
Dante entre os poetas no Limbo.
Dante e o momento histórico em que vivia
Dante foi um poeta e filósofo italiano nascido em Florença entre maio e junho de 1265 e foi batizado no Batistério de San Giovanni. Durante a infância, o poeta se dedicou ao estudo das Artes Liberais, no qual se desenvolveu excepcionalmente. Durante sua formação, Dante se alimentou excepcionalmente das obras de Virgílio, Horácio, Lucano, Estácio, e todos os outros grandes poetas populares. Ele se empenhou em imitá-los, pois cria que as obras poéticas não eram meras fábulas ou maravilhas, mas continham verdades filosóficas e históricas inestimáveis, de modo que não seria possível verdadeiramente compreender a poesia sem a Filosofia, a Moral e a História.
Após a morte da mãe, Dante conheceu Beatriz, filha de Folco Portinari, por quem se apaixonou, e que o inspiraria, mais tarde, a escrever poemas de amor cortês, os primeiros publicados na Vita Nuova. O amor de Dante por Beatriz, assim como, posteriormente, a sua morte prematura, fez de Beatriz, segundo Daniel Rops, “o símbolo de tudo aquilo que a alma de um homem traz em si de mais puro e mais elevado, confundindo-se até com a Sabedoria incriada que , por vezes, se dá a conhecer aos sentidos das criaturas mortais na revelação mística, na iluminação do gênio ou na lacerante doçura de uma manhã de primavera”(1). O poeta foi aluno de Bruneto Latini, grande retórico da época, que mais tarde o incentivou a entrar na vida política.
Pouco antes de seu nascimento, os partidos dos guelfos e gibelinos disputavam o poder em Florença. Paralelamente a este conflito político, ocorria há mais de século uma disputa sobre o limite do poder Papal perante o império. Os guelfos eram, de certa forma, partidários do Papado e os gibelinos, do Sacro Império Romano-Germânico. O poder dos guelfos se manteve em Florença durante um quarto do século, mas sempre ameaçados por represálias dos gibelinos exilados. No final do século XIII os guelfos dividiram-se em duas facções: os brancos e os negros. Estes últimos, caíram nas graças do Papa Bonifácio VIII.
Dante amava Florença e queria pacificar os conflitos entre as duas facções. Empenhou a sua arte retórica para esse intento. O poeta, que era partidário dos guelfos brancos, foi posteriormente condenado injustamente ao exílio mais tarde.
No ano de 1300 ocorreu o Jubileu e muitos peregrinos florentinos, entre eles Dante, foram prestigiar o evento em Roma. Dante ficou impressionado com o que viu: Roma era o centro espiritual e histórico deste mundo. Em 1301, os guelfos brancos enviaram-no com outros três emissários a Roma em uma missão diplomática. Enquanto isso, em Florença, os guelfos negros assumiam o poder através de um golpe de Estado, banindo os partidários dos brancos, entre os quais encontrava-se Dante. O poeta, que nunca pôde regressar a sua amada Florença, foi destituído de seus bens, de sua terra, e exilado de sua própria pátria. Foi justamente, no exílio, que o poeta iniciou a “Divina Comédia”.
A “Divina Comédia” é dividida em 100 cantos: o “Inferno”, em 34; o “Purgatório”, em 33; e o “Paraíso”, em 33. O número “33”, simboliza a idade de Jesus Cristo; é, portanto, um número perfeito. Como o inferno é absolutamente imperfeito, não seria apropriado conceder esse número aos cantos a ele correspondentes na obra.
O Limbo e os poetas
No Canto IV do Inferno é descrito o Limbo e as almas que ali se encontram. Virgílio esclarece a Dante que neste local permanecem as almas dos virtuosos que não sofrem pena mas não podem ser beatificados por falta do Batismo. No Limbo eles encontram vários poetas e sábios da antiguidade, dentre eles, cita os poetas por ordem de importância: Homero, o seu próprio guia, Virgílio, Horácio, Ovídio e Lucano. O poeta florentino, sugere que ele mesmo seria, entre eles, merecedor do sexto lugar.
Analisaremos agora, como Homero, Virgílio e Ovídio inspiraram o florentino na descrição de sua catábase.
