Paisagem boreal

Aurora boreal

Aurora boreal. Fonte: Por United States Air Force photo by Senior Airman Joshua Strang – Esta imagem foi publicada pela divisão Air Force, do exército dos Estados Unidos com o identificador 050118-F-3488S-003 (seguinte).Esta marcação não indica o estado dos direitos de autor da obra aqui mostrada. Continua a ser necessária uma marcação normal de direitos de autor. (Full Image), Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1234235

 

De emoção, é uma variedade diversa
essa que se dispersa no fino ar
da paisagem desértica, à luz polar
da aurora boreal. No tapete persa

assentado, nu e lúcido, o universo
agasalha-o contra as brisas que, do mar,
enregelam, enrijecem, ao silvar
o grito mudo de um peito que conversa

com deuses e homens. Atos, pensamentos,
recorda, ressente; tormenta rebenta
gélida aragem de uma vida marcada:

chegada a idade após os anos cinquenta
a tudo assiste e resiste, mas alentos
encontra apenas nas geleiras do Nada.

Efígie

Quem diria que em tão linda mente habita
O fardo cego dum amor tortuoso,
No sono leve, numa cama sem repouso,
O corpo pálido protruso levita.

Sua e treme, sonâmbula, pobre e aflita
Criatura de Deus, só no calabouço,
Presa da voz distante, eco tenebroso,
De feros rostos numas tardes malditas.

A agulha do barômetro cai, honesta
Indicadora de trovões que se abeiram
Do silêncio das águas claras, emprestam

Drama e cor, ares de tragédia, cimeira
Colisão de sonhos, fantasias crestas,
De tudo, nada resta: só uma caveira.

Imensidade

Solitário no deserto imenso,
Amiúde, na diminitude
de minha urbe, faço-me mudo
Relicário indesperto; penso
Na grandeza de infinitas neves,
Nos ferozes majestosos ventos:
Atrozes, horrorosos eventos
Na baixeza destas vidas breves.

Foto de Jade Lyf - Publicada sob permissão - Todos os direitos reservados.

Foto de Jade Lyf – Publicada sob permissão – Todos os direitos reservados.

Na imensidade somos minúsculas
Partículas de uma vontade
Inconcebível, até que tarde
Demais, no minuto do crepúsculo,
Fatalidades imprevisíveis
Como fátuos vestidos de gaze
Beijam o fado e à tona trazem
Debilidades dos infelizes.

(inspirado na foto)

Só resta

E Dado
que tudo
sucede
à moda
dos maus;

E Fatos
absurdos
impelem
a roda
do caos;

E Raios
agudos,
procelas
à volta
do cais;

Lacaios
sanhudos
querelam
revoltam
sem paz;

Os Ratos
miúdos
laceram
as rosas
sem mais;

E Gatos
testudos
operam
sabotam
finais;

Só resta
o amor
de Deus.

Andrômeda

Andrômeda à rocha acorrentada
Esgazeia e grita, sente o bafo
De Poseidon; o monstro a farrapos
Reduz-lhe a vontade enquanto nada.

Estrondeantes os pés do monstro
Já os sentes cavalgando as pedras:
Ó, Andrômeda, por que te perdes
Nos pensamentos que mais te assombram?

Rembrandt: Andrômeda acorrentada às rochas.

Rembrandt: Andrômeda acorrentada às rochas. Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/89/Rembrandt_Harmensz._van_Rijn_011.jpg

 

Andrômeda, não há mais Perseu,
Que empunhe da Górgona a fronte,
Que de tua sina seque a fonte;

Não há correntes, nem a Caronte,
Pagarás o óbolo, se a ponte
Para o Céu implorares a Deus.

Odisseu perdido

Calipso - Pintura por Arnold Böcklin

Calipso – Pintura por Arnold Böcklin. Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Arnold_B%C3%B6cklin_008.jpg

 

Afastando meus olhares de Mérope
Em direção ao futuro, sagaz,
Navego o árduo desejo de paz:
Odisseu perdido, só, sem Penélope.

Ensurdecido ao silvo das sereias
Atado ao tronco túrgido e tenaz
Envido a vida tênue e, assaz
Sofrido, rujo um estralo nas cadeias.

Fujo aos dentes aguçados dos Cíclopes,
Fujo à fúria insana dos Lestrigões,
Fujo de Calipso as mortais paixões,
Fujo e resisto aos encantos de Circe.

A tudo escapo porque em minha mente
E corpo não cabem mil corações:
Da vontade eu faço mil torreões
Donde o futuro se vê do presente.

As mãos e o povo

A mão Esquerda furta e trapaceia
Quer ser de ferro, lúbrica e fatal;
Mão do desterro, célebre no mal,
De desespero, trai-nos em sua teia.

A mão Direita, cobra sorrateira,
Da Liberdade quer ser a fiscal;
Da santidade a única e final
Embaixadora, última e primeira.

No centro, a voz agônica do povo
Eleva aos céus sua fé no amor de Deus;
Clama e pranteia, em chamas, por um novo

Porvir brilhante e próspero pros seus,
De leite e mel, liberto, sem estorvo:
Mas o Centrão só quer não mais ser réu!

O Gato, o Rato e o Peixe

O Gato sonha com o gordo Rato,
O Rato sonha espancar o Gato.
O Gato sonha com o fresco Peixe,
O Peixe sonha que no mar lhe deixe.

O Gato sonha com filé no prato,
Roubar-lhe sonha o desgostoso Rato.
O Gato sonha do Peixe o aroma,
O Peixe sonha que ele não lhe coma.

Gato, Rato, Peixe, à espera
Do fim na grande cratera:
Sonhos de infindas delícias!

Predadores, presas, todos toleram
À sua moda a violenta e austera
Natureza, a vida e suas sevícias.

Corações

Corações translacionantes as trigueiras faces
Emudecem.
Os rostos estranhos estando tão baços
Enrubescem.
Os róseos roçares das redes neuronais
Entrelaçam.
Sutis e táteis contatos furtivos, intencionais,
Espicaçam.
Sinais e sintomas sintáticos e sinápticos
Estremecem.
Braços enlaces sobejos contatos
Enternecem.

A Vida – Guilherme Munhoz Haveroth

Campo aberto, noite estrelada
Põe-se a pensar o velho
Homem.

No grande mundo,
Entre rosas e narcisos,
Veio tu, ó belo lírio, a
Essa dança desgostosa.

Já não sabes ao certo,
Por ter a via deixado,
O que irás ganhar,
A palma da vitória
Ou o fogo da derrota.

Ó lírio, que fazes?
Sonhas ainda com um
Mundo de glória?
Acorda bela flor, estás secando,
Logo te levará o sopro
Do vento.

Acorda agora!
Para de sonhar!
É o tempo oportuno,
É tempo de lutar.

Autor: Guilherme Munhoz Haveroth, 13 anos.

Poemas