da Terra e, o Mar, filho da Terra. Esse “deus de mais alta natureza” descrito por Ovídio, é um deus semelhante ao Demiurgo de Platão, um deus moldador e ordenador dos elementos. Os versos “O fogo se remonta ardente, e leve; / A ele no lugar, na ligeireza / Próximo fica o ar; mais densa que ambos / A terra puxa os elementos vastos, / Da própria gravidade é comprimida. / O salitroso humor circunfluente / A possui, a rodeia, a lambe e aperta.” é uma referência à astronomia vigente na época, principalmente a de Ptolomeu. “Salitroso humor circunfluente” refere-se ao oceano. Nos versos acima, o poeta usa de prosopopeia para dar características humanas a seres inanimados.

Encontramos também outra referência, na obra de João de Sacrobosco, em seu Tratado das Esferas:

“Qual é a forma do mundo. A máquina do mundo universal é dividida em duas, a saber: regiões etérea e elementar. A elementar, onde ocorrem alterações contínuas, é dividida em quatro. Realmente a terra está colocada no meio de tudo, como se fosse o centro do mundo; em volta dela a água; em volta da água, ar; em volta do ar, fogo, o qual é puro e não túrbido, e que atinge o orbe da Lua, como diz Aristóteles no livro sobre os Meteoros. Assim realmente o dispôs Deus, glorioso e sublime. E esses são chamados de quatro elementos porque mutuamente se alteram, corrompem e geram.”

Nos versos 38 a 52, Ovídio continua sua descrição:

Assim, depois que o Deus (qualquer que fosse)
O grão corpo dispôs, quis dividi-lo
E membros lhe ordenou. Para que a terra
Não fosse desigual em parte alguma,
Por todas a compôs na forma de orbe.
Ao mar então mandou que se esparzisse,
Que ao sopro inchasse dos forçosos ventos,
E orgulhoso abrangesse as louras praias;
À mole orbicular deu fontes, lagos,
Rios cingindo com oblíquas margens,
Os quais, em parte absortos pelas terras
Várias, que vão regando, ao mar em parte
Chegam, e recebidos lá no espaço
De águas mais livres, e extensão mais ampla,
Em vez das margens assalteiam praias. (v.v38-52)

“Grão corpo” refere-se à terra e ao oceano. O factor deu forma circular ao mundo e mandou que as águas se espalhassem. Segundo Sacrobosco, o círculo é a forma perfeita e, sendo o mundo uma criação Divina, e Deus sendo perfeito, o mundo não poderia ter outra forma. A forma esférica é considerada perfeita porque qualquer linha traçada desde o seu centro até um ponto de sua circunferência terá medida idêntica a quaisquer outras traçadas desde a mesma origem outro ponto da circunferência. “Mole” deriva do latim e tem o sentido de “magnitude”, “grande volume”.

O universal Factor também dissera:
“Descei, ó vales, estendei-vos, campos,
Surgi, montanhas, enramai-vos, selvas!”
Como o céu repartido à destra parte
Tem duas zonas, à sinistra duas,
E uma no centro mais fogosa que elas,
Assim do Deus o próvido cuidado
Pôs iguais divisões no térreo globo;
Ele é composto de outras tantas plagas;
Aquela que das mais está no meio
Em calores inóspitos se abrasa;
Alta neve enregela, e cobre duas;
Outras duas, porém, que entre elas ambas
O Nume situou, são moderadas,
Misto o frio, e calor. Fica iminente
A estas o ar, que assim como é mais leve
O peso d’água que da terra o peso,
Tanto mais peso coube ao ar que ao fogo.
Deus ordenou que as névoas, e que as nuvens
Errassem no inconstante, aéreo seio;
Que os ventos o habitassem, produtores
Dos penetrantes frios, que estremecem,
E os raios, os trovões, que o mundo aterram;
Mas o supremo autor não deu nos ares
Arbitrário poder aos duros ventos:
Bem que rebentem de encontrados climas,
Resistir-se-lhes pode à fúria apenas,
Vedar que em turbilhões lacere o mundo:
Tanta é entre os irmãos a desavença!
Euro foi sibilar ao céu da aurora,
Aos reinos Nabateus, à Pérsia, aos cumes
Que o raio da manhã primeiro alcança.
O Véspero, essas plagas, que se amornam
Com Febo ocidental, estão vizinhas
Ao Zéfiro amoroso; o fero Bóreas
Da Cítia fera, e dos Triões se apossa;
As regiões opostas umedece
Austro chuvoso com assíduas nuvens.
O Nume sobrepôs aos elementos
O líquido, e sem peso éter brilhante,
Que das terrenas fezes nada envolve. (v.v53-93)