O Inferno descrito na Divina Comédia se assemelha e difere do relato do inferno de Virgílio e Homero em vários aspectos. A geografia do inferno de Homero consistia em uma grande sala onde permaneciam todas almas falecidas, fossem heróis ou almas condenadas. Na Odisseia e na Eneida há a presença do barqueiro Caronte que atravessam o rio Aqueronte, segundo Homero e Virgílio, as almas dos que foram sepultados. O poeta mantuano, relata no Canto VI da Eneida, que os insepultos, permaneceriam cerca de cem anos a espera da travessia. Dante, também incluí em seu relato, Caronte, mas neste caso, ele atravessaria todas as almas condenadas ao inferno, inclusive as insepultas. Outros juízes infernais são também citados tanto por Homero, Virgílio, quanto por Dante: como Minós e Rodamente, por exemplo. O inferno dantesco apresenta uma descrição geográfica mais detalhada, onde cada pecador é condenado a um círculo correspondente a sua pena. Neste sentido, o inferno é composto por nove círculos e o vestíbulo.
O Hades descrito por Virgílio é composto de quatro lugares principais: Campos Elísios, Tártaro, Campos Lugentes e Campos Asfódelos. O primeiro, destinados aos que viveram uma vida justa, o segundo aos injustos, o terceiro, onde permaneciam as almas que morreram tristemente, assim como os suicidas, por exemplo, e o quarto, onde ficariam as almas que não foram consideradas nem boas, nem más, apenas “irrelevantes”. Neste sentido, os Campos Asfódelos se assemelham as almas que permanecem no Vestíbulo do Inferno de Dante, ou seja, aqueles que permaneceram moralmente “mornos”, não merecendo nem o Paraíso nem o Inferno.
O inferno dantesco pode ser dividido em quatro grandes regiões: (1) Limbo ou primeiro círculo; (2) os círculos da incontinência, (3) os círculos da violência e da bestialidade, (4) e os círculos da fraude.
A pena para certos condenados também difere do inferno de Dante para o de Virgílio: Dido, na Eneida, é condenada por suicídio, enquanto Dante a coloca no círculo dos luxuriosos (um dos círculos da incontinência), pois foi a luxúria que moveu Dido a se suicidar.
A função da catábase do herói viandante é comum entre as obras literárias supracitadas: Ocorre uma transformação moral em Ulisses, Eneias e Dante em sua peregrinação ao inferno, ou seja, uma forma de renascer um novo herói com as virtudes necessárias para bem cumprir a sua vocação, o chamado divino. No caso de Dante, sua missão é dupla: não apenas ele mesmo necessitava crescer em virtudes, se afastar da “selva oscura” para bem cumprir sua vocação, quanto, sua própria vocação era conduzir o seu leitor a esse mesmo caminho de autoconhecimento, do desapego aos vícios, rumo à perfeição. Ou seja, conduzir o seu leitor a fazer a catábase (descida ao inferno) e sua anábase (ascensão ao Purgatório e Paraíso).
Influências de Homero
Homero, nascido no século VIII a.C., foi um poeta grego que é creditado como o autor do Ilíada e o Odisseia, dois poemas épicos que são obras fundamentais da literatura Grega Antiga. Homero é considerado um dos autores mais reverenciados e influentes do ocidente.
O inferno é descrito na Odisseia como um lugar onde as almas dos mortos acham-se cobertas por nuvens e brumas espessas; entre os mortos, há moços, moças, velhos em males há muito experientes e virgens tenras que apenas pouco antes descobriram a existência do mal. Veem-se também muitos guerreiros mortos em campos de batalha, que ostentam manchas de sangue em suas armas.
São mencionadas, no livro IV da Odisseia, versos 561-569, as “campinas do Elísio”, onde a existência decorre feliz para todos os homens. Lá, o inverno não é longo, não cai neve, e não chove o ano todo, mas o sopro contínuo de Zéfiro refresca os homens a mando do Oceano.
No livro XI, nos versos 576-600, são descritas também as penas das almas condenadas ao Tártaro; são mencionadas as figuras de Tício, condenado a ter seu fígado devorado por abutres; Tântalo, condenado a passar sede e fome; e Sísifo, condenado a arrastar uma pedra gigante.
