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Um sonho de rei

De um sonho de rei em seu trono assentado
A bobo da corte deixado de lado:
As plantas dos pés dilaceram espinhos
De sangue umedecem o pó do caminho.

Frustrado desejo em ferro algemado
Incita inclemente famélicos brados:
Sufocam-se mudos num redemoinho
De brasas que crestam sudários de linho.

Das lágrimas, do suor da meia-noite,
Feridas lancinam as dores do açoite
Inclemente, descartado à própria sorte.

Amanhece a esperança cruel, tão forte,
Mas não permito que o coração se afoite
Pois traz nos ombros de ceifeira a foice.

Advento

Georges de la Tour, The Newborn Christ, 1640s, Museum of Fine Art, Rennes, France. Detail.

Georges de la Tour, The Newborn Christ, 1640s, Museum of Fine Art, Rennes, France. Detail. Fonte: https://www.dailyartmagazine.com/an-art-advent-calendar-of-nativities/

A Esperança no raio de luz da estrela
De um Verbo novo; na manjedoura o lírio
Da Verdade aquieta-se à luz de mil círios:
Nunca uma família cintilou tão bela!

Na mão da mãe que os cabelinhos anela
No bebê Deus que nos salva do delírio
Do pecado no caminho do martírio
O amor enflora-se em majestosa umbela.

Os anjos entoam divina cantata,
Os pastores exultam com tanta Graça,
Os reis lhe trazem incenso, mirra e ouro:

Aquele que, traído por reles prata,
Rogará perdão para o que os maus lhe façam,
Fundando um reino de amor imorredouro.

Serpente pérfida

No bafio tímido da fraca chuva
Eriçam-se as folhagens do outono fero;
Faces sombrias, mudas enquanto espero
Feridas donzelas que meus passos julgam.

Dos golpes e estocadas as dores uivo
Sob os beijos quentes das pontas de ferro:
Malgrado a marcha aflita que a sorte enterra
Minhas pegadas: perdidas nódoas ruivas.

O desejo vívido que a carne açula,
Perverso estandarte que o mundo tremula,
Serpente pérfida que a meus pés sibila:

Num segundo crava sua presa aguda
Na carne que implora e grita por ajuda
Contra o mal e contra todos que o prefiram.

Rapina

Se o ventre seco da pátria carcomida
Gesta os ratos e vermes que irão roê-la
Gemer meus cantos à decadente estrela
Não devolverá seu corpo morto à vida.

As estruturas podres não lhe dão saída:
Colapso iminente aguarda a todos nela
Que seu cadáver deploram na capela
E em vão imploram por pratos de comida.

 

Teus coveiros imponentes salivando,
Revoam sorrisos da rapina em bando,
Sem temer os ventos ou as tempestades;

Se haverá bom termo, não sabemos quando;
Envergonhamo-nos do semblante brando
Com que ostentam infinita impiedade.

Paisagem boreal

Aurora boreal

Aurora boreal. Fonte: Por United States Air Force photo by Senior Airman Joshua Strang – Esta imagem foi publicada pela divisão Air Force, do exército dos Estados Unidos com o identificador 050118-F-3488S-003 (seguinte).Esta marcação não indica o estado dos direitos de autor da obra aqui mostrada. Continua a ser necessária uma marcação normal de direitos de autor. (Full Image), Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1234235

 

De emoção, é uma variedade diversa
essa que se dispersa no fino ar
da paisagem desértica, à luz polar
da aurora boreal. No tapete persa

assentado, nu e lúcido, o universo
agasalha-o contra as brisas que, do mar,
enregelam, enrijecem, ao silvar
o grito mudo de um peito que conversa

com deuses e homens. Atos, pensamentos,
recorda, ressente; tormenta rebenta
gélida aragem de uma vida marcada:

chegada a idade após os anos cinquenta
a tudo assiste e resiste, mas alentos
encontra apenas nas geleiras do Nada.

Efígie

Quem diria que em tão linda mente habita
O fardo cego dum amor tortuoso,
No sono leve, numa cama sem repouso,
O corpo pálido protruso levita.

Sua e treme, sonâmbula, pobre e aflita
Criatura de Deus, só no calabouço,
Presa da voz distante, eco tenebroso,
De feros rostos numas tardes malditas.

A agulha do barômetro cai, honesta
Indicadora de trovões que se abeiram
Do silêncio das águas claras, emprestam

Drama e cor, ares de tragédia, cimeira
Colisão de sonhos, fantasias crestas,
De tudo, nada resta: só uma caveira.

Jardim de Bárbaros

Febris, os dedos do jardineiro louco
Semeiam hordas, vis, incivilizadas;
O solo rega com sangue sobre os ouros
Rúbio incêndio que perfaz, de tudo, nadas.

Entre sedosas multicolores goivas
Rugem coturnos: eis que lá vêm os godos!
Com beijo fátuo anunciam os sândalos
Outra investida de Genserico Vândalo.

O povo dança; nos cabelos, camélias;
Rendem seus louros aos louros da Suécia.
Buquês, coroas, de alvas margaridas
Enfeitadas, saúdam os teutonidas.

De vida efêmera similar a lírios,
Perece a pátria, ferida de aço sírio.
Canoro fumo d’eflúvias alfazemas
Envolve as velas da frota sarracena.

Segamos vivos ramos de violetas,
Cegamos, frios, às mortes violentas,
Nação defunta; ó aroma dos cravos:
Visão profunda de uma Roma de escravos!

Aristodemo

A tua mentalidade aristocrática
Faz-te julgar-te acima de toda crítica,
Mas se és raio da roda da política
Sob ofensas pagarás por tuas práticas.

Sou cidadão; minha raiva é matemática;
Pago impostos, sigo leis; a rosa mística
De tuas decisões – obras cabalísticas –
Desperta a ira, logo, xingo-a, enfático!

Na democracia, não há cidadão
Especial; todo cargo, um favor
Temporário, precário; um galardão

Perdido nos ventos que mudam o humor
Expresso no feroz, cruel palavrão
Que te dirige o soberano eleitor!

Poemas