Poeta Modernista

Sem ritmo, sem cadência,
Sem rima, sem consequência,
O modernista se diz poeta:
Com versos tortos na ordem direta
Dissipa em bobices cotidianas
Toda a herança Parnasiana,
Simbolista, Romântica!
Somente sua pretensão
Transatlântica
Estampada no rosto
Supera as proporções
Titânicas
De seu mau gosto.

Quem és tu?

Meus passos hesitantes aproximam-me
Do Palácio das Dores, onde um pleito
Insano a que as Parcas obrigam-me
Levarei ao Mestre do Direito.

A cada curva da estrada lamacenta
Aloja-se uma besta em sentinela,
Guardiã dos Portões do Cumprimento,
Brandindo uma exigência de chancela.

“Quem és tu?”, interroga-me a Górgona
A primeira de longa fila,
Que trincando seus dentes isógonos,
O ódio ao visitante sibila.

“Sou Ninguém”, respondo cabisbaixo,
“Ninguém que importe, apenas um velho,
Em que lugar nenhum me encaixo,
Teu mero reflexo no espelho”.

Em seguida, interpela-me o Cíclope,
A pança cúpida por carne crua,
“Quem és tu?”, ruge e estreita o olho míope,
Desde alturas que a coragem acua.

“Sou Ninguém”, assevero, não reluto:
“Sou o Ninguém que navega por maus ventos,
O Ninguém cuja voz ninguém escuta,
O Ninguém que ignora os elementos,

O Ninguém que no ventre das ovelhas,
Despreza os que ostentam sinecuras,
E que com a diligência das abelhas,
O olho do Cíclope perfura”.

À entrada do Palácio sorri a esfinge
O enigma que me devora,
O sangue em suas presas tinge
De terror o meu semblante agora.

“Quem és tu”, desafia-me o monstro.
“Sou Ninguém”, gaguejante, replico,
“Um Ninguém que, como logo o demonstro,
Teus enigmas não devoro, decifro-os!”

Mais além vem-me o Leão de Nemeia
De arregaçadas babujantes fauces
Fita-me qual Pigmalião sua Galateia
Expectante de um passo meu em falso.

“Quem és tu?”, brame a insaciável fera.
“Sou Ninguém”, balbucio um acalanto,
“Sou Ninguém que tua cabeça fere,
O Ninguém que tua pele veste em manto”.

Enfim diante do trono do Leviatã,
A bocarra deglutidora de vidas;
A seus pés os ossos dos que, no afã
De exigir o cumprimento de seus pedidos,
Experimentaram a sorte malsã,
De morte em seu ventre digeridos.

Nada me pergunta, nada quer ouvir,
Gargalha, debocha, escarnece:
“Idiota! Tudo o que quero saber de ti,
É teu nome, R.G., CPF!

Volta agora outro dia –
Que já se encerrou o expediente –
Nalgum momento entre o meio-dia
E a hora do sol poente”.

Jazz

Em ritmo quinário
Melódico trago
Reverso salário
Anódino pago.

Um passo de cada vez
Septualizo o compasso
Dia após dia do mês
De que me desembaraço.

Não busque
Regularidade
Em ver-
Sos tercinos:
É um jazz
Que surpreendentemente
Des-
ce das colinas
Ines-
peradamente e finaliza num
Repente.

A pedra e a fenda

Mais pressinto do que entendo
A fenda de tolices
Que cinge a religiosidade
Como resguardo de nociva carolice.
 
Uma e outra aparentadas no temor
de Deus, a primeira é grata refém
Da Bondade Soberana.
Na segunda intuo a ausência desse Amor
Infinito cuja coroa usurpa um supersticioso
Horror a todo Bem.
 
No solo ressequido do coração em pânico
Enraizam-se,
Germinam,
Brotam,
Defluem tortuosas frondes
Embaraçadas de angústias daninhas
E de ódios trepadeiros.
 
Do religioso, sobre a outra face
Da moeda que se dá ao inimigo,
Cumulam-se o
Ouro, a
Prata, as
Pedras inquebráveis,
Sobre quem se funda a nossa Igreja.

Sorte e Providência

Digo “boa sorte”,
Intento indiferença
Pois, Cristão, não sei a sorte:
Só a Providência.

Versão em espanhol por Catherine Espinoza:

Digo “buena suerte”,
Intento indiferencia
Ya que, Cristiano, no sé la suerte:
Sólo la Providencia.