Homero, não descreve com muitos detalhes a geografia do Hades, mas sugere uma divisão, principalmente destacando que almas nobres e merecedoras iriam para um campo iluminado e de aparência agradável, enquanto as demais permaneceriam em lugar lúgubre.
É importante notar que na época de Dante não haviam traduções para o italiano das obras de Homero. Assim, o Ulisses como retratado no inferno dantesco, é baseado nas descrições de Virgílio, e não Homero.
Comparemos agora o Ulisses do Canto XXVI do inferno com o herói descrito na Odisseia. Dante e Virgílio estão na oitava vala do oitavo círculo, onde residem os maus conselheiros, que ardem em chamas que os envolvem completamente e estão em contínuo movimento. Dante avista, de cima da ponte, uma chama dupla que, Virgílio explica, contém as almas de Ulisses e Diomedes.
E ele: “Lá sofrem essa pena dira
Diomedes e Ulisses: juntamente
à pena vão como à arrostada ira:
dentro daquela chama se ressente
o logro do cavalo, que foi porta
pra a dos romanos garbosa semente;
e lamenta-se o ardil pelo qual, morta,
Deidâmia ainda por Aquiles chora;
e por Paládio a pena se comporta”.(INFERNO, XXVI, vv. 55-61)(2)

Dante e Virgílio conversando com Ulisses e Diomedes. Iluminura de manuscrito Medieval.
Diômedes e Ulisses foram os que idealizaram a construção do cavalo de Troia. “o logro do cavalo, que foi porta / pra a dos romanos garbosa semente” é uma referência a Eneias, sobrevivente da Guerra de Troia, fundador da cidade espiritual da futura Roma, tal como descrito por Virgílio na Eneida. Dante roga para se comunicar com eles, e Virgílio pede a Ulisses que revele aonde foi para morrer.
“E ele: “Creio que ao rogo teu convenha
justa acolhida, e eu o acato também;
faz porém que tua língua se retenha;
deixa a fala pra mim, que entendi bem
o que queres; porque do teu falar,
sendo gregos, talvez tenham desdém”.” (INFERNO, XXVI, vv. 70-75)
Virgílio diz que ele mesmo comunicaria a Ulisses o pedido de Dante, pois sendo sua língua toscana, portanto considerada “vulgar”, provavelmente causaria algum desdém aos guerreiros gregos.
“… “Quando
decidi que de Circe me afastasse,
que um ano me enleou lá por Gaeta,
antes que Eneias assim a nomeasse,
nem de filho ternura, nem afeta
pena do velho pai, nem justo amor
que alegraria Penélope dileta,
em mim puderam vencer o fervor
que me impelia a conhecer o mundo,
e dos homens os vícios e o valor;
e me atirei no mar aberto e fundo,
com um só lenho e a pequena campanha
que inda era o meu haver fido e jucundo.” (INFERNO, XXVI, vv. 90-102)(3)
A trajetória de Ulisses por “Gaeta” é uma evidência de que Dante assimilou este personagem apenas por meio de Virgílio, pois esta referência geográfica é apenas narrada pelo mantuano, e não por Homero. Outra evidência é a caracterização de Ulisses como impiedoso por amar mais a aventura do que a sua família.
De costa a costa fui até à Espanha,
até o Marrocos e a ilha dos sardos,
e outras que aquele mar à volta banha.
Éramos eles e eu, velhos e tardos
ao chegarmos do augusto estreito à frente,
onde Hércules ergueu os seus resguardos
para que o homem mais além não tente.
Já os manes de Sevilha transcendidos,
como os de Ceuta, à esquerda mão jazente:
‘Ó irmãos’, disse eu, ‘que por cem mil, vencidos,
perigos alcançastes o Ocidente;
e esta vigília dos nossos sentidos,
tão breve, que nos é remanescente,
não queirais recusar esta experiência
seguindo o Sol, de um mundo vão de gente.
