Posts mais comentados
- De pedras e caminhos — 2 comentários
- Senhor, iluminai — 1 comentário
- “Success is counted sweetest” (tradução) — 1 comentário
- Serpente pérfida — 1 comentário
- Rejeição — 1 comentário
out 12
ago 25
Meus passos hesitantes aproximam-me
Do Palácio das Dores, onde um pleito
Insano a que as Parcas obrigam-me
Levarei ao Mestre do Direito.
A cada curva da estrada lamacenta
Aloja-se uma besta em sentinela,
Guardiã dos Portões do Cumprimento,
Brandindo uma exigência de chancela.
“Quem és tu?”, interroga-me a Górgona
A primeira de longa fila,
Que trincando seus dentes isógonos,
O ódio ao visitante sibila.
“Sou Ninguém”, respondo cabisbaixo,
“Ninguém que importe, apenas um velho,
Em que lugar nenhum me encaixo,
Teu mero reflexo no espelho”.
Em seguida, interpela-me o Cíclope,
A pança cúpida por carne crua,
“Quem és tu?”, ruge e estreita o olho míope,
Desde alturas que a coragem acua.
“Sou Ninguém”, assevero, não reluto:
“Sou o Ninguém que navega por maus ventos,
O Ninguém cuja voz ninguém escuta,
O Ninguém que ignora os elementos,
O Ninguém que no ventre das ovelhas,
Despreza os que ostentam sinecuras,
E que com a diligência das abelhas,
O olho do Cíclope perfura”.
À entrada do Palácio sorri a esfinge
O enigma que me devora,
O sangue em suas presas tinge
De terror o meu semblante agora.
“Quem és tu”, desafia-me o monstro.
“Sou Ninguém”, gaguejante, replico,
“Um Ninguém que, como logo o demonstro,
Teus enigmas não devoro, decifro-os!”
Mais além vem-me o Leão de Nemeia
De arregaçadas babujantes fauces
Fita-me qual Pigmalião sua Galateia
Expectante de um passo meu em falso.
“Quem és tu?”, brame a insaciável fera.
“Sou Ninguém”, balbucio um acalanto,
“Sou Ninguém que tua cabeça fere,
O Ninguém que tua pele veste em manto”.
Enfim diante do trono do Leviatã,
A bocarra deglutidora de vidas;
A seus pés os ossos dos que, no afã
De exigir o cumprimento de seus pedidos,
Experimentaram a sorte malsã,
De morte em seu ventre digeridos.
Nada me pergunta, nada quer ouvir,
Gargalha, debocha, escarnece:
“Idiota! Tudo o que quero saber de ti,
É teu nome, R.G., CPF!
Volta agora outro dia –
Que já se encerrou o expediente –
Nalgum momento entre o meio-dia
E a hora do sol poente”.
ago 04
Em ritmo quinário
Melódico trago
Reverso salário
Anódino pago.
Um passo de cada vez
Septualizo o compasso
Dia após dia do mês
De que me desembaraço.
Não busque
Regularidade
Em ver-
Sos tercinos:
É um jazz
Que surpreendentemente
Des-
ce das colinas
Ines-
peradamente e finaliza num
Repente.
jul 29
jul 18
Digo “boa sorte”,
Intento indiferença
Pois, Cristão, não sei a sorte:
Só a Providência.
Versão em espanhol por Catherine Espinoza:
Digo “buena suerte”,
Intento indiferencia
Ya que, Cristiano, no sé la suerte:
Sólo la Providencia.
jul 17
A slumber did my spirit seal |
Um sono fez-me d’alma um selo |
| A slumber did my spirit seal; I had no human fears: She seemed a thing that could not feel The touch of earthly years. |
Um sono fez-me d’alma um selo; Humano destemor: Ela como que perdera o zelo Do toque dos anos em flor. |
| No motion has she now, no force; She neither hears nor sees; Rolled round in earth’s diurnal course, With rocks, and stones, and trees. |
Nem meneio lhe resta, nenhum recurso; Ela nem ouve nem vê; Rotante em terrestre diurno percurso, As pedras e plantas não lê. |
jun 16
A tua mentalidade aristocrática
Faz-te julgar-te acima de toda crítica,
Mas se és raio da roda da política
Sob ofensas pagarás por tuas práticas.
