João Batista

Largai-me na masmorra mais profunda, nas entranhas do planeta,
E minha voz penetrará vossos ouvidos
Sussurrante em cada brisa. Serei ouvido
No farfalhar das folhas de papel em que a tinta de vossa caneta
Registrará minha sentença.

Cortai minha cabeça e servi-a a vossa amante num prato:
Ouvir-me-eis no zumbido dos insetos,
No borbulhar do espumante premiado, infecto,
No roçar dos talheres de prata
Na carne da lagosta, rosácea e densa.

Sepultai meu corpo e, nas frinchas das paredes, escutai:
Minha língua incorpórea ainda fala, barítona,
De vossas culpas e sofismas, epítome,
De vossas blasfêmias, ai
De vós, raça de víboras – eis a cruz de vossa descrença!

Nas dobras de vossas togas, nos fios de vossas barbas,
Nos nós de vossas gravatas,
Nas mesas de aristocratas,
Nas camas que vos enfartam,
Minha voz dirá – Culpado! – até que as almas se convençam!

Equação

Fumos aromáticos
Tua pele exala;
Sensos matemáticos
Minha mente cala.

Curvas concordantes
Tácteis, geométricas,
Olhares secantes
Nus trigonométricos.

Dedos aritméticos
Rodeiam, circundam,
Contando algébricos
Suspiros profundos.

Eros logarítmico,
Rubor cotangente:
Equaciona, rítmico,
O trincar de dentes.

She walks in beauty (Tradução)

She walks in beauty

George Gordon, Lord Byron

Caminha como a noite, bela

Tradução por Alexei Gonçalves de Oliveira

She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that’s best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
Caminha como a noite, bela,
De anúbios climas, de ástreos céus;
Melhor de treva e brilho, nela,
Unem-se no rosto e olhos seus:
Mescla-te à terna luz, donzela,
Que o dia fútil deixa ao léu.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o’er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling place.
U’a sombra a mais, um raio abaixo,
Aleijaria a infinda graça
Ondulada em corvídeos cachos
Ou que alumia suave os traços
Onde serenamente achas
Morada para o que te abraças.
And on that cheek, and o’er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!
Nas bochechas e nos sobrolhos
Suavidade calma, eloquente,
Sorri e vence, e pinta aos olhos,
Dias bem vívidos e quentes,
A mente em paz co’o que acolhe,
Coração que ama inocente!

A mais jovem das deusas pagãs

No tempo em que a eternidade no berço inda vagia
A Fortuna, essa bruxa rancorosa,
No jardim das rosas da Vida
Alcovitou o amor do Enfado com a Vacuidade.

Desse encontro fátuo de uma noite sem amor
De prazer e desprezo,
Nasce órfã de si mesma uma bela nova deusa.

Faminta pelo amor do pai, eterno insatisfeito,
Multiplica as faces, cores, peles e cabelos;
Vestes e calçados e ornamentos a cada olhar transmudam-se;
Sua voz, Música de mil ritmos, melodias e harmonias,
Mal se ouve, já ao vento se desfaz.

Seus lares estão em toda parte,
Do litorais às montanhas, das ilhas aos continentes,
Das florestas aos desertos, dos pântanos às savanas –
E em nenhum deles ela mora,
Pois ao relento, catatônica, devaneia e sonha,
E arquiteta o próximo projeto.

Seus pés navegam pelos ventos
Suspensa pelas asas da Insegurança.
Seus amores não perduram por mais de um segundo…
Seus beijos roçam sem tocar os pretendentes
Provocando insensíveis arrepios de desejo irrefreável.

Correndo, voando, mais célere do que o Amor das
Multidões que se arrastam a beijar seus passos,
Ela, muda, sorri, e transmuda-se novamente,
E ainda mais uma vez.