Considerais a vossa procedência:
não fostes feitos para viver quais brutos,
mas pra buscar virtude e sapiência. (INFERNO, XXVI, vv. 103-120)(4)
O augusto estreito a que Dante se refere é o Estreito de Gibraltar, onde Hércules teria carregado os céus para Atlas. As últimas estrofes parecem ser uma reflexão pessoal do próprio Dante na boca de Ulisses, comparando o espírito europeu com as aventuras de Ulisses.
Meus companheiros fiz tão resolutos
pra viagem, com tão curta oração,
que não seriam mais dela devolutos.
Voltada a popa pra a manhã, já são
asas os nossos remos, na ousadia
do voo, apontando pra sinistra mão.
Do outro polo as estrelas todas via
agora à noite, enquanto, rebaixado,
do chão do mar o nosso não surgia.
Cinco vezes reaceso e cancelado
fora o lume que a lua de baixo banha,
depois do fundo passo ultrapassado,
quando surgiu-nos diante uma montanha,
pela distância, escura, e alta tanto
que nunca eu conhecera outra tamanha.
Nossa alegria logo volveu-se em pranto,
que um remoinho dela levantou,
e feriu o lenho fronteiro canto.
Três vezes, co’a água toda, ele rodou;
na quarta, erguida a popa, foi arrojado,
proa abaixo, como a alguém agradou;
até que o mar foi sobre nós fechado.”(INFERNO, XXVI, vv. 121-142)(5)
Ulisses narra à Dante a sua última viagem; como pela vontade de conhecer o mundo e os homens ele, já velho, reúne uns poucos antigos companheiros e, num só barco, atravessa as colunas de Hércules e chega após longa jornada o centro do hemisfério austral, onde avista uma ilha na forma de uma única altíssima montanha. Na Divina Comédia, Dante associa “estrelas” a uma ideia de “esperança”. Neste caso, Ulisses ao navegar rumo ao hemisfério austral, observando os céus, sente um “misto de esperança”. Logo em seguida, avista de longe uma “alta montanha” (o Purgatório). Essa esperança logo lhe é negada: como pagão e, pecador, para ele não haveria mais salvação. Ulisses narra que, no momento de alcançá-la, surge dela um tenebroso tufão que, “como a alguém agradou”, arrebata o barco, e o mar se fecha sobre eles.
Já, o Ulisses descrito por Homero era um homem engenhoso, excelente estrategista militar, que, após a guerra de Troia, ansiava pelo retorno ao lar. Enquanto, o Ulisses descrito por Dante, é insensível quanto ao dever com sua família, o desejo pelas glórias das aventuras marítimas reina em sua alma, o levando ainda na velhice a convencer seus companheiros a novas aventuras em mares desconhecidos.
Neste sentido, é evidente que a inspiração de Dante foi muito mais o Ulisses descrito por Virgílio, do que o herói da Odisseia. Dante, como muitos intelectuais de sua época, não lia em grego, e as raras traduções das obras de Homero para o Latim, eram de alguns poucos capítulos.
Influências de Ovídio
Ovídio foi um poeta romano, contemporâneo a Virgílio e Horácio, que viveu no período do reinado de César Augusto. Compôs diversas obras, e o seu Magnum Opus é a obra “Metamorfoses”, que narram os mitos greco-romanos, desde a “Fundação do mundo” até a “Apoteose de Júlio César”. As principais características desta obra são precisamente as metamorfoses, isto é, as mudanças de forma em seus personagens que ocorrem ao longo dos poemas. As metamorfoses descritas por Ovídio representam uma transformação visível de algo que o indivíduo já possuía em sua alma. Um exemplo, é o poema “Castigo de Licáon”, em que inicia Júpiter convocando a assembleia dos deuses para proferir sua sentença final sobre o destino da humanidade corrompida. Conta-lhes dos crimes que ouvira falar, e de como descera a Terra para experienciar com os próprios olhos a maldade e corrupção dos homens. Denuncia um pecado horrendo e ousadíssimo, cometido contra ele próprio, por Licáon, rei da Arcádia. Decidido a testar a divindade de Júpiter, serviu-lhe carne humana no jantar.
“Co’a destra vingadora o raio agito,
Sobre o cruel senhor derrubo os tetos,
Os tetos, e os Penates, dignos dele.
