Plano de ensino com base em habilidades: como fugir à armadilha do “conteudismo”

Dorothy L. Sayers nos lembra em seu ensaio intitulado “As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem” que a “educação moderna concentra-se em ‘ensinar matérias’ deixando o método de pensar, argumentar, expressar conclusões para ser adquirido pelo estudioso no decorrer do tempo, enquanto que a educação medieval se concentrava primeiramente em forjar e aprender a usar as ferramentas do aprender, utilizando a matéria que fosse útil como material para realizar os desenhos necessários até que o uso da ferramenta fosse quase instintivo”.

Neste sentido, como educadores clássicos, devemos priorizar as habilidades cognitivas que desenvolvam a inteligência de nossos alunos. O conteúdo é secundário em relação às habilidades, pois é fato que o conhecimento avança; a ciência se autocorrige; criam-se, a cada momento, novos conteúdos, que podem tornar-se obsoletos em muito pouco tempo.

Ao elaborarmos um plano de estudos anual, precisamos definir o conjunto de habilidades que deverão ser desenvolvidas e devidamente treinadas a cada disciplina, assim como quais áreas de conhecimento serão estudadas a cada ano. O conteúdo a ser selecionado em cada área do conhecimento, assim como o método de ensino, devem ser planejados a partir do conjunto de habilidades que queremos desenvolver em nossos alunos.

Como educadores precisamos compreender: que ser humano desejamos formar ao longo dos anos letivos? O que esse estudante deveria ser capaz de fazer no final das fases Gramatical, Lógica e Retórica?

Dentre um conjunto de habilidades maiores, destacamos a capacidade de memorização, a fluência de leitura e a expressão oral e escrita de nossos pensamentos.

Erasmo de Roterdã, em seu livro a “Educação Liberal”, afirma que “a primeira fase da educação se assenta sobretudo na memória”. Na Fase Gramatical, uma das principais habilidades a serem desenvolvidas é a capacidade de memorização do que foi ensinado. Esse é um dos motivos, também, pelos quais a educadora inglesa batizou esta fase de “Estágio do Papagaio”.

A memorização é algo que devemos priorizar desde a pré-alfabetização: a cada leitura em voz alta feita pelo mestre, os alunos deverão ser capazes de narrar em voz alta, com suas próprias palavras, o que compreenderam da leitura. A narração oral é o primeiro exercício de fortalecimento da memória.

Posteriormente, outros exercícios, tais como a narração escrita, a recitação de poemas e memorização de definições e conceitos também servirão ao propósito de fortalecer a memória. Pois é fato que sem memorização não há aprendizado. Para uma memorização eficaz, no sentido de construir uma arca de conhecimento, é essencial que a informação a ser memorizada deva ser, primeiramente, entendida, experimentada, vivenciada. Em seguida, gravam-se na memória os seus fragmentos mais importantes.

A segunda habilidade a ser priorizada ainda na Fase Gramatical é a aquisição da fluência de leitura, no sentido de estudar e entender corretamente um texto escrito em Língua Portuguesa. Para tanto, é necessário um estudo minucioso do vocabulário, das referências presentes num texto, assim como o estudo das regras essenciais da gramática: ortografia, morfologia, sintaxe e figuras de linguagem. Segue-se, então, à terceira grande habilidade: a capacidade expressiva de falar e escrever com graça, clareza e estilo.

O grego, “Dionísio Trácio” (170 a 90 a.C.), definia o estudo da Arte da Gramática como “conhecimento empírico do comumente dito nas obras dos poetas e prosadores. No qual a primeira é a leitura treinada, que respeite a prosódia; a segunda é a exegese dos tropos poéticos existentes; a terceira é a pronta restituição do sentido das palavras estranhas e das histórias; a quarta é a descoberta da etimologia; a quinta é o cálculo da analogia; a sexta é a crítica dos poemas, que é a mais bela das partes da arte.” A Gramática Clássica seguiu, em essência, a definição de Dionísio Trácio, com pontuais modificações.

É com este entendimento que desenvolvemos o Programa de Composição Clássica. O programa é dividido em níveis de habilidades da linguagem: no Ano I a ênfase é no estudo do vocabulário, nas regras de morfologia, no reconhecimento das figuras de linguagem e das primeiras técnicas de estilo. Ao concluir o Ano I o estudante terá adquirido fluência de leitura, capacidade de estudar diferentes tipos de textos bem escritos em Língua Portuguesa. O objetivo do Ano II é de prosseguir o desenvolvimento do estudante em direção ao domínio da técnica da boa escrita em Língua Portuguesa através do exemplo de grandes escritores brasileiros e portugueses. As técnicas de estilo ensinadas são mais complexas e elaboradas que as do Ano I. A ênfase, porém, é na conquista de cada vez maior independência por parte do estudante, capacitando-o a efetuar por conta própria a maior parte das tarefas. Já o Programa de Composição Clássica Ano III desenvolve habilidades para a redação de poemas e textos acadêmicos.

Com ênfase nos valores da cultura Cristã e respeito pela valiosíssima herança cultural clássica greco-romana, este programa tem por objetivo ajudar crianças e adolescentes a adquirir competência em todas as principais formas textuais da Língua Portuguesa, constituindo uma valiosa contribuição à formação de competentes escritores! Mais do que um simples “curso de redação”, o Programa de Composição Clássica é também um programa de Cultura Clássica.

Ao desenvolver a capacidade de memorizar, ler e expressar-se tanto oralmente quanto por escrito, o estudante terá maior facilidade em assimilar as diferentes habilidades específicas de cada disciplina.

Já, ao contrário, a abordagem “conteudista” dos planos de estudos, consistente na simples adição de “conteúdos programáticos” dissociados do desenvolvimento de habilidades no estudante – talvez somente porque “caem no vestibular” – é responsável direta pelo mau desempenho crescente de nossos estudantes em todas as áreas.

Preocupemo-nos, primeiro, com o desenvolvimento da inteligência dos estudantes, com sua capacidade de aprender. Depois, seja qual for o “conteúdo” escolhido – inclusive aqueles que “caem no vestibular” – o estudante será capaz de aprendê-lo com mínimo esforço. É o certo, o lógico, o que sempre foi feito – não há o que inventar.

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