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Judiciária

Cara Justiça deâmbula e pávida
Expõe-se nua carne à chuva e ao frio:
Em sangue vivo sua pele pálida
Franqueia as fauces ao que a desafia.

A fina seda que seus olhos vela,
Desprezo rude que mal acoberta
Desinteresse por mortais querelas
Nem elegias teu amor desperta.

Ao clamor dos lares por mais justiça,
Conclama célere os magarefes
De mantos negros em blasfema missa:
Sessão solene do STF!

Reinaldo Azevedo

A meus alunos tua leitura recomendo
Pela graça e estilo que teu texto ensina –
Pois acima e antes, és um escritor! –
Pela Lógica e Justiça de teus argumentos,
A partir de preferências cristalinas
Facilmente aferíveis pelo teu leitor.

De tuas ideias, não concordo, não discordo –
Não é este o caso! –
Sem valorá-las, reconheço seu valor,
Pois se minha Musa fosse a mesma que te acorda
– da aurora ao ocaso! –
Que tens razão concluiria, indolor.

… ao Brasileiro!

Brasileiro, ergue por um átimo tuas ventas
do pó ao qual retornarás,
Lança ao fogo do esquecimento
as mazelas nacionais,
as lamentações infindas,
Finge – isto que fazes tão bem!
– não afligir-se da sobrevivência,

O alimento em grande estoque, as contas pagas,
corpo nutrido em abundância,
conforto e exuberância,
ostentação e luxo, tudo isto
Finge já os possuir e, ao espelho, indaga
com o ar de enfado dos bem nascidos:
– Que faço agora que de nada
mais posso me queixar?

Responde. E faze-o.

Eleva tua alma, brasileiro;
Ausculta a música da eternidade,
Extasia-te no ouzo das letras do universo,
Deságua lágrimas n’airosas visagens:
Das procelas econômicas, poesia;
Das insídias governamentais, peças de teatro;
Das misérias sociais, venustas paisagens;
Das almas corruptas, contos de virtudes,
Romances de valores, poemas heroicos
E quadrinhos de super-heróis.

Olavo de Carvalho

Nas ideias brindaste a solidão:

Das estéreis, mortas inteligências,

Ferem-te o opróbrio e a demência,

Dos compatriotas – nossos irmãos!

 

De teu curso fizeste lenitivo:

Santo remédio para almas canhotas,

Doce unguento para as mentes cambotas,

Letárgicas, do imbecil coletivo!

 

Censuras vis e magras como óbolos

Esputam hereges da Nova Era:

Estertoram – vermes! – na lama a inveja,

 

Da sublimidade fazem quimeras,

Escarnecendo das palavras régias,

Pois que – ora veja! – foste um dia astrólogo!

Gonçalves Dias

Tua terra tem mil coisas

de que não podes te orgulhar,

Ou foste tu que ensinastes

às aves, o gorjeio,

ou o canto, ao sabiá?

 

Ou com tuas mãos plantastes

As palmeiras ou, nas várzeas,

As flores;

 

Ou, no céu, engastastes

As estrelas,

Ou, nos bosques, as tais vidas –

Ou, nas vidas,

Tais amores?

 

Gonçalves Dias,

Teu prazer com tais primores,

Ao mundo não aproveitará;

Dos desfrutes teus,

Das arredias e noturnas cismas tuas,

Permite, sim, a morte, Deus;

Imortais apenas as canções

que no exílio da alma compuseste:

Todas muito mais belas

do que o canto do sabiá.

Poemas