Para o silêncio agreste, agrestes sombras
Foge rapidamente, espavorido,
E querendo falar, uiva o perverso:
Colhem do coração braveza os dentes,
C’o matador costume os volve aos gados:
Inda sangue lhe apraz, com sangue folga.
A veste em pêlo, as mãos em pés se mudam.
É lobo, e do que foi sinais conserva:
As mesmas cãs, a mesma catadura,
E os mesmos olhos a luzir de raiva.” (METAMORFOSES, O castigo de Licáon, vv. 101-113)(6)
Neste caso, a punição de Licáon é se metamorfosear em lobo, pois devido a sua crueldade e impiedade, já vivia como se lobo o fosse. A inspiração de Dante em Ovídio é patente no canto XXIV e XXV quando descreve três metamorfoses de almas dos ladrões fraudulentos condenados a sétima vala do oitavo círculo do inferno. Os ladrões que, em vida se dedicaram a roubar os bens dos outros, após morte, como contraponto, tinham-lhes a própria forma roubada.
“Eis que a um que de nós estava perto,
de um golpe, uma serpente trespassou
o colo, onde está no busto inserto.
Nem o nem i tão preste alguém traçou
como ele se incendiou, e cinza ardente,
no chão precipitando, se tornou;
depois de destruído totalmente,
sua cinza por si só se coligiu,
e retornou a si próprio de repente.
Assim de grandes sábios já se ouviu
dizer que a Fênix morre e após renasce
quando o ano quingentésimo atingiu:
erva ou grão em sua vida ela não pasce,
só lágrimas de incenso e cardamono,
e nardo e mirra enfaixam seu traspasse.” (INFERNO, XXIV, vv. 97-111)(7)
Nesta primeira metamorfose, descrita no canto XXIV, as almas dos ladrões condenados a sétima vala, eram metamorfoseadas em cinza, e depois de cinza retornavam a sua forma primeira. Algo semelhante ao mito de “Fênix”. Esta condenação, de certa forma, também pode ser interpretada como uma corrupção ou inversão do mistério da “Ressurreição”, segundo Teodolinda Baroline (8). A Fênix, na mitologia, geralmente símbolo de “renovação” e “ressurreição”, na descrição de Dante é símbolo de punição eterna.
No canto XXV, o poeta narra ainda duas outras metamorfoses de ladrões condenados a sétima vala que também podemos associar a corrupção de outros dois mistérios relacionados a Cristo: o da “Encarnação” e o da “Transubstanciação”.
“Enquanto eu neles tinha a vista presa,
uma serpente de seis pés se aventa
num deles, e seu corpo todo apresa:
as duas patas do meio e lhe assenta
no ventre, co’as da frente os braços prende
e, em seguida, uma e outra face adenta:
co’as traseiras as coxas lhe apreende
e delas de permeio a cauda passa
que, por trás, pelos rins então estende.
Nunca tão firmemente a hera abraça
uma árvore, como essa horrível fera
co’os membros todos do outro se entrelaça.
E os dois se colam como fosse cera
quente, que as formas perca e as cores borre:
nem um nem o outro já exibia o que era,
como com o papel queimando ocorre
já não ter colorido certo algum:
que preto ainda não é, e o branco morre.
Os outros dois o olhavam, deles, um
gritava: “Agnel, como mudou tua cara!
Olha, que já não é nem dois nem um!”.
Das duas cabeças já uma só restara;
surgiam agora os dois semblantes mistos
num rosto só, que os outros anulara.” (INFERNO, XXV, 49-72)(9)
Ocorre uma metamorfose com uma certa união entre duas formas horrendas: “semblantes mistos num rosto só”. No inferno não há unidade, lá reina a confusão. Esta metamorfose, simboliza a corrupção do mistério da Encarnação. Cristo é perfeito “Deus” e perfeito “Homem”, há Nele perfeita unidade. A característica da metamorfose descrita por Dante é a imperfeição, um caos, uma falta de unidade.
“Qual lagartixa sob a chibatada
canicular, que da sebe se aventa,
como um corisco atravessando a estrada,
assim chegava, para o ventre intenta
de um dos dois outros, uma serpe ardida,
lívida e preta qual grão de pimenta;
co’a parte onde primeiro é recebida
nossa alimentação o trespassou,
tombando após frente a ele estendida.