“Universal factor”: Ovídio compreende este deus maior, desconhecido, como artífice, moldador do mundo, mas não criador. “Iguais divisões ao térreo globo”, o poeta aqui descreve como este deus teria ordenado os climas nas diferentes regiões do globo. “Inóspito que abrasa” é uma referência ao clima equatorial; “Alta neve enregela, e cobre duas” referem-se aos climas polares; “Outras duas, porém, que entre elas ambas / O Nume situou, são moderadas” refere-se ao clima dos trópicos.

Nos versos seguintes, Ovídio apresenta a origem e a natureza dos ventos: “Euro” é o vento do oriente, o vento leste; “Véspero” o vento do ocidente (Vesper, a estrela da manhã — planeta Vênus), “Febo” é o deus romano equivalente a Apolo, representa o próprio Sol; “Austro” ou Noto, vento sul; “Bóreas” vento norte; “Zéfiro” vento oeste.

“Reinos Nabateus” são reinos da Arábia, a “Cítia” geograficamente, começaria no Rio Danúbio. Os “Triões” são uma referência às constelações da Ursa Maior e Ursa Menor. “Setentriões”, etimologicamente designa sete bois, ou seja, as sete estrelas mais brilhantes observáveis do hemisfério norte. O poeta inclui essas referências geográficas para explicar a origem de cada vento.

Ovídio descreve a força dos ventos e sua capacidade de “lacerar o mundo”. Algo semelhante narra Virgílio em Eneida, livro I versos 50-63:

“Tais pensamentos volvendo no peito inflamado, a deidade
baixa até a pátria dos ventos furiosos, a Eólia chamada,
dos Austro feros. Aqui, numa furna espaçosa o rei Éolo
as tempestades sonoras domina, os impávidos ventos,
com duros ferros e cárcere, a todos impondo o seu jugo.
Bramam os ventos em torno à prisão, e a montanha retumba
com a turbulência dos presos. Sentando na rocha altaneira
Éolo se acha com o cetro, seus brios aplaca e tempera.
Se o não fizesse, consigo levaram as terras e os mares,
e o próprio céu, pelo espaço varrendo-os sem rumo nem nada.
O Onipotente, porém cauteloso os comprime em profundas
escuridões de caverna, com montes enormes por cima;
como também um monarca lhes deu, obediente ao seu mando,
para encurtar ou soltar mais as rédeas, conforme o ordenasse.” 

Primeiro, Ovídio relata o surgimento dos seres inanimados; depois, o dos seres animados, mas, ainda, sem a racionalidade:

Logo que tudo com limites certos
Foi pela eterna destra sinalado,
As estrelas, que opressas, que abafadas
Houve em si longamente a massa escura,
A arder por todo o céu principiaram;
E porque não ficasse do universo
Alguma região desabitada,
Astros e deuses tem o etéreo assento,
O mar aos peixes nítidos é dado,
Aves ao ar, quadrúpedes à terra.

Finalmente, o poeta descreve a formação do homem:

A estes animais faltava um ente
Dotado de mais alta inteligência,
Ente, que a todos legislar pudesse:
Eis o homem nasce, e – ou tu, suprema Origem
De melhor Natureza, e quanto há nela,
Ou tu, pasmoso artífice, o formaste
Pura extração de divinal semente,
Ou a terra ainda nova, inda de fresco
Separada dos céus, lhe tinha o germe.
Com águas fluviais embrandecida,
Dela o filho de Jápeto afeiçoa,
Organiza porções, e as assemelha
Aos entes imortais, que regem tudo.
As outras criaturas debruçadas
Olhando a terra estão; porém ao homem
O Factor conferiu sublime rosto,
Erguido, para o céu lhe deu que olhasse.
A terra, pois, tão rude, e informe dantes,
Presenteou finalmente assim mudada,
As humanas, incógnitas figuras. (94-123)

Na cosmogonia de Ovídio, o poeta sugere três possibilidades da formação do homem: (1) O homem como uma centelha divina, semelhante à tese dos estoicos, que levaria a um certo panteísmo; (2) O homem formado da substância etérea, após a separação dos elementos, e (3) Oriundos de Prometeu (filho de Jápeto), que teria moldado do barro os homens. Finalmente, Ovídio destaca os privilégios do homem racional: um rosto sublime para que, erguido para o céu, contemplasse a obra Divina.