Feiticeira cruel, dominadora impiedosa,
A mais jovem das deusas pagãs
– Seu nome? Moda! –
Subjuga, escraviza, tortura, domina,
Mas, enlouquecida, não conquista
Sequer um sorriso,
Ou um gesto de carinho,
De seu pai.

O aniversário do Tempo (poema de Ano Novo)

Hoje é o aniversário do Tempo:
Primicério da existência
Impera sobre a florescência
E toda juvenília
O seu toque encarquilha.
Ao roçar de uma pena em provectos incunábulos
Grava num retábulo
O que fizeste em párvulos
Instantes pretéritos imberbes
E, neles, te embebes,
Tu que ora te cognominas
Barbaças macróbio
Decano cenóbio
Com alma de menino.

No aniversário do Tempo
Cede a vez o juvenescente
Ao senescente;
O exubério
Ao climatério:
À cuna torna o patriarca
Cujo túmulo demarca
E no bibeiro embriaga
Com o leite da canície
As lembranças aziagas
Dos anos de puerícia.

Hoje, aniversário do Tempo,
Abre tuas portas à anciania
E nada temas da caducidade:
Pois conheceste a meninia
E as dores da mocidade;
Os babadores e cueiros,
Suas formas, cores e cheiros,
Não te trazem novidade,
E toda vida é uma vela
De procissão em mãos pucelas:
Conquanto dure até o sênio,
Cedo livre do proscênio
Teu nome é sol-posto
Que não mais sorri nos rostos.

Géssica

Íris cerúleas –
Iridescentes –
Perscrutam-me as veras:
Estanciadas borbulhas
Descrentes
Por tantas esperas.

Melífluos capilares –
Enredantes –
Soçobram-me as dores:
Profundas, alvares,
Errantes,
No Mar de Rigores.

Fronte alviderme –
Alabastrina –
Sorri-me aljofarada:
Prisioneiro inerme –
Desatino! –
Pelo toque de fada.

Voz septíssona –
Policrômica –
Entoa, metódica:
Olvido o barítono,
Atônito,
Acorde monódico.

Os sete pilares do cavaleiro (suíte de poemas)

Escrevi a suíte de poemas abaixo em algum momento do final da década de 1980 e passei-o a limpo em 1997. A intenção foi reproduzir o estilo do “Tao Te King”, de Lao Tsé, na tradução de Pedro Tornaghi, para expressar valores e símbolos ocidentais. O comprimento dos versos foi planejado para que, numa diagramação centralizada, sugerisse a forma de ideogramas e, no conjunto, uma grande coluna ornamentada.

OS SETE PILARES DO CAVALEIRO

Liberdade, o supremo bem:
A donzela a ser protegida das violações dos bárbaros.

Amor, o supremo sentimento:
Amor a si mesmo, amor à humanidade,
Amor ao vil e ao virtuoso.

Lealdade, o supremo valor:
Leal aos próprios ideais, à própria palavra,
Leal aos amigos e aos adversários.

Verdade, o supremo compromisso:
Verdadeiro em tudo o que faz, em tudo o que diz,
Verdadeiro em tudo o que sente.

Justiça, o supremo objetivo:
Justo, não poupa o rigor aos amigos,
Justo, não nega misericórdia aos inimigos.

Humildade, a suprema virtude:
Humilde, reconhece os erros e os assume em suas conseqüências,
Humilde, celebra as vitórias sem orgulho.

Honra, a suprema recompensa,
Do cavaleiro que se assentar sobre os sete pilares.

O JURAMENTO DO CAVALEIRO

Liberdade, amor, lealdade,
Verdade, Justiça, Humildade e
Honra, o sétimo dos sete pilares.
Juro defender em meu coração
Com minha própria vida
Em nome de Deus, Todo Poderoso,
Até o fim de meus dias.

LIBERDADE

Livre é o cavaleiro
Porque livre é seu coração.
Livres são todos os que o rodeiam.
A boa luta do cavaleiro é a luta da liberdade.
Não haverá recanto do mundo por mais longínquo
Em que o forte oprima e abuse do fraco
Sem que sangre o coração do cavaleiro.