O trespassado nada então falou,
antes, em pé, parado bocejava,
como quem sono ou febre dominou.
Ela pra serpe, e esta pra ele olhava,
e um pela chaga, outro pelo focinho
lançavam fumo que se entremeava.
Cale Lucano agora do mesquinho
Sabello e de Nassídio a história abstrusa,
e atenda a ouvir o que eu agora alinho.
Cale Ovídio de Cadmo e de Aretusa
que, se esta em fonte e se aquele em serpente
fez converter, eu não lhe invejo a musa.
Porque duas naturezas frente a frente
não transmudou, assim que uma e outra forma
fosse a trocar matéria consenciente.
Aqueles adequaram-se a essa norma:
a serpente em forquilha a cauda fende,
enquanto assim o outro se transforma:
num corpo só ele as duas pernas prende
tão bem unidas que de sua juntura
sinal algum a vista depreende.
Fendida, a cauda toma a figura
que no outro se perdia; também sua pele
tornava-se macia e, do outro, dura.
Nas axilas vi entrar os braços dele
e, na fera, as duas patas correlatas
tanto cresciam quanto encolhiam naquele.
Logo as patas de trás, jungo contratas,
formam o membro que o homem encobre,
e o do coitado cinde-se em duas patas.
Agora, o fumo um e outro ser encobre
de nova cor e, num, o pelo apara,
enquanto no outro de cabelo cobre,
e um tomba, mal o outro levantara,
sem desviarem suas lanternas más,
sob as quais cada qual mudava a cara.
O que se erguera a repuxou pra trás,
e a matéria que disso então sobrava
fez orelhas nas faces que as não traz;
a parte, que na frente ainda restava
de matéria que disso então sobrava
fez orelhas nas faces que as não traz;
a parte, que na frente ainda restava
da matéria, o nariz formando vai
e novos lábios encorpa e alinhava.
O que jazia sua cara então protrai
e recolhe as orelhas na cabeça,
como os corninhos que a lesma retrai;
e a língua, que era inteiriça e professa
à fala, ora se fende, e a forquilhada
do outro se rejunta, e o fumo cessa.” (INFERNO, XXV, 79-135)(10)
Na terceira metamorfose descrita por Dante, os seres se transformam, não apenas no aspecto visível, mas também em sua essência. Simbolicamente, segundo Teodolinda Baroloni (11), esta metamorfose seria uma corrupção do mistério da Transubstanciação, onde o pão e o vinho se convertem no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Outra interpretação, possível, seria a corrupção do mistério do Matrimônio. Pois, no matrimônio, a união do casal perante Deus, tornam-se uma só carne.
Influências de Virgílio
Virgílio, contemporâneo a Ovídio, Horácio e Lucano, foi um poeta que viveu no primeiro século antes de Cristo, autor de Bucólicas, Geórgicas e Eneida.
“Sou aquele que outrora canções modulei ao compasso
a doce avena e, saindo das selvas, os campos vizinhos
a obedecer obriguei à avidez do colosso remisso,
nas gratas fainas da terra: ora os feitos horrendos de marte.” (ENEIDA, I, vv. 1-4)
Virgílio guiando Dante até o Purgatório simboliza a razão que nos induz até a fé, mas sozinha, não pode nos levar até o céu. Nós precisamos da graça de Deus para chegar até o Paraíso. Dante escolhe Virgílio, porque, dentre os poetas antigos, ele é o que mais se aproximou da moral e doutrina cristã sem ter tido acesso a Revelação.
“‘És tu aquele Virgílio, aquela fonte
que expande do dizer tão vasto flume?’,
respondi eu com vergonhosa fronte,
‘Ó de todo o poeta honor e lume,
valha-me o longo estudo e o grande amor
que me fez procurar o teu volume.