Na última parte do poema, Ovídio explica a divisão das eras de ouro, prata, bronze e ferro.

Foi a primeira idade a idade de ouro:
Sem nenhum vingador, sem lei nenhuma
Culto à fé, e à justiça então se dava,
Ignoravam-se então castigo, e medo;
Ameaços terríveis se não liam
No bronze abertos; súplice caterva
À face do juiz não palpitava:
Todos viviam sem juiz, sem dano.
Inda nos pátrios montes decepado
Às ondas não baixava o pinho ingente
Para depois ir ver um mundo estranho:
De mais clima que o seu ninguém sabia.
Fossos ainda não cingiam muros,
As tubas, os clarins não ressoavam,
Nem armas, nem exércitos havia:
Sem eles os mortais de paz segura
Em ócios inocentes se gozavam.
O ferro sulcador não a rompia,
E dava tudo a voluntária terra.
Contente do que brota sem cultura
Colhia a gente o montanhês morango,
Crespos medronhos, e as cerejas bravas,
Às duras silvas as amoras presas,
E as lisas produções de tênue casca,
Que da árvore de Júpiter caíam.
Eram todas as quadras primavera.
Mansos Favônios com sutil bafejo,
Com tépidos suspiros animavam
As flores, que sem germe então nasciam.
Viam-se enlourecer, vingar as messes
Nos campos nem roçados de adubio,
Em rios ir correndo o leite, o néctar;
E da verde azinheira estar caindo
O flavo mel em pegajosas gotas. 124-157

Na fase de ouro, não havia a necessidade de leis, não havia culto, todos viviam em paz. Não havia, ainda, as navegações (pinho ingente, sinédoque para navios), nem a pirataria; ou seja, estava ausente a necessidade de edificar muros em torno das cidades e criar fossos para dificultar invasões. Os homens se alimentavam dos frutos da terra e da natureza, pois ainda não conheciam a arte da agricultura. Era uma espécie de era paradisíaca.

Depois que foi Saturno exterminado
Ao Tártaro, e ficou a Jove o mundo,
Veio outra idade, se inferior à de ouro,
Superior à de cobre, a idade argêntea.
Jove contrai a primavera antiga,
Verões, invernos, desiguais outonos,
Curta e branda estação, que anime as flores,
O ano repartem, variando os tempos.
O ar então começou a escandecer-se,
E ao som dos ventos a enrijar-se a neve;
Os humanos então principiaram
A demandar guaridas, a ter lares:
Grutas, choupanas os seus lares foram.
Pela primeira vez o grão de Ceres
Se esparziu, se escondeu nos longos sulcos,
E oprimidos do jugo os bois gemeram. 158-173

Inicia-se a era de prata, após a expulsão de Saturno do Olimpo, por Júpiter. Saturno, segundo narrado por Virgílio no Canto VII da Eneida, teria caído no Lácio. Foi Saturno um dos primeiros reis míticos desta região. Ele teria ensinado aos ítalos, a arte da agricultura, assim como o reconhecimento das estações do ano para identificar a melhor época para o plantio e a colheita. Teria sido neste mesmo período que os homens sentiram a necessidade de se estabelecer num lugar, criando lares, domesticando animais.