Sou cidadão; minha raiva é matemática;
Pago impostos, sigo leis; a rosa mística
De tuas decisões – obras cabalísticas –
Desperta a ira, logo, xingo-a, enfático!
Na democracia, não há cidadão
Especial; todo cargo, um favor
Temporário, precário; um galardão
Perdido nos ventos que mudam o humor
Expresso no feroz, cruel palavrão
Que te dirige o soberano eleitor!
jun 07
Musculatura rija e tesa
N’água azul de cloro
Exsuda nos poros
Coreografada beleza!
À música, eis que elas sorriem:
Graça gestual
Afogo feral
Que aplausos mil lhes angariem!
As divinas musas do esporte
De rostos submersos
E pés ao universo:
Que o ouro no seio as conforte!
Duas vidas de treino e dor
São sincronizadas
E movem-se aladas
Em nome da pátria e do amor!
Essas mulheres exemplares
Que honram as famílias
Orgulhosas filhas
Do amor ao país em seus lares!
maio 23
No papel de seda
Dedos de seda
Palavras de seda
Escreve.
A pele trêmula
Em verbos trêmulos
De sonidos tremolos
Embebe-se.
Sente-se frágil
E a letra frágil
No verso frágil
Derrete-se.
No braço, o arrepio
Da nuca, o arrepio
Estrofe, num arrepio,
Emerge.
De cristal, um estilhaço
No seio, o estilhaço
Em poema, estilhaço,
Enternece.
Sólita, a pluma,
Leve, a pluma,
Roça, a pluma,
E enlouquece.
Poetisa, romântica,
Delicada, romântica,
Delira, romântica,
Envaidece-se.
maio 23
Dream Land (Christina Rossetti) |
Terra Onírica (Trad. Alexei Gonçalves de Oliveira) |
| Where sunless rivers weep Their waves into the deep, She sleeps a charmed sleep: Awake her not. Led by a single star, She came from very far To seek where shadows are Her pleasant lot. |
Lá onde choram os rios obscuros Ondulantes profundos e puros Ela dorme um sono conjuro: Não a desperteis! Por solitária estrela-guia Que ao longe ela via Em busca das sombras, ia Ao lote dos reis! |
| She left the rosy morn, She left the fields of corn, For twilight cold and lorn And water springs. Through sleep, as through a veil, She sees the sky look pale, And hears the nightingale That sadly sings. |
Deixou a rósea aurora, Deixou dos campos a flora, Pelo arrebol foi embora Rumo às águas correntes. Fura o sono como um véu, Mirando o pálido céu, Ouvindo o canto de mel Do rouxinol penitente. |
| Rest, rest, a perfect rest Shed over brow and breast; Her face is toward the west, The purple land. She cannot see the grain Ripening on hill and plain; She cannot feel the rain Upon her hand. |
Pousa e um repouso perfeito Derrama-se da testa ao peito; Ao oeste, o rosto satisfeito Na terra roxa. Não pode ver o grão Maduro sobre o chão; Nem mesmo em sua mão Que a chuva afrouxa. |
| Rest, rest, for evermore Upon a mossy shore; Rest, rest at the heart’s core Till time shall cease: Sleep that no pain shall wake; Night that no morn shall break Till joy shall overtake Her perfect peace. |
Pousa e repousa, eterno desmaio Sobre o limo da praia; Pousa e repousa no cór junto à raia Até que o tempo cesse: Um sono sem dor que o desperte; Noite sem choro que a aperte Até que o gozo em seu corpo inerte A paz perfeita floresce. |