Tu és meu mestre, tu és meu autor,
foi só de ti que eu procurei colher
o belo estilo que me deu louvor’.” (INFERNO, I, 82-87)(12)
Segundo Teodoro Haecker, os monges beneditinos tinham como pai espiritual São Bento e como pai secular Virgílio. Ele foi o poeta que louvou o valor do trabalho no campo, ensinou a agricultura e o herói piedoso. Desta forma, não é por acaso que Dante elege justamente Virgílio, como seu guia. Virgílio é símbolo da razão iluminada, daquele que cantou o pio herói, daquele que prenunciou em sua quarta Écloga, a vinda de um salvador. Foi Virgílio, dentre os poetas da antiguidade, aquele que preparou os corações romanos, para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Teodoro Haecker diz que o homem virgiliano é a “anima naturaliter christiana” (13), a alma naturalmente cristã, porque ele, como nenhum outro na antiguidade pagã, serviu como prefiguração da vinda de Cristo. Somente com esperanças messiânicas e com esta expectativa escatológica, o homem virgiliano permanecia inteiro, perfeito e aberto ao futuro; uma preparação clara e transparente; não um fim, mas um caminho.
Epílogo
As influências de Virgílio e Ovídio são comprovadas em inúmeros versos na descrição do inferno de Dante. Principalmente, na caracterização de alguns personagens literários e mitológicos que simbolizam o pecado descrito nos diferentes círculos do inferno. A descrição da aparência de Caronte “com olhos em brasa”, ou do fato de que o seu guia teve que “alimentar” Cérbero, o cão infernal, para conseguir passagem “segura” a Dante em sua catábase. O mesmo faz a Sibila, guia de Eneias, que alimenta Cérbero, na descida ao Hades.
Não apenas da Literatura Clássica, nutriu-se o poeta florentino para compor essa grandiosa obra. Seu profundo conhecimento das Artes Liberais, seus estudos aprofundados nas artes do Quadrivium também são evidentes em suas descrições “astronômicas” para identificar, cronologicamente, o tempo de seu percurso na descida ao inferno e subida ao Purgatório e Paraíso.
A Divina Comédia, assim como outras grandes obras da Literatura Clássica é uma obra perene, que apresenta valores universais e, evidencia que seu autor assimilou as grandes obras que a precederam, assim como se tornou fonte de inspiração para a literatura que a sucedeu. A Literatura Clássica, assim como o relato histórico, apresenta uma função educadora: auxiliam o homem a conhecer a si mesmo. Fornecendo exemplos claros dos problemas humanos, do contraste entre os vícios e as virtudes, das ações e suas consequências. Ou seja, um meio para melhor compreender a realidade em que vivemos e de como lidar com os desafios que a vida nos oferece. Acompanhar a catábase de Dante, nos permite olhar atentamente o mais íntimo de nosso ser, descobrir quais aspectos em nossa vida precisamos lapidar, e como encontrar forças para viver a reta via até Cristo.
Como intelectuais, devemos assim como Dante, nutrir-nos dos clássicos, reconhecendo o tesouro que nos foi legado, permitindo que a labareda desta beleza alumie nossa alma e desloque o nosso olhar para o alto. Como Virgílio, devemos ser um guia para que outros possam realizar essa mesma jornada pela selva oscura; como Dante, devemos buscar o auxílio da Graça Divina, para tornar-nos um farol a alumiar a reta via.
Fontes:
(1) ROPS, Daniel. História da Igreja III. Editora p. 669.
(2), (3), (4), (5) VIRGÍLIO. Eneida. São Paulo: Editora 34.
(6) OVÍDIO. Metamorfoses. Porto Alegre: Editora Concreta.
(7) VIRGÍLIO. Eneida. São Paulo: Editora 34.
(8) BAROLINE, Teodolinda. Inferno 24: Commento Baroliniano. Disponível em: https://digitaldante.columbia.edu/dante/divine-comedy/inferno/inferno-24/
(9) (10) VIRGÍLIO. Eneida. São Paulo: Editora 34.
(11) BAROLINE, Teodolinda. Inferno 25: Commento Baroliniano. Disponível em: https://digitaldante.columbia.edu/dante/divine-comedy/inferno/inferno-25/
(12) VIRGÍLIO. Eneida. São Paulo: Editora 34.
(13) HAECKER, Teodoro. Virgílio padre do ocidente. Edições y Publicaciones Españolas, S. A.
(14) ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia: Inferno. São Paulo: Editora 34