A Slumber Did My Spirit Seal (tradução) – William Wordsworth

A slumber did my spirit seal

Um sono fez-me d’alma um selo

A slumber did my spirit seal;
I had no human fears:
She seemed a thing that could not feel
The touch of earthly years.
Um sono fez-me d’alma um selo;
Humano destemor:
Ela como que perdera o zelo
Do toque dos anos em flor.
No motion has she now, no force;
She neither hears nor sees;
Rolled round in earth’s diurnal course,
With rocks, and stones, and trees.
Nem meneio lhe resta, nenhum recurso;
Ela nem ouve nem vê;
Rotante em terrestre diurno percurso,
As pedras e plantas não lê.

Aristodemo

A tua mentalidade aristocrática
Faz-te julgar-te acima de toda crítica,
Mas se és raio da roda da política
Sob ofensas pagarás por tuas práticas.

Sou cidadão; minha raiva é matemática;
Pago impostos, sigo leis; a rosa mística
De tuas decisões – obras cabalísticas –
Desperta a ira, logo, xingo-a, enfático!

Na democracia, não há cidadão
Especial; todo cargo, um favor
Temporário, precário; um galardão

Perdido nos ventos que mudam o humor
Expresso no feroz, cruel palavrão
Que te dirige o soberano eleitor!

Nado sincronizado

Musculatura rija e tesa
N’água azul de cloro
Exsuda nos poros
Coreografada beleza!

À música, eis que elas sorriem:
Graça gestual
Afogo feral
Que aplausos mil lhes angariem!

As divinas musas do esporte
De rostos submersos
E pés ao universo:
Que o ouro no seio as conforte!

Duas vidas de treino e dor
São sincronizadas
E movem-se aladas
Em nome da pátria e do amor!

Essas mulheres exemplares
Que honram as famílias
Orgulhosas filhas
Do amor ao país em seus lares!

Poetisa romântica

No papel de seda
Dedos de seda
Palavras de seda
Escreve.

A pele trêmula
Em verbos trêmulos
De sonidos tremolos
Embebe-se.

Sente-se frágil
E a letra frágil
No verso frágil
Derrete-se.

No braço, o arrepio
Da nuca, o arrepio
Estrofe, num arrepio,
Emerge.

De cristal, um estilhaço
No seio, o estilhaço
Em poema, estilhaço,
Enternece.

Sólita, a pluma,
Leve, a pluma,
Roça, a pluma,
E enlouquece.

Poetisa, romântica,
Delicada, romântica,
Delira, romântica,
Envaidece-se.

Dream Land (tradução) | Terra Onírica

Dream Land (Christina Rossetti)

Terra Onírica (Trad. Alexei Gonçalves de Oliveira)

Where sunless rivers weep
Their waves into the deep,
She sleeps a charmed sleep:
Awake her not.
Led by a single star,
She came from very far
To seek where shadows are
Her pleasant lot.
Lá onde choram os rios obscuros
Ondulantes profundos e puros
Ela dorme um sono conjuro:
Não a desperteis!
Por solitária estrela-guia
Que ao longe ela via
Em busca das sombras, ia
Ao lote dos reis!
She left the rosy morn,
She left the fields of corn,
For twilight cold and lorn
And water springs.
Through sleep, as through a veil,
She sees the sky look pale,
And hears the nightingale
That sadly sings.
Deixou a rósea aurora,
Deixou dos campos a flora,
Pelo arrebol foi embora
Rumo às águas correntes.
Fura o sono como um véu,
Mirando o pálido céu,
Ouvindo o canto de mel
Do rouxinol penitente.
Rest, rest, a perfect rest
Shed over brow and breast;
Her face is toward the west,
The purple land.
She cannot see the grain
Ripening on hill and plain;
She cannot feel the rain
Upon her hand.
Pousa e um repouso perfeito
Derrama-se da testa ao peito;
Ao oeste, o rosto satisfeito
Na terra roxa.
Não pode ver o grão
Maduro sobre o chão;
Nem mesmo em sua mão
Que a chuva afrouxa.
Rest, rest, for evermore
Upon a mossy shore;
Rest, rest at the heart’s core
Till time shall cease:
Sleep that no pain shall wake;
Night that no morn shall break
Till joy shall overtake
Her perfect peace.
Pousa e repousa, eterno desmaio
Sobre o limo da praia;
Pousa e repousa no cór junto à raia
Até que o tempo cesse:
Um sono sem dor que o desperte;
Noite sem choro que a aperte
Até que o gozo em seu corpo inerte
A paz perfeita floresce.
Poemas