Às duas sucedeste, ênea prole,
De gênio mais feroz, mais pronto à guerra,
Mas não ímpio. – Eis a última, a de ferro.
Todo o horror, todo o mal rebentam dela.
Súbito fogem fé, pudor, verdade,
Ocupam-lhe o lugar mentira, astúcia,
A insultuosa força, a vil perfídia,
Da posse e do poder o amor infando.
Velas o navegante aos ventos solta,
Aos ventos ainda bem não conhecidos;
Longamente nas serras arraigado,
O lenho já comete ignotas vagas,
A terra, que até’li de todos fora,
Como os ares, e o sol, por cauto dono
Já se abaliza com limite extenso.
Não se lhe pedem só devidos frutos,
Úteis searas, vai-se-lhe às entranhas,
Cavam-lhe o que sumiu na estígia sombra,
Cavam riquezas, incentivo a males.
Já se desencantara o ferro infenso,
E o ouro inda pior: eis surge a Guerra,
Que, de ambos ajudada, espalha horrores,
Vibrando as armas na sangüínea destra.
Fervem os roubos: o hóspede seguro
Do hóspede não está, do genro o sogro;
A concórdia entre irmãos também é rara.
Tentam morte recíproca os esposos,
As madrastas cruéis dispõem venenos,
Conta os dias paternos filho avaro,
Jaz vencida a piedade, e sai do mundo,
Do mundo ensangüentado a pura Astréia,
Depois que os outros deuses o abandonam.  174-205

Após a era de prata, seguiu-se a de bronze, em que, segundo o poeta, os homens tornaram-se mais prontos para a guerra, embora ainda fossem piedosos para com os deuses. Da idade do bronze, passaram à idade do ferro, na qual a humanidade era ainda mais feroz e impiedosa. Na era do ferro, os homens eram mais corruptos, havia pirataria e cobiça por riquezas; as cidades precisavam ser limitadas e guarnecidas; havia roubos; cometiam-se crimes contra a hospitalidade; a piedade havia abandonado o mundo assim como os próprios deuses. Ou, seja, era a decadência da própria humanidade.

“Velas ao navegante” e “Lenho” são sinédoques para “navio”. Tito Lívio e Tucídides apresentam referências similares, afirmando que, com as navegações, inicia-se a pirataria, tendo a necessidade de se fortificar as cidades com muros. Nos versos acima, Ovídio inclui algumas passagens literárias famosas: (1) hóspede seguro – crime contra a hospitalidade: o rapto de Helena por Páris (Guerra de Troia), os vários crimes contra a hospitalidade descritos na Odisseia; a morte de Polidoro pelo rei da Trácia; (2) “genro e sogro”, referindo-se a Júlio César e Pompeu; (3) “concórdia entre irmãos também é rara”, Rômulo e Remo; (4) “madrastas cruéis”, Hipólito; (5) “filho avaro”, referindo-se a Brutus, considerado como filho por Júlio César.

Nos versos 204 e 205, o poeta conclui que a “pura Astreia”, personificação da justiça, sai do mundo depois que os deuses o abandonam.

Para não ser mais livre o céu que a terra,
É fama que gigantes o assaltaram,
A etérea monarquia ambicionando,
Pondo até as estrelas monte em monte.
O padre onipotente, o sumo Jove
Nisto com raios esbroando o Olimpo,
Partindo o Pélio sotoposto ao Ossa,
Sobre o tropel sacrílego os derruba.
Esmagados c’o peso os feros corpos,
Diz-se que a terra, a mãe, no muito sangue
Dos filhos ensopada, o fez vivente;
Homens dele criou, porque a memória
Da progênie feroz permanecesse.
A nova geração também foi dura,
Dos numes foi também desprezadora,
Amiga da violência, e da matança,
Denotando que o sangue o ser lhe dera.

Ovídio insere aqui o mito da gigantomaquia, isto é, a guerra que gigantes teriam movido ao Olimpo, e perdido. Do seu sangue teria nascido uma raça ainda pior de homens, soberba e feroz como os gigantes, e ainda mais violenta, por vir do sangue. Ou seja, a humanidade atual teria nascido dos sangues dos gigantes, e moralmente, seria ainda pior que a idade de ferro. De certa forma, o poeta também faz uma crítica as guerras civis que levaram a queda da República.

Fontes:
1 – https://www.bibliaon.com/genesis_1/
2 – MARKOS, Louis. De Platão a Cristo. São Paulo: Ed. Loyola, 2024, p. 125-126. (https://amzn.to/4rYyzHB)
3 – OVÍDIO. Metamorfoses. Porto Alegre: Ed. Concreta, 2020, p.40-61. (https://amzn.to/40Uxqou)
4 – VIRGÍLIO. Eneida. São Paulo: Ed. 34, 2014. (https://amzn.to/4ukUc6t)

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