AMOR

O bom cavaleiro sabe amar
Com pureza no coração.
Ama sem pedir retorno
A todos indistintamente.
Não deixa de lutar a boa luta
Mas não deixa de amar.
O cavaleiro ama porque ama o amor.

LEALDADE

Não há vento, fogo, espada ou vaga
Que faça o cavaleiro recuar de sua palavra.
Não há inimigo que o cavaleiro
Não ouse encarar de frente.
O cavaleiro é leal.
Prefere, antes, a morte inglória
À traição.

VERDADE

O cavaleiro mira-se no espelho
E só vê a verdade de si mesmo.
Verdadeiro, não mente jamais,
Mesmo que a mentira ofereça maior vantagem.
O cavaleiro é transparente, cristalino.
Não há duas palavras, somente uma: a verdadeira.
A verdade é o peso e a medida do cavaleiro.

JUSTIÇA

Porque verdadeiro o cavaleiro é justo.
Pune na proporção das faltas,
Recompensa na proporção do bem realizado.
Em sua Justiça, não vê amigos nem inimigos.
Porém a justiça do cavaleiro não oprime.
Pois a recompensa do justo é a sua Liberdade
E o injusto encarcera-se a si próprio.

HUMILDADE

O cavaleiro não se vangloria: resigna-se à vitória,
Resigna-se à derrota.
Resigna-se ao aprendizado da Justiça,
a Justiça da vitória e a Justiça da derrota.
Humilde, ele derrota o orgulho da vitória.
Humilde, ele vence o amargor da derrota.
O cavaleiro sabe que tudo é transitório.

HONRA

A honra do cavaleiro é a obediência
Aos seis pilares anteriores.
A honra é o sétimo pilar
Sustentado pelos outros seis.
A honra é o pilar que sustenta
A própria existência do cavaleiro.
O cavaleiro é a sua própria honra.

Esperança

Sentimento, o que transborda e se derrama
Em vinho amargo – fazes de mim tão vivo! –
Nos sonhos acres de meu peito em chamas
À presença do andar altivo
Da Esperança em passos largos, incompatíveis
Com a leveza que se espera de uma dama:
Teus saltos finos se disjuntam nos desníveis
Da estrada espúria alicerçada em lama.

Sentimentos de sucedâneos desprovidos
Sucedem-se, sentidos desalentos
Acasalam-se, e parem mil rebentos,
E povoam o poético espírito falido.
Mas a aurora eleva e renova a alvura
Da paisagem inóspita da vida:
A Esperança novamente desabrida
O véu do abatimento com as mãos perfura.

Montanha

Dos ventos e dos tempos às vicissitudes
Ela dedica indiferença sobranceira…
Assurgente vértice vivo da fronteira
Donde descaem alvos fumos nos taludes…

Escalo as encostas frias e amiúde
Falseiam-me os pés, rolo pelas ribanceiras:
Arrastado por avalanches financeiras,
Inda assim não faço de mim um Robin Hood.

Se do sucesso a prata não é atestado
É nas escolhas que se demonstra honrado
O homem que se desprende do alfeizar

E em queda livre sucumbe aos pés do Estado
E nas planícies plana aos ventos de tornados
E das depressões decola, e aprende a voar!

Cidade

Árvores ardem
Retortas raízes
Solo salino
Dentadas dendrias
Ramos raivosos
Troncos trançados
Mordentes muralhas
Flamante floresta!

Estático estuque
Concreto cretáceo
Líquor limoso
Metálico metro
Asmático asfalto
Fumígena flora
Decora devora
Cinérea cidade!

Túmulo túrgido
Ímpia ínfima
Via vital
Frágeis frêmitos
Diversões desvalidas
Ominosos ônibus
Criminosos cremam
Húbris urbana!

